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Homilia do Papa Bento XVI na Missa Crismal de Quinta-Feira Santa PDF Imprimir E-mail
Bento XVI
Seg, 18 de Maio de 2009 22:28


Basílica de São Pedro
13 de Abril de 2006

Caro Internauta, com emoção, coloco à sua disposição esta preciosíssima homilia do Santo Padre Bento XVI. É sobre o sacerdócio. Reze para que nossos padres nunca percam de vista o dom inestimável que o Senhor lhe colocou nas mãos para o bem da Igreja e do mundo. E que Deus conserve o Santo Padre! 

Queridos irmãos
no episcopado e no sacerdócio
Prezados irmãos e irmãs 

            A Quinta-Feira Santa é o dia em que o Senhor confiou aos Doze a tarefa sacerdotal de celebrar, no pão e no vinho, o Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue, até à sua volta. O cordeiro pascal e todos os sacrifícios da Antiga Aliança são substituídos pela dádiva do seu Corpo e do seu Sangue, pelo dom de Si mesmo. Assim, o novo culto fundamenta-se no fato de que, em primeiro lugar, Deus nos oferece um dom e nós, repletos deste dom, tornamo-nos seus: a criação regressa ao Criador. Deste modo, também o sacerdócio se tornou algo de novo: já não é uma questão de descendência, mas um encontrar-se no mistério de Jesus Cristo. Ele é sempre Aquele que doa e, do alto, nos atrai a Si. Somente Ele pode dizer: "Isto é o meu Corpo isto é o meu Sangue". O mistério do sacerdócio da Igreja encontra-se no fato de que nós, pobres seres humanos, em virtude do Sacramento, podemos falar com o seu Eu: in persona Christi. Ele quer exercer o seu sacerdócio através de nós. Este mistério comovedor, que em cada celebração do Sacramento volta a nos tocar, nós recordamo-lo de maneira particular na Quinta-Feira Santa. A fim de que a vida quotidiana não desperdice o que é grande e misterioso, temos necessidade desta lembrança específica, precisamos regressar à hora em que Ele impôs as suas mãos sobre nós e nos tornou partícipes deste mistério.  

            Por isso, voltemos a refletir sobre os sinais em que o Sacramento nos foi concedido. No centro encontra-se o antiqüíssimo gesto da imposição das mãos, com o qual Ele tomou posse de mim, dizendo-me: "Tu me pertences". Mas com isto disse também: "Tu estás sob a proteção das minhas mãos. Tu te encontras sob a proteção do meu coração. Tu estás conservado na palma da minha mão e é precisamente assim que te encontras na vastidão do meu amor. Permanece no espaço das minhas mãos e dá-me as tuas".  

            Além disso, recordemos que as nossas mãos foram ungidas com o óleo, que é o sinal do Espírito Santo e da sua força. Por que precisamente as mãos? A mão do homem é o instrumento do seu agir, é o símbolo da sua capacidade de enfrentar o mundo, exatamente de "tomá-lo pela mão". O Senhor impôs as suas mãos sobre nós e agora quer as nossas mãos a fim de que, no mundo, elas se tornem suas. Deseja que elas não sejam mais instrumentos para tomar as coisas, os homens e o mundo para nós, para reduzi-lo a nossa posse mas, ao contrário, para que transmitam o seu toque divino, colocando-se ao serviço do seu amor. Quer que elas sejam instrumentos do serviço e, portanto, expressão da missão de toda a pessoa que se faz penhor dele e que O transmite aos homens. Se as mãos do homem representam simbolicamente as suas faculdades e, em geral, a técnica como poder de dispor do mundo, então as mãos ungidas devem constituir um sinal da sua capacidade de doar, da criatividade no ato de plasmar o mundo com o amor e para isso, sem dúvida, temos necessidade do Espírito Santo. No Antigo Testamento, a unção é sinal da admissão para um serviço: o rei, o profeta, o sacerdote fazem e dão mais do que aquilo que deriva da sua pessoa. De certo modo, são despojados de si próprios em função de um serviço, em que se põem à disposição de Alguém que é maior do que eles. Se hoje Jesus se apresenta no Evangelho como o Ungido de Deus, como Cristo, então isto quer dizer precisamente que Ele age por missão do Pai e na unidade com o Espírito Santo e que, desta forma, entrega ao mundo uma nova realeza, um novo sacerdócio, um renovado modo de ser profeta, que não busca a si mesmo, mas vive para Aquele em vista de quem o mundo foi criado. Hoje voltemos a colocar as nossas mãos à sua disposição e peçamos-lhe que nos tome novamente pelas mãos e que nos oriente.  

