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Sáb, 27 de Dezembro de 2008 12:44

Côn. Henrique Soares da Costa

O Papa João Paulo acaba de publicar mais um livro: “Memória e Identidade”. Nele, o Santo Padre, entre outras coisas, chama atenção para a permissividade que vem destruindo o tecido da sociedade ocidental. Não se trata aqui de uma estreita visão moralista de um velho pároco do interior, aborrecido com a vida e arredio ao progresso e à mudança de costumes. Trata-se de uma análise bem mais profunda e urgente. O Papa vê a civilização ocidental complacentemente orgulhosa de suas conquistas em matéria de tecnologia, economia, bem-estar material e democracia política, mas tão pobre de valores religiosos e tão fechada para o Transcendente. E, para desgosto de muitos, João Paulo adverte que a democracia não é, em si, um valor absoluto. Ela é sim um bem, uma conquista, mas para não trair o homem e não se tornar uma terrível armadilha, deve ser atenta a Deus.

Muitos não-crentes e todos os anti-religiosos (chamemo-los pelo delicado nome de “laicistas”) certamente pensarão que o Papa deseja a volta a uma sociedade teocrática, governada pela religião... Nada disso! João Paulo sabe que vivemos num mundo pluralista e multicultural, e que a sociedade deve ser gerida pelo poder laico (muito diferente de laicista). Não se pode impor o cristianismo, como não se pode impor religião alguma a quem quer que seja. A questão é outra. A abertura ao Transcendente - que, na verdade, é abertura a Deus mesmo -, defendida pelo Papa, expressa-se e se efetiva na abertura à consciência, no respeito aos imperativos éticos que brotam da consciência do ser humano quando este não se deixa embotar cômoda e covardemente pelo egoísmo, o consumismo e o hedonismo. Alguns exemplos, para que você e eu, meu caro e paciente leitor, nos entendamos: é sadia uma sociedade que julga se uma coisa é correta ou não simplesmente pelo lucro que produz ou pelo número de empregos que gera (como no caso dos bingos e da fabricação de armamentos)? É sadia uma sociedade que briga pela sobrevivência das árvores e dos peixes-bois, mas despreza a vida humana, a ponto de legalizar o aborto e fazer um lobby dos diabos em favor das pesquisas envolvendo células-tronco de embriões humanos? Monitoramos o peixe-boi e o urso panda, e manipulamos embriões humanos! É sadia uma sociedade que de tal modo despreza os valores naturais da vida familiar, a ponto de permitir, em nome da liberdade de expressão, que os meios de comunicação violentem os lares e ataquem e desmoralizem a família de todos os modos e por todos os meios, a ponto de querer diluir o conceito de família em uniões que extrapolam totalmente aquilo que o bom senso inspirado pela própria lei inscrita no nosso coração e na reta razão aponta como sendo realmente uma família? O Papa também se pergunta até que ponto essa sociedade “democrática” é livre realmente... Tomemos, por exemplo, o estrondoso sucesso que é a novela das oito da Globo, Senhora do Destino. Até que ponto aquilo que ela defende não é destinado a “fazer a cabeça” e até mesmo a impor certos “valores”, que não passam de contra-valores, degenerativos do que há de mais sólido e sagrado na nossa cultura? Tudo isso afeta não somente os cristãos ou os crentes, mas todos aqueles e aquelas de boa vontade. Dirão muitos: “Não! A novela simplesmente coloca temas em discussão...” Uma tal justificativa revela má-fé ou ingenuidade... A novela cria uma realidade fictícia e faz uma verdadeira lavagem cerebral, a conta-gotas, atingindo todas as classes sociais e todas as faixas etárias. É sadia uma sociedade que idolatra o culto do corpo, o consumo, a pura e simples realização dos prazeres e apetites, sejam nobres ou vis, tendo como valor máximo simplesmente a própria satisfação? Mas, é disso que o capitalismo vive... E ele entra pelas brechas da democracia laicista e “iluminada”! Não vá o leitor acusar-me de liberticida! Viva a democracia! Mas, viva primeiro o ser humano, imagem de Deus, criado para a comunhão com Ele! Viva o ser humano que, crente ou não crente, recusa ser manipulado, recusa ser um mero joguete, recusa ver negligenciado os valores mais nobres e profundos da existência!

Aqui aparece todo o drama do embate atual entre os defensores de uma humanidade chamada a uma vida mais profunda, mais simples, mais preocupada com os valores e a dignidade e os defensores do “liberou geral” do mundo atual, aqueles que pensam o que ser humano é senhor do bem e do mal e, deixando de lado todo imperativo ético, pode decretar que o bem é mal e que o mal é bem!

O homem, quando se fecha para Deus, quando perde a noção do céu que existe sobre ele, torna-se, ele mesmo, o seu deus e seu maior inimigo. É neste contexto que o Papa recorda o nazismo e o marxismo - os marxistas românticos dirão que eu estou confundindo o marxismo belíssimo dos sonhos de Marx com as experiências históricas de marxismo, que não deram certo. E qual foi a experiência marxista que deu certo? O marxismo não passa de um socialismo utópico! Na realidade foi responsável pela morte de milhões! E antes que me recordem a Inquisição - como já é um velho vício mental nosso fazer -, vou logo lembrando: toda vez que a Igreja errou feio na história foi porque afastou-se daquilo que ela é: testemunha e espaço do que Jesus viveu, realizou e pregou: relação com o Pai, que gera liberdade, fraternidade e reconhecimento da radical igualdade entre os homens! (Foi nisso que a Revolução Francesa inspirou-se, até mesmo contra o cristianismo). No entanto, o cristianismo nunca ensinou que os cristãos são melhores que os outros ou imunes a erros históricos. Basta ler o Novo Testamento...

A verdade verdadeira é que continuamos, hoje como outrora na responsabilidade de escolher dois modos de vida, dois mundos a construir: um aberto para Deus, que revela e sustenta a dignidade última do ser humano e, o outro, fechado para qualquer Transcendência, tendo o homem como seu deus e senhor, levando à solidão, ao desconhecimento dos valores mais profundos e ao desespero ou, no máximo, à resignação diante da morte.

A escolha será sempre minha, sua e de cada geração

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