Home Análises O Papa, o terror nazista, o silêncio de Deus e a bobagem do jornalista
O Papa, o terror nazista, o silêncio de Deus e a bobagem do jornalista PDF Imprimir E-mail
Análises
Sáb, 20 de Fevereiro de 2010 22:55

Na conclusão de sua visita à Polônia, o Santo Padre Bento XVI visitou o terrível campo de concentração de Auschwitz. Foi impressionante acompanhar o Papa, sozinho, mãos postas, olhar triste, rosto meio lívido, como que adolorado. Ia a passos firmes: atravessou o portão sobre o qual se liam as palavras infames, em alemão: «Arbeit Mach Frei» («O trabalho torna livre»). Foi o próprio Papa quem desejou essa visita dramática: «Vim hoje como filho do povo alemão, e precisamente por esse motivo devo dizer e posso dizer: Não podia deixar de vir aqui. Tinha de vir! Era e é um dever frente à verdade e frente ao direito de quem sofreu, um dever frente a Deus, vir aqui como sucessor de João Paulo II e como filho do povo alemão, filho desse povo do qual tomou o poder um grupo de criminosos com promessas mentirosas, em nome de perspectivas de grandeza, de recuperação da honra da nação ou de sua importância, com pressões de bem estar e inclusive com a força do terror e da ameaça».

 

Mas, o mais impressionante das palavras do Papa foi quando falou de Deus nesse lugar de morte e escuridão: «Tomar a palavra neste lugar de horror, de crimes contra Deus e contra o homem sem precedência na história, é quase impossível, e é particularmente difícil e oprimente para um cristão, para um Papa que procede da Alemanha. Em um lugar como este faltam as palavras; no fundo, só há espaço para um atônito silêncio, um silêncio que é um grito interior para Deus: por que te calaste? Por que quiseste tolerar tudo isso?» E ele, o Sucessor de Pedro, continuou, de modo dramático e corajoso: «Onde estava Deus nesses dias? Por que se calou? Não podemos escrutar o segredo de Deus, só fragmentos, e nos enganamos quando queremos converter-nos em juízes de Deus e da história».

A atitude do Papa foi profunda, dramática e belíssima. Diante dos mistérios da vida, o homem – sobretudo o crente – deve saber calar; deve saber colocar suas interrogações no coração de Deus. O Papa reconhece: não sabemos o motivo de tamanha atrocidade. Sabemos da culpa dos homens, do mal uso de sua liberdade, de sua loucura de esquecer Deus e querer ser deus, terminando por tornar-se um monstro miserável e insano. Mas, mesmo assim, continua a pergunta tão dolorida: "Por quê?" Não há resposta que responda totalmente... Por isso o Papa, como verdadeiro crente, pequeno diante do mistério de Deus, que ele sabe ser amor e fonte de vida, somente pode suplicar: «Desperta! Não te esqueças de tua criatura, o homem!». Eis: o homem capaz dos crimes dos nazistas é ainda capaz de coisas piores... Sem Deus, ele é um monstro: do aborto, da manipulação criminosa de embriões humanos, da eutanásia, da dissolução da família, da insensibilidade ante a fome de milhões de miseráveis do mundo... Por isso, o Papa afirmou: «Nosso grito dirigido a Deus tem que ser ao mesmo tempo um grito que penetra em nosso próprio coração para que desperte em nós a presença escondida de Deus, para que o poder que depositou em nossos corações não fique coberto ou sufocado em nós pelo egoísmo, pelo medo dos homens, pela indiferença e pelo oportunismo». Estejamos atentos que esse mesmo mundo que condena os horrores de Hitler engendra novos horrores em nosso momento atual, «no qual parecem surgir novamente nos corações dos homens todas as forças escuras: por um lado, o abuso do nome de Deus para justificar uma violência cega contra pessoas inocentes; e por outro, o cinismo que não reconhece Deus e que ridiculariza a fé n’Ele». Assim, o Papa afirmou: «Gritamos a Deus para que leve os homens a arrepender-se e a reconhecer que a violência não cria paz, mas suscita mais violência, um círculo de destruição no qual, no final das contas, todos perdem».

Eis como o jornalista Mário Sabino, da revista Veja, interpretou as palavras do Papa: "As palavras que se seguem datam do século IX antes de Cristo e estão no primeiro canto da Odisséia: 'Ah, como os mortais censuram os deuses! A dar-lhes ouvidos, de nós originam-se todos os males. Mas, por sua insensatez e contra a vontade do destino, eles é que são os autores de suas próprias desgraças'. Homero colocou-as na boca de Zeus, a maior das divindades da mitologia grega. Quase 3.000 anos depois de escritas, elas poderiam funcionar como resposta ao espanto e à consternação demonstrados por Bento XVI em sua visita ao antigo campo de concentração de Auschwitz, na Polônia. Nas instalações do que era a mais temida sucursal do inferno nazista, onde morreu 1,5 milhão de pessoas, judeus em sua maior parte, perguntou o papa: 'Por que, Deus, o senhor permaneceu em silêncio? Como pôde tolerar tudo isso? Onde estava Deus naqueles dias? Como pôde ele permitir esse massacre sem fim, esse triunfo do mal?'. Ao responsabilizar exclusivamente os homens pelos males infligidos a eles próprios, o pagão Homero faz uma constatação que, hoje, soa óbvia aos ateus. Mas, para a maioria esmagadora dos 6 bilhões de seres humanos, não importa o credo que professem, Deus não só existe, como é todo-poderoso, sinônimo de bondade e tecelão de cada trama da vida. Dessa maneira, parece inexplicável que tantos males terríveis atormentem a humanidade – sejam eles naturais, como os terremotos que matam milhares de pessoas, o último deles ocorrido na Indonésia, na semana passada, ou morais, como os genocídios perpetrados contra etnias (atualmente há um em curso na província sudanesa de Darfur, que já matou 70.000 pessoas). O paradoxo entre a onipotência de um Deus bondoso e a existência de males que ultrapassam nas suas manifestações a expiação dos pecados intriga os pensadores cristãos desde Santo Agostinho..." Depois dessas palavras, o jornalista afirma que os "malabarismos filosófico-teológicos" não resolvem a questão. E, aí, sorrateiramente, apresenta a sua solução triunfante, tão fácil, genial e límpida: "Se esse Mal existiu, é porque talvez Deus não exista. Resta a questão: ao perguntar-se onde estava Deus naquele momento, teria o papa Bento XVI vacilado em sua fé?"

