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Há esperança: Cristo é Rei PDF Imprimir E-mail
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Sáb, 27 de Dezembro de 2008 12:10

Côn. Henrique Soares da Costa

Mais uma vez chega-se ao final do Ano Litúrgico. O tempo passa depressa, a vida escoa entre nossos dedos, a história humana vai avançando, como um rio decidido no seu correr para o mar...

Olhemos o mundo desse final do ano. As catástrofes naturais: terremotos, maremotos, tsunamis, furações, secas... As catástrofes humanas: o terrorismo, a vergonha da corrupção política brasileira, com um Presidente que, cinicamente, nunca sabia de nada... As catástrofes na Igreja: escândalos de padres de vida moral absolutamente incompatível com o Evangelho de Cristo e com a promessa de viver celibatariamente, o esfriamento na fé de tantos cristãos... As catástrofes da nossa civilização: consumismo, ateísmo, imoralidade, superficialidade... Certamente, há também elementos positivos; agora, no entanto, interessa-nos os negativos, sem máscaras, sem enfeites, sem desculpas, sem triunfalismos tolos de dizer que na Igreja tudo vai bem. E perguntamo-nos: Tem sentido a realidade? Tem sentido o mundo? Tem sentido a história? Há lugar para falar-se em senhorio de Cristo num mundo assim, numa Igreja assim? Como ele é Rei, como se faz presente numa situação como esta? A situação, como a experimentamos, não atestaria antes que são o caos, o nada, o absurdo que reinam no mundo?

A santa Palavra de Deus indica-nos uma resposta surpreendente. Cristo é Rei, Rei verdadeiro, Rei para sempre: “Jesus Cristo é a Testemunha Fiel, o Primogênito dentre os mortos, o Soberano dos reis da terra” (Ap 1,5); mas, o seu Reinado não aparece nos modos que esperamos. Ele é um Rei que vem a nós crucificado, pobre, impotente, um Rei que não pode se salvar: “Salve-se a si mesmo se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido!” Se és o Rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!” (Lc 23,35.37); “O meu reino não é deste mundo; meu reino não é daqui!” (Jo 18,36).

O Reinado que Cristo inaugurou não se manifesta na força, no domínio, na imposição de sua vontade. O único critério do Reino é o amor que não impõe, mas propõe, amor capaz de esquecer-se de si até dar a vida. Assim Jesus instaurou o seu Reinado: fazendo-se obediente ao Pai até a morte de cruz por nosso amor e, deste modo, brilhando nas trevas humanas, redimindo com seu amor nosso egoísmo suicida e cancelando nosso pecado com a sua graça.

Este impressionante paradoxo, de um Deus que revela toda a sua força na fraqueza e toda a sua riqueza na pobreza é o centro da fé cristã, do modo cristão de compreender e experimentar Deus – Deus como Jesus no-lo revelou por sua vida, sua palavra, sua morte e sua ressurreição; o único Deus verdadeiro! Todos os outros são fruto e projeções das quimeras humanas (não deixava de ter certa razão Ludwig Feuerbach). Só o Deus de Jesus Cristo, Deus fraco e crucificado, subverte, desmonta e desmoraliza nossa falsas expectativas, nossas ilusórias idéias sobre Deus...

Mas, voltemos ao tema. O impressionante e incancelável paradoxo que se manifesta na cruz de Cristo – aí, precisamente, na escandalosa cruz, é proclamado que ele é Rei: Jesus de Nazaré, Rei dos judeus – continua a manifestar-se na carne da Igreja e na carne do mundo! Cristo reina, sim! Mas seu Reinado é ainda escondido nos tsunamis, nas tragédias, nos escândalos do clero, na omissão dos pastores da Igreja, na corrupção do Lula, nas agruras da vida, nas lágrimas dos fracos, na solidão e na morte... Cristo reina, mas seu Reinado ainda é marcado pela ambigüidade das luzes e sombras da história humana... E, no entanto, ele está presente entre nós, apela-nos, convida-nos a encontrá-lo, sobretudo nos pobres, nos sofredores, nos sem esperança, naqueles menores que cruzam por nós nesse caminho chamado vida...

Somente ao final da história, o Reinado de Cristo aparecerá livre da ambigüidade própria deste tempo. “A seguir, virá o fim, quando ele entregar a Realeza a Deus-Pai, depois de destruir todo principado e todo poder e força. Pois é preciso que ele reine, até que todos os seus inimigos estejam debaixo de seus pés” (1Cor 15,24-26).

Ao final de mais um ano, elevemos nosso olhar e nosso coração para Ele, Rei do Universo. Nele está a Vida, nele o Sentido, nele toda nossa Esperança. Nele está a certeza de que o mundo não caminha para um vazio louco; nele a firme convicção de que nossas trevas serão transformadas pela sua Luz e nossas mortes, redimidas pela sua Vida! Ao Rei dos séculos, imortal e invisível, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém.

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