            No gesto sacramental da imposição das mãos por parte do Bispo foi o próprio Senhor quem impôs as suas mãos sobre mim. Este sinal sacramental resume todo um percurso existencial. Certa vez, como aconteceu com os primeiros discípulos, encontramos o Senhor e ouvimos a sua palavra: "Segue-me!". Talvez, inicialmente, O tenhamos seguido de maneira um pouco instável, olhando para trás e perguntando-nos se tal caminho era realmente o nosso. E numa certa altura do caminho, talvez tenhamos vivido a experiência de Pedro depois da pesca milagrosa, ou seja, talvez nos tenhamos assustado pela sua grandeza, pela enormidade da tarefa e pela insuficiência da nossa pobre pessoa, a ponto de desejarmos recuar: "Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador" (Lc 5,8).  

            Mas em seguida, com grande bondade, Ele, nos tomou pela mão, nos atraiu a Si e nos disse: "Não tenhas medo! Eu estou contigo. Não te deixo, mas também tu não me deixes!". E, certas vezes, com cada um de nós talvez tenha acontecido a mesma coisa que aconteceu com Pedro quando, caminhando sobre as águas ao encontro do Senhor, repentinamente sentiu que a água não o sustentava e que estava prestes a afundar. E como Pedro, também nós gritamos: "Salva-me, Senhor!" (Mt 14,30). Vendo a violência da natureza, como poderíamos passar pelas águas ruidosas e espumosas do século passado e do último milênio? Mas então olhamos para Ele... e Ele nos agarrou pela mão e nos atribuiu um novo "peso específico": a ligeireza, que deriva da fé e nos atrai rumo ao alto. E depois estendeu-nos a mão, que apóia e orienta. É Ele que nos sustenta.  

            Fixemos sempre de novo o nosso olhar nele e estendamos-lhe as mãos. Deixemos que a sua mão nos arrebate e assim não afundaremos, mas serviremos à vida, que é mais forte do que a morte; e ao amor, que é mais vigoroso do que o ódio. A fé em Jesus, Filho do Deus vivo, é o instrumento através do qual sempre de novo tomamos a mão de Jesus e mediante o qual Ele toma as nossas mãos e nos orienta. Uma das minhas orações preferidas é a súplica que a liturgia coloca nos nossos lábios, antes da Comunhão: "...nunca permitas que eu me separe de ti". Peçamos para jamais permanecermos fora da comunhão com o seu Corpo, com o próprio Cristo, para nunca ficarmos fora do mistério eucarístico. Peçamos que Ele jamais deixe a nossa mão... 

            O Senhor impôs as suas mãos sobre nós. E expressou o significado deste gesto com as seguintes palavras: "Já não vos chamo servos, visto que o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi do meu Pai" (Jo 15,15). Já não vos chamo servos, mas amigos: nestas palavras poder-se-ia chegar a ver a instituição do sacerdócio. O Senhor faz-nos seus amigos; confia-nos tudo; e confia-nos a Si mesmo, de tal modo que possamos falar com o seu Eu in persona Christi capitis. Que confiança! 

