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| Dom, 28 de Dezembro de 2008 14:54 |
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Cônego Henrique Soares da Costa
As eleições municipais de Maceió, neste 2004, foram uma decepção e uma vergonha. Isso mesmo: uma vergonha e uma imoralidade! Nunca se teve notícia de uma compra tão descarada, tão despudorada de votos como agora. Comprou-se durante toda campanha, com benefícios tortos e capciosos: candidatos pagaram conta de luz, água e telefone dos eleitores, deram feira, transportaram eleitores no dia da eleição... Mas, ainda fez-se mais: por volta de quinze dias antes do pleito, o voto estava custando R$ 30,00; no dia mesmo da eleição, chegou a R$ 50,00 e até mais... Conheço gente que lucrou R$ 400,00 no dia mesmo da eleição. Como foi possível tudo isso, sem que ninguém coibisse, sem que ninguém desse um piu? Como a sociedade foi vendo, de modo passivo e tranqüilo, no desenrolar da campanha, todo esse processo de estelionato eleitoral? Como a imprensa não denunciou com clareza? Como as autoridades cruzaram os braços ou fizeram vista grossa? É triste, muito triste! O que garante uma verdadeira democracia não é somente o direito de votar, mas o votar livremente, votar de modo consciente e responsável. Isto é quase impossível num país de tantos miseráveis, de tantos analfabetos políticos – e analfabeto não é só o que vende seu voto, mas também o infeliz que compra, que corrompe o povo. De que adianta urnas eletrônicas tão sofisticadas ante uma corrupção tão rudimentar e tão despudorada? Nos dias seguintes à eleição, não houve habitante de Maceió que não comentasse, de modo cínico ou indignado, a safadeza eleitoral, à direita e à esquerda! A esquerda, tão fisiologista e tão corrupta quanto à direita... Que desencanto! Que desengano! As conseqüências de uma tal realidade são sombrias. Primeiro, uma Câmara de Vereadores sem autoridade moral. Eu não vejo nesses novos vereadores legítimos representantes do povo. Não os vejo porque não sei quem foi eleito de modo limpo e quem foi eleito pela corrupção. Certamente, a maioria foi parida não pela vontade do povo, mas pelo poder do dinheiro! Muitos estão ali para cuidar de si próprios, de seus bolsos, de seus apadrinhados, de seus interesses. Esta Câmara que vai tomar posse não tem moral para afirmar o contrário! E o povo de Maceió sabe disso! Faço essas considerações com o coração cheio de tristeza... Uma segunda conseqüência é que, de modo geral, não temos nada a esperar dos novos vereadores. Quem se elegeu comprando votos, não tem satisfações a dar ao povo: o mandato foi comprado e pronto! Uma outra conseqüência: o povo que se vendeu empobreceu-se moralmente. E não tem desculpa de ser pobre ou analfabeto! Honestidade, retidão, vergonha, cabem bem em qualquer ser humano. Conheço pobres que passam fome, mas não recebem um benefício torto; passam privação, mas não vendem a consciência. Maceió sai dessa eleição menos digna, menos cidadã, menos dona de seu destino, menos esperançosa de seu futuro. O povo sai menos limpo, menos decente... Sai mais cínico e desencantado. Sou parte desse povo; posso falar assim; devo falar assim; tenho a responsabilidade de falar assim! Muitas vezes tenho brigado por valores, tenho dito e escrito que sem uma abertura para valores mais profundos, o homem se destrói, a sociedade se esfacela. Eis aqui! Parece que este cinismo cívico está se arraigando na consciência da nossa gente. E é preciso arrancá-lo de alma do brasileiro. Sinceramente, não sei o que faltou para que tivéssemos um pleito mais decente. Faltou vigilância da Polícia Federal? Faltou mais agilidade e competência do TRE? Faltou a organização da sociedade, como a OAB (que foi tão ausente) e a própria Igreja (que, com sua capilaridade, poderia ter denunciado a compra de votos)? Faltaram as ONGs? Faltou a imprensa? Faltou o povo, que quando quer, se mobiliza? Faltou, sim... Faltaram todos... Faltamos nós. Ao lado desta sujeira, vimos uma outra, já nossa velha conhecida: a baixaria eleitoral. A Justiça Eleitoral tem o dever de ser mais severa quando a isso! Programa eleitoral é para apresentar propostas e propostas exeqüíveis, mostrando-se claramente o que se pretende fazer, como e com que recursos. Não foi o que vimos! Absolutamente! Prometem-nos o céu para, depois, nos darem o inferno ou, pelo menos, um bom caldo de purgatório! Depois, a hipocrisia lavada, de apresentar-se como o bom em detrimento dos demais, que são os ruins; por fim, os debates de péssima qualidade, com lances de acusações levianas e demagogias baratas. Somente o povo, julgando com dureza, e a Justiça Eleitoral, coibindo com firmeza tais comportamentos, podem melhorar nossas campanhas. Finalmente, a sujeira visual e a poluições sonora na cidade, durante a campanha. Os postes, viaduto e elevados não foram poupados, placas de trânsito foram danificados com a careta maquiada dos candidatos... E, dessa vez, não se viu a Justiça Eleitoral exigir limites a tudo isso... Quem dera que esta seja a última campanha eleitoral em Maceió na qual vemos tais desmandos, tais notas que a todos nos envergonha e faz temer pelo futuro de nossa Cidade. A democracia é uma casa construída em mutirão. Vamos erguê-la todos nós, cada um fazendo a sua parte. Assim não nos envergonharemos do futuro que daremos aos nossos filhos. Outra eleição como a de 2004, nunca mais! Artigos Relacionados: |
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