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Sáb, 27 de Dezembro de 2008 11:39


Pe. Henrique Soares da Costa

A doutrina da Trindade Santa não é uma teoria, um teorema teológico. É o centro mesmo da nossa fé e da nossa identidade cristã. Exatamente por confessar que Deus é Uno e Trino, a nossa imagem de Deus é absolutamente diversa da de qualquer outro sistema religioso, de modo que o nosso Deus não é exatamente o IHWH dos judeus ou o Alá dos muçulmanos. O monoteísmo cristão é único, original, sui generis...

Mas, a fé trinitária seria sem incidência concreta na vida cristã se não a tocasse de dentro, do seu interior mesmo e se não inspirasse sentimentos, afetos e atitudes concretas nossas em relação a Deus. Em outras palavras: a Trindade deve ser o horizonte último de nossa vida espiritual, do nosso caminho com Deus. Mas, como isso se dá? Como viver efetivamente a Trindade? Como relacionar-se com as divinas Pessoas? O modo é simples e é o centro mesmo do cristianismo: viver a vida trinitária é viver em nós a experiência mesma de Jesus de Nazaré, nosso Senhor e Deus. Só Jesus revela o Deus verdadeiro, só através de Jesus temos acesso ao mistério mesmo de Deus e somente reproduzindo em nós os sentimentos e atitudes de Jesus poderemos entrar em comunhão com o Deus único e verdadeiro.

Uma palavra do Evangelho de Lucas pode servir de ponto de partida para nossa meditação: “Naquele momento, Jesus exultou de alegria sob a ação do Espírito Santo e disse: ‘Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste essas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado! Tudo me foi entregue por meu Pai e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, e quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar’” (10,21-22). Nestas palavras muito da dinâmica espiritual de Jesus nos é revelado – e a dinâmica de Jesus é a dinâmica do cristão!

Primeiro. Se observarmos atentamente a existência de Jesus de Nazaré aparecerá de modo muito claro que toda a vida do Senhor Jesus foi vida em referência ao Pai. Poderíamos muito bem resumir a existência e a missão de Cristo nestas duas palavras: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra!” e “Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado!” Jesus nunca, de modo algum se compreendeu a partir de si próprio. Ele é o Filho, aquele que vem do Pai e ao Pai se dirige em tudo e em todos os momentos de seu caminho humano. De tal modo vive do Pai, vive abandonado no Pai, vive para a vontade do Pai; de tal maneira sua alegria é o Pai, que ele pode dizer: “Ninguém conhece o Pai a não ser o Filho e aquele a quem o filho quiser revelar!” Ora, ser cristão, concretamente, é entrar nesta experiência de Jesus, tornando-se filho no Filho único e como o Filho único! A constante contemplação de Jesus no seu ser filial, terá em nós, concretamente, os seguintes efeitos:

(a) Uma vida profundamente equilibrada, porque vida vivida num horizonte: sei de onde vim e aonde vou...

(b) Uma vida madura, porque aberta para a relação com o Outro. Ao mesmo tempo sei quem sou e me percebo em diálogo, em relação com Alguém que me interpela, desafia e faz crescer.

(c) Uma vida em liberdade, porque profundamente comprometida com a vontade de Deus, desenraizada das próprias vontades, dos caprichos e horizontes mesquinhos.

(d) Uma vida em retidão, fruto da liberdade. Quando não se tem segundas intenções, quando se é coerente com a opção fundamental, experimenta-se a retidão de consciência e a profunda coerência existencial, que faz feliz e pacífico.

Segundo. Jesus, experimentando-se como Filho, revela o Rosto do Pai: “Ninguém conhece o Pai a não ser o Filho!” E é um Pai que desperta em nós saudades e profunda confiança: “Mostra-nos o Pai e isto nos basta!” O Deus que Jesus nos revela é o seu Pai: “Pai, manifestei o teu nome aos homens!” Mas, que tipo de Pai aparece nas atitudes de Jesus?

(a) Um Pai que é nossa origem e nosso destino, nosso Donde e nosso Aonde. Quem descobre o Pai de Jesus, caminha sabendo aonde vai.

(b) Por isso mesmo, um Pai que é Aconchego e Ninho de todos os nossos medos, sonhos e ansiedades. A experiência do Pai dá-nos a verdadeira segurança, a paz mais profunda e definitiva que nosso coração deseja.

(c) O Pai de Jesus é providência amorosa e cheia de misericórdia, que conduz a uma profunda e libertadora experiência de aceitação nossa e dos outros, derrubando máscaras.

(d) O Pai, como proveniência, faz-nos sentir pobres e pequenos e, ao mesmo tempo, ricos e grandes: nada é nosso; mas tudo é do Pai providente e amoroso! Eis uma das mais belas e ancestrais experiências humanas!

(e) O Pai cuja face Jesus desvela é o fundamento último de toda fraternidade das criaturas e de toda benignidade: é o Pai que faz o sol brilhar sobre bons e maus e faz a chuva cair sobre justos e pecadores! É o Pai nosso, que a todos concede o pão nosso...

Terceiro. A experiência de Jesus com o seu Deus e Pai é experiência pneumatológica, experiência conduzida pelo Espírito, que aninha Pai e Filho num só amor: “Naquele momento, Jesus exultou de alegria sob a ação do Espírito Santo e disse: ‘Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra...” Todo o ministério do Filho entre nós foi conduzido pelo Espírito, fazendo Jesus crescer sempre mais na direção de uma maior, mais profunda e mais intensa relação com o Pai. O cristão é chamado à mesma dinâmica: tanto mais será dócil ao Espírito do Filho, tanto mais terá os sentimentos do Cristo Jesus e, no Espírito que geme em nós, poderá exclamar de afeto e de vida: “Abbá, Pai!” É importante compreendermos que a experiência de filhos e a percepção da paternidade de Deus não poderão jamais se dar verdadeiramente sem a ação do Espírito Santo. Com força e suavidade ele nos conduz nesse caminho, fazendo-nos experimentar já aqui na terra a doçura das profundidades do Deus uno e trino, dando-nos um real gozo das coisas do céu. Assim, para nós, deixar-se conduzir pelo Espírito significa:

(a) Participar realmente a experiência filial de Jesus, jogando-nos amorosamente nos braços do Pai.

(b) Ter um conhecimento de Deus e das coisas de Deus que ultrapassa o simples raciocínio e a simples lógica humana.

(c) Experimentar sempre, mesmo nos maiores desafios, a consolação da presença do Pai e do Filho em nós.

(d) Experimentar uma profunda liberdade interior, fruto de uma vida verdadeiramente espiritual, isso é, vida animada e sustentada pelo Espírito.

Como se pode perceber, a experiência trinitária não é um luxo, uma opção no caminho cristão; trata-se do eixo mesmo que tudo ordena e harmoniza no caminho do discípulo de Cristo. A fé trinitária aparece, pois, como o centro de gravidade da mística cristã, o motor da ascese e a forma que configura a existência em Cristo! O cristão vive do Pai pelo Filho no Espírito e para a glória do Pai pelo Filho no Espírito.

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