O que pensar desse modo de interpretar a questão do sofrimento e as palavras do Papa? Não sei você, caro Visitante, mas eu penso que o coitadinho do jornalista é tão simplório, tão bobinho, tão rasinho de filosofia, que nem compreendeu o sentido das perguntas do Papa. Não são perguntas de quem duvida, mas perguntas de quem crê tanto, que olha para Deus e o leva a sério, mesmo na treva mais densa e na situação mais incompreensivelmente dolorosa. É que o coitadinho do jornalista (tal qual a revista na qual ele escreve) pensa num deus sob medida humana, um deus lógico, cartesiano, compreensível, pronto para consumo. Nunca passou pela cabeça desse pessoal o Deus da Bíblia, aquele que é Amor e Santidade, aquele que provoca vertigem ao nosso entendimento, aquele que Jó conhecia, a ponto de exclamar: "Ainda que ele me matasse, eu esperaria nele!" Para um insensato que deseja reduzir Deus à lógica humana, o campo de concentração de Auschwitz leva a uma única conclusão: Deus não existe!É verdade verdadeira: não existe o deus sob encomenda, o deusinho tamanho razão humana, o deusinho domesticável, que é resposta para nossas questões e, de caudinha abanando, lingüinha pra fora, responde às nossas intimações. Para o crente, ao invés, é clara a consciência que crer não é compreender tudo! Crer é colocar-se humilde e docemente ante o Mistério Santo de Deus; crer é entregar-se, é confiar, é abandonar-se... Por isso mesmo, exatamente ali, o Papa referiu-se aos que hoje zombam da fé e zombam de Deus... e, assim, preparam uma humanidade mais desumana e cruel que aquela, que cometeu os crimes dos nazistas...

Quanto ao sentido da dor de Auschiwtz, três idéias podem ajudar a iluminar aquelas trevas: (1) escutei um judeu dizer que voltou a ter fé quando viu uma menorá (castiçal de oração dos judeus) feito com uma tábua e tampinhas de refrigerante por prisioneiros daquele campo. O judeu me disse: "Foi a fé em Deus que fez aquela gente manter a dignidade e a esperança mesmo no meio daquela barbárie medonha. Deus os sustentou, os alentou. Sem Deus, tudo seria absoluta insanidade e absoluto desespero. Deus foi a única luz que brilhou ali, na humana treva!" (2) Mesmo naquelas trevas, foi a fé em Deus que fez um São Maximiliano Kolbe entregar a vida para salvar a vida de um prisioneiro condenado à morte. Eis: só a fé fez brilhar a luz em trevas tão desesperadoras! (3) À pergunta de Bento XVI – "Onde estava Deus?" -, o próprio Santo Padre poderia ter respondido, como bom e profundo cristão que é: Deus estava na cruz, sofrendo com os que sofriam, clamando com os que clamavam, gemendo com os que gemiam, morrendo como os que morriam, para fazê-los ressuscitar, vencendo toda treva e maldade humana! Certamente, tal resposta não resolve a questão de modo cartesiano – como queria o "sábio" jornalista da Veja atéia -, mas, sem dúvida, ilumina o mistério...

Ainda uma questão: por que, então, o Papa não deu a resposta? Porque exatamente dramatizando a questão, ele deixa claro que o mal, o sofrimento, a morte, sempre ferirão o homem, sempre colocarão em xeque o próprio Deus, cuja glória é o homem vivo. Para quem crê de verdade, para quem, de verdade, experimenta o Deus do amor e da vida, o mal, a injustiça, o sofrimento, nunca poderão ser aceitos de modo pacífico, como algo normal. E, no entanto, o Papa, de certo modo, deu a resposta: ele não perguntou simplesmente a si próprio nem somente aos outros onde estava Deus; ele se voltou para o próprio Deus e rezou. Eis aqui a questão última: quando nos voltamos para Deus rezando, ainda que seja para reclamar e perguntar, estamos professando a fé, do modo mais dramático e puro possível; estamos dizendo, sem dizer explicitamente, que Deus é real, é presente, é o definitivo Interlocutor do homem, seja em treva seja em luz, seja no sorriso seja no pranto, seja na vida seja na morte.

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Última atualização em Qua, 24 de Fevereiro de 2010 22:15
 

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