            Ele se colocou realmente nas nossas mãos. Todos os sinais essenciais da Ordenação sacerdotal são, em última análise, manifestações desta palavra: a imposição das mãos; a entrega do livro da sua Palavra, que Ele nos confia; a entrega do cálice, com o qual nos transmite o seu mistério mais profundo e pessoal. De tudo isto faz parte também o poder de absolver: Ele nos faz participar inclusive na sua consciência, em relação à miséria do pecado e a toda a obscuridade do mundo, enquanto coloca nas nossas mãos a chave para reabrir a porta da casa do Pai. Já não vos chamo servos, mas amigos. Este é o profundo significado do ser sacerdote: tornar-se amigo de Jesus Cristo. Por esta amizade devemos renovar todos os dias o nosso compromisso. Amizade significa comunhão no pensamento e na vontade. Devemos exercitar-nos nesta comunhão de pensamento com Jesus, diz-nos São Paulo na Carta aos Filipenses (cf. 2,2-5). E esta comunhão de pensamento não é algo unicamente intelectual, mas sim comunhão dos sentimentos e da vontade e, por conseguinte, também do agir. Isto significa que devemos conhecer Jesus de modo cada vez mais pessoal, ouvindo-O, vivendo juntamente com Ele, permanecendo ao seu lado. Ouvi-lo na lectio divina, ou seja, lendo a Sagrada Escritura de uma forma não acadêmica, mas espiritual; assim aprendemos a encontrar Jesus presente que nos fala. Diante dele e com Ele devemos raciocinar e refletir sobre as suas palavras e o seu agir. A leitura da Sagrada Escritura é oração, deve ser oração deve emergir da oração e conduzir à oração. Os Evangelistas dizem-nos que o Senhor durante noites inteiras se retirava reiteradamente "no monte" para rezar sozinho. Também nós temos necessidade deste "monte": trata-se da altura interior que devemos escalar, o monte da oração. É somente assim que a amizade se desenvolve. Só deste modo podemos realizar o nosso serviço presbiteral, somente assim podemos anunciar Cristo e o seu Evangelho aos homens. O simples ativismo pode chegar a ser heróico. Mas se não nascer da profunda e íntima comunhão com Cristo, no final de contas o agir exterior permanecerá infecundo e perderá a sua eficácia. O tempo que dedicamos a isto (á oração) é verdadeiramente um tempo de atividade pastoral, de um serviço autenticamente pastoral. O sacerdote deve ser, sobretudo, um homem de oração. No seu ativismo frenético, o mundo perde com freqüência a orientação. O seu agir e as suas capacidades serão destruidores, se definharem as forças da oração, das quais brotam as águas da vida, capazes de fecundar a terra árida.  

            “Já não vos chamo servos, mas amigos”. O núcleo do sacerdócio é o fato de sermos amigos de Jesus Cristo. Somente assim podemos falar verdadeiramente in persona Christi, embora a nossa distância interior de Cristo não possa comprometer a validade do Sacramento. Ser amigo de Jesus, ser sacerdote, significa ser homem de oração. É deste modo que O reconhecemos e saímos da ignorância dos simples servos. Assim aprendemos a viver, a sofrer e a agir com Ele e por Ele. A amizade com Jesus é, por antonomásia, sempre amizade com os seus. Só podemos ser amigos de Jesus na comunhão com Cristo inteiro, com a Cabeça e o corpo; na videira exuberante da Igreja, animada pelo seu Senhor. Somente nela a Sagrada Escritura é, graças ao Senhor, Palavra viva e atual. Sem o sujeito vivo da Igreja, que abraça todas as épocas, a Bíblia fragmenta-se em escritos freqüentemente heterogêneos e, assim, torna-se um livro do passado. Ela só é eloqüente no presente, onde há a "Presença", onde Cristo permanece nosso contemporâneo: no corpo da sua Igreja.  

            Ser sacerdote significa tornar-se amigo de Jesus Cristo, e isto cada vez mais com toda a nossa existência. O mundo tem necessidade de Deus; não de um deus qualquer, mas do Deus de Jesus Cristo, do Deus que se fez carne e sangue, que nos amou a ponto de morrer por nós, que ressuscitou e criou em Si mesmo um espaço para o homem. Este Deus deve viver em nós, e nós nele. Esta é a nossa vocação sacerdotal: somente deste modo o nosso agir presbiteral pode dar fruto. Gostaria de concluir esta homilia com uma palavra de André Santoro, aquele sacerdote da Diocese de Roma, que foi assassinado em Trebizonda enquanto rezava. O Cardeal Cè transmitiu-a a nós durante os Exercícios espirituais. A palavra diz: "Encontro-me aqui para habitar no meio deste povo e permitir que Jesus o faça, emprestando-lhe a minha carne... Só nos tornamos capazes de salvação, oferecendo o nosso próprio corpo. Temos que suportar o mal do mundo e compartilhar o sofrimento, absorvendo-os no nosso corpo até ao fim, como fez Jesus". Jesus assumiu a nossa carne. Entreguemos-lhe a nossa para que, deste modo, Ele possa vir ao mundo e transformá-lo. Amém!

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Última atualização em Ter, 26 de Maio de 2009 17:17
 

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