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| Reflexões sobre o crer - III |
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| Artigos |
| Sáb, 27 de Dezembro de 2008 12:21 |
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Côn. Henrique Soares da Costa Eis-nos! Este é o último dos três artigos sobre o crer. Havia dito que crer faz parte da dinâmica humana: todos vivemos da confiança naqueles que viram, estudaram, comprovaram. Afirmei também que a fé em Deus é um crer diferente, pois se refere a Alguém que não pode ser capturado nem apreendido pelos nossos sentidos. Assim sendo, será que o crer (e o não-crer) é algo absolutamente cego e, ao fim das contas, irracional? Recordemos rapidamente que o conhecimento humano fundamenta-se, como procurei demonstrar, na confiança no testemunho de outros, que provaram e viram, de modo que o saber – seja ele qual for – não é auto-suficiente, mas traz um elemento de participação no saber dos outros. Ninguém sabe tudo, mas, juntos, sabemos o necessário, de modo que a ciência, como saber que é fundado no saber dos outros, forma uma rede de recíproca dependência entre pessoas que sustentam e são sustentadas no seu conhecimento. Pois, o mesmo vale na nossa relação com Deus. Eu afirmava, de maneira provocativa, que em relação ao conhecimento de Deus ninguém de nós é testemunha: ninguém viu a Deus, dele ninguém sabe mais que ninguém, de modo que somos todos simplesmente crentes e, portanto, meio cegos. Mas, agora eu digo, também provocando: não é bem assim! Se pensarmos na experiência de Israel, na sua história e na experiência impressionante dos seus profetas, perceberemos, de modo desconcertante, que a palavra de Deus chegou a eles de um modo forte, impressionantemente interior e marcante, que deu rumo à existência deles e deles fizeram testemunhas do Invisível. Assim, a experiência de Deus, seus apelos e propostas, nos chegam mediante homens que o ouviram e o experimentaram; mediante homens através dos quais Deus se tornou uma experiência concreta e que, em certo sentido, conhecem a Deus em primeira mão. Mas, há mais! Se é verdade que mesmo os profetas e santos que testemunham Deus somente podem vê-lo como que pelas costas (cf. Ex 33,23), já que, rigorosamente falando, Deus continua invisível e desconhecido, é verdade também que há Alguém que viu a Deus, que vem de Deus, que fala do que viu e ouviu dele diretamente: Jesus, o Cristo! Ele é o grande Vidente: conhece a Deus pessoalmente e no-lo apresentou com sua palavra, com suas opções, com seu modo de vida, com sua incrível coerência e com sua morte na total fidelidade a esse Deus que somente ele conhece face a face! É fundamentalmente no testemunho dele que se funda a nossa fé. Somente ele pode dizer, falando de Deus: “Eu o conheço, porque dele procedo e foi ele quem me enviou. Saí de Deus e dele venho; não venho por mim mesmo, mas foi ele que me enviou!!” (Jo 7,29; 8,42). É impressionante, mas Jesus de Nazaré, de vida e palavra tão coerentes, de existência tão harmoniosa e encantadora, de coração tão generoso e humano, afirma que conhece a Deus pessoalmente, que vem dele, que está em tão profunda comunhão com ele que chega mesmo ao cúmulo (magnífico, encantador) de afirmar: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,19). Seria ele um louco, um abilolado, um megalomaníaco fanatizado? Cada um deve se posicionar diante dele...O fato é que, se todo conhecimento humano é participação no conhecimento de outros, a fé cristã é participação no conhecimento, na visão que Jesus tem do Pai. Sua visão é o ponto de referência da nossa fé. Porque ele conhece Deus em primeira mão e o vê, pode comunicá-lo: ele é o Mediador entre Deus e os homens. Sua visão humana da realidade divina é a fonte da luz para todos! Assim sendo, a fé não é um salto cego num escuro total! É sempre possível, em certo sentido, perguntar-se sobre a veracidade de Jesus, sobe sua coerência, sobre o destino que ele deu à sua vida e à sua morte... Se ele tem algo que mereça ser ouvido e acreditado, então, não é loucura levá-lo a sério! Mas, como no conhecimento comum a confiança mútua gera comunhão (por exemplo: os físicos compartilham o mesmo conhecimento...), nem mesmo Jesus, que viu o Pai, é solitário: sua luz se irradia na experiência dos santos e, deles, irradia-se para outros, para nós, de modo que todo verdadeiro crente torna-se parte desse processo. Aqueles que vivem uma real comunhão com Jesus recebem um raio do seu esplendor, uma experiência concreta e real de Deus: vêem a Deus, ao menos, como Moisés, pelas costas (cf. Ex 33,23), isto é, pelo testemunho de Jesus que o viu face a face! E como a face de Moisés brilhava depois do encontro com Deus, assim, aquele que creu no testemunho de Jesus, brilha com a luz de Jesus e irradia essa luz sobre os homens e sobre o mundo. Porque aqui há uma coisa impressionante: se nossa experiência de Deus vem através de Jesus, o Vidente, é também verdade que nele, de modo interior, forte e misterioso, nós também participamos dessa experiência. Aquilo que para ele é uma certeza de quem viu, para nós torna-se uma certeza de quem, acreditando, chegou a experimentar! É por isso que tantos e tantos crentes estiveram e estão dispostos a dar a vida pela fé! Não porque são bobos fanáticos, mas porque experimentaram, na experiência de Jesus! Um último ponto. Se a partilha de saber entre as pessoas gera comunhão, muito mais o faz o saber da fé, o saber sobre Deus. A relação com ele é ao mesmo tempo relação com os demais, fundando uma comunhão na experiência interior dos que partilharam a fé fundamentada em Jesus, o que viu o Pai e dele veio. A comunhão da relação com Deus funda a mais profunda possibilidade de comunhão do ser humano, atingindo o nível mais profundo da pessoa, sua abertura e sua saudade do Infinito. Assim, a relação com Deus exclui o isolamento, o fechamento individualista. A relação com ele é ligada à relação e comunhão de irmãos. Como afirmou o sábio Papa Bento XVI: “Quem crê nunca está sozinho!” Perdoe-me o caro leitor, a maçada desses três artigos meio áridos. Mas, senti a necessidade de escrevê-los para dar um pouco da razão de crer. Os crentes não são bobos simplórios... São aqueles que apostam que a realidade e a vida ultrapassam a estreita gaiola da nossa razão. Como admitia admiravelmente o inteligente ateu Wittgenstein: “Crer em um Deus quer dizer compreender a questão do sentido da vida. Crer em um Deus que dizer ver que, ao fim das contas, os fatos do mundo não são tudo. Crer em um Deus quer dizer que a vida tem um sentido. O sentido da vida pode ser chamado Deus!” Artigos Relacionados: |
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