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Está aparecendo na imprensa trechos e fragmentos de uma entrevista do Cardeal Carlo Maria Martini, Arcebispo Emérito de Milão. Não sei direito o que ele disse. Certamente falou sobre preservativos... Parece que disse que, em casos extremos, como na relação sexual entre pessoas casadas, em que um dos cônjuges tenha aids, o uso de preservativos seria um mal menor. Pronto! Igreja e sexo... Notícia na certa! Até a grande teóloga Fátima Bernardes, da Rede Globo, já vaticinou, feliz, que a Igreja está se modernizando...
Que pensar dessa enésima presepada? Duas coisas, aparentemente contraditórias, paradoxais, mas ambas verdadeiras. Vejam se concordam comigo:
(1) O mundo não quer saber a motivação profunda da moral católica. Não quer saber nem pode compreender, porque todas as exigências do cristianismo nascem do encontro com Alguém que o mundo jura que está morto, mas que os cristãos sabem que está vivo, ressuscitado; Alguém a quem amamos, que nos interpela, que é exigente e faz de nós criaturas novas. A moral cristã somente pode ser compreendida plenamente por corações renovados. Que tal a afirmação de São Paulo, há dois mil anos? “Quanto a nós, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, a fim de que conheçamos os dons da graça de Deus. Desses dons não falamos segundo a linguagem ensinada pela sabedoria humana, mas segundo aquela que o Espírito ensina, exprimindo realidades espirituais em termos espirituais. O homem psíquico (= entregue unicamente à sua razão) não aceita o que vem do Espírito de Deus. É loucura para ele; não pode compreender, pois isso deve ser julgado espiritualmente (= à luz do Espírito Santo). Nós temos o pensamento de Cristo!” (1Cor 2,12-15.16b). Caro Visitante, diante dessa não compreensão da novidade do Evangelho, diante dessa incapacidade de apreciar e saborear as coisas que nascem do encontro com Cristo no Espírito, o mundo olha o cristianismo como algo meio exótico e anacrônico. Resta-lhe, então, apegar-se a questões pitorescas e polêmicas. E nisso fica. Eis a agenda cristã para o mundão: preservativos, moral sexual, casamento dos padres, união gay, ordenação de mulheres, e por aí vai. Como se essas coisas fossem o essencial! Chegam mesmo a dizer que a rejeição do cristianismo pelo mundo de hoje depende disso. Esquecem ou fingem esquecer que as igrejas protestantes do centro-norte europeu têm tudo isso: pastores casados, pastoras, pastores gays, preservativos, total permissividade na moral sexual... e estão vazias! Porque a questão é outra: é a de ter encontrado o Senhor, de aderir a Cristo com paixão, experimentá-lo de verdade, nele crendo e estando disposto a por ele dar a vida.
(2) Por outro lado, paradoxalmente, o mundo se incomoda com o que a Igreja pensa e fala. Todo mundo faz como bem entende; ninguém dá bola para o que a Igreja determina – quantos casais no Brasil deixam de usar preservativo ou contraceptivos por atenção à Igreja? Quantos jovens brasileiros deixam de ter relações pré-matrimoniais porque a Igreja diz que é errado? Assim por diante... E, no entanto, quando a Igreja fala, incomoda pra danar! Por quê? Aqui está algo interessante! É que este Ocidente neo-pagão não pode passar sem a Igreja! Nasceu cristão católico, foi forjado pela Igreja, tornou-se parcialmente protestante, mas seu inconsciente continua cristão! A Igreja é como uma incômoda voz da consciência, que se deseja calar e não se consegue. O Ocidente precisa ainda ouvir a Igreja dizer a verdade, ainda que ele critique e amaldiçoe essa “velha bruxa” católica. Sem a Igreja, o Ocidente decairia de vez! Ele continuará precisando da Igreja, nem que seja para brigar com ela e dizer que a odeia... É como uma senhora atéia que, na eleição de Bento XVI, escrevera a um jornal italiano: “Sou atéia, mas sinto-me feliz pela eleição do novo papa, pois não posso me sentir segura na vida sem saber que, na janela do Vaticano, existe aquele homem vestido de branco, que nos alerta para coisas que gostaríamos de esquecer, mas que, ao fim das contas, nos permite continuar vivendo de modo mais ou menos decente”.
Pense nisso...
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