Informações
| O ambiente em que São Paulo viveu |
|
|
|
| Artigos |
| Sáb, 27 de Dezembro de 2008 11:14 |
|
Côn. Henrique Soares da Costa
Meu caro Leitor, neste Ano Paulino apresentarei alguns artigos sobre São Paulo. Tomarei como referência as catequeses que o Santo Padre Bento XVI estará fazendo às quartas-feiras durante todo este Ano dedicado ao Apóstolo das Gentes. Neste primeiro artigo, vejamos o ambiente em que o Apóstolo viveu e trabalhou. Surpreendentemente, vários aspectos da realidade vivida por São Paulo são também os da nossa experiência. Paulo era judeu, uma minoria dentro do imenso Império Romano. Os judeus representavam não mais que 10% da população total do Império. No entanto, esta minoria tinha uma identidade muito clara: sua fé no único Deus, seus costumes, sua moral própria, suas festas religiosas. Isto despertava nos pagãos duas atitudes contrastantes: em uns, um ódio mortal; em outros, admiração. Havia até vários pagãos que se tornavam “tementes a Deus” (admiradores do judaísmo, seguindo alguns de seus preceitos) e alguns poucos tornavam-se “prosélitos” (pela circuncisão, entravam de vez no povo de Israel, abraçando totalmente a religião judaica). Quanto aos cristãos, sua fé nasceu no seio do judaísmo, mas logo ganhou contornos próprios e difundiu-se entre os não-judeus, de modo que os discípulos de Jesus tinham que se equilibrar entre os judeus e os pagãos. Certamente, eram menos aceitos que os judeus... São Paulo nasceu judeu, de família piedosa e observante, e sempre se considerou judeu. Por outro lado, ele havia nascido numa cidade fora da Terra Santa, em Tarso, capital da província romana da Cilícia. Paulo conhecia bem a cultura do Império Romano, que era a cultura helenista. Note-se que o mundo no qual São Paulo viveu era um mundo globalizado: o mesmo governo central (Roma), a mesma cultura (o helenismo), a mesma força política e militar (a do Império)... Isto, sem dúvida, facilitou muito o seu trabalho missionário e a expansão do cristianismo: em todos os lugares, sobretudo nas grandes cidades, falava-se o grego popular, as comunicações por estradas e embarcações era fácil e, de modo geral, havia paz no Império. São Paulo colocou-se nesse ambiente como um homem profundamente universal, de visão surpreendentemente “globalizada”. Tinha a convicção firme que sua missão era levar Jesus Cristo aos pagãos, superando o estreito limite do povo de Israel. Para o Apóstolo, em Cristo "já não há judeu nem grego; não há servo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo" (Gl 3, 28). Todavia, também a situação histórico-cultural do seu tempo e do seu ambiente não deixou de influenciar as suas escolhas e o seu compromisso. Alguém definiu Paulo "homem de três culturas", tendo em consideração a sua matriz judaica, a sua língua grega e a sua prerrogativa de cidadão romano. Efetivamente, ele foi um homem profundamente imerso no seu tempo e na situação que o circundava. Em seu ambiente e em seu tempo procurou semear a semente do Evangelho com firmeza na defesa da identidade cristã e com abertura para tudo quanto era compatível com o Cristo Jesus. Recordemo-nos, de modo especial, da filosofia estóica, que na época de Paulo era predominante e que influiu, embora em medida marginal, também sobre o cristianismo. Nos filósofos estóicos encontravam-se elevadíssimos valores de humanidade e de sabedoria, que naturalmente foram acolhidos pelo cristianismo e por Paulo. O estoicismo anunciou um novo ideal, que impunha ao homem deveres em relação ao seu próximo, mas ao mesmo tempo libertava-o de todos os vínculos físicos e nacionais, e dele fazia um ser puramente espiritual. Pensemos, por exemplo, na doutrina do universo entendido como um único grande corpo harmonioso e, consequentemente, na doutrina da igualdade entre todos os homens sem distinções sociais, na equiparação pelo menos de princípio entre o homem e a mulher, e depois no ideal da frugalidade, da justa medida e do domínio de si para evitar qualquer excesso. Quando Paulo escreve aos Filipenses: "Tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de algum modo mereça louvor, é o que deveis ter em mente" (Fl 4,8), não faz senão retomar e colocar a serviço do Evangelho uma concepção claramente humanista própria daquela sabedoria filosófica. Na época de São Paulo havia também uma crise da religião tradicional, fria, ritualística e burocrática. Vários filósofos já haviam criticado esse tipo de religião. Sêneca afirmava: "Deus está próximo de ti, está contigo, está dentro de ti". Analogamente, quando Paulo se dirige a um auditório de filósofos epicureus e estóicos no Areópago de Atenas, diz textualmente que "Deus não habita em santuários feitos por mãos humanas... mas nele vivemos, nos movemos e existimos" (At 17,24.28). Com isto, ele não só defende a concepção judaico-cristã de Deus, mas põe-se também numa sintonia religiosa que os seus ouvintes conheciam bem. Além disso, temos que ter em conta o fato de que muitos cultos pagãos prescindiam dos templos oficiais da cidade e se realizavam em lugares particulares que favoreciam a iniciação dos adeptos. Por isso, não constituía motivo de admiração o fato de que também as reuniões cristãs, como nos atestam sobretudo as Cartas paulinas, se realizassem em casas particulares. Nessa época ainda não existia qualquer edifício cristão público. As reuniões dos cristãos deviam parecer aos contemporâneos como uma simples variante desta sua prática religiosa mais íntima. De qualquer forma, as diferenças entre os cultos pagãos e o culto cristão eram grandes: uma consciência muito particular que os cristãos tinham de si próprios, a participação comum de homens e mulheres, a celebração da "Ceia do Senhor" e a leitura das Escrituras. Concluindo, esta rápida visão sobre o ambiente cultural do século I da era cristã, parece claro que não é possível compreender adequadamente São Paulo sem o inserir no contexto, tanto judaico como pagão, do seu tempo. Deste modo, a sua figura adquire valor histórico e ideal, revelando traços comuns e ao mesmo tempo originais em relação ao ambiente. Mas isto vale analogamente também para o cristianismo em geral, do qual precisamente o Apóstolo Paulo constitui um paradigma de primeira ordem, do qual todos nós temos sempre muito a aprender: receber do mundo tudo quanto for útil e compatível com o Evangelho e ser diferente naquilo que o Evangelho tem de específico e original. Esta é a finalidade do Ano Paulino: aprender de São Paulo, aprender a fé, aprender Cristo e, enfim, aprender a direção certa.Artigos Relacionados: |
| Última atualização em Sáb, 27 de Dezembro de 2008 11:37 |
Fornecido por Joomla!. Designed by: Joomla 1.5 Template, database terminology. Valid XHTML and CSS.


