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| Escatologia - Sobre o fim do mundo! - VII |
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| Qua, 06 de Maio de 2009 11:08 |
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A retribuição imediata. O estado intermédio. A imortalidade. Pe. Henrique Soares da Costa Continuamos ainda nossa reflexão sobre a morte; ou melhor, sobre o que acontecerá conosco após a morte. Vejamos: é certo que nossa esperança em Cristo, nossa certeza da Parusia do Senhor nos abre um horizonte esplêndido: Cristo virá e nos transfigurará e estaremos para sempre com o Senhor, em glória! Mas... a nossa experiência de cada dia é bem outra: é de homens que morrem, saem deste mundo... e a vida continua sem eles. Isso mesmo: morreremos e o sol continuará brilhando, o mundo continuará existindo... como se nós nunca tivéssemos existido. Pois bem: como combinar a história que caminha, que continua e eu, que agora morro, que desapareço deste mundo? Para onde vou, que será de mim? Eu morro... mas o Cristo não voltou ainda; ainda não aconteceu a Parusia... E então? Será que se acaba nossa amizade com Deus - afinal estou morto! Será que esta amizade só vai ser reatada no fim de tudo, na Parusia? Então, desde a minha morte até o final eu não mais amarei a Deus nem por ele serei amado? Mas Deus é o Deus dos vivos, não dos mortos! E agora?! Ou, talvez, será que vou ficar “dormindo” ou ser destruído e, no fim dos tempos Deus vai tirar-me do nada, como se criasse uma outra pessoa? Se a morte é minha destruição total, então, na Ressurreição eu vou ser recriado, vou ser outra pessoa! É preciso responder todas estas questões! Mas, vamos por partes! No Antigo Testamento, antes da vinda do Cristo, pensava-se que quem morria ficava no sheol (mansão dos mortos), à espera da Vinda do Senhor, quando se dariam a Ressurreição dos mortos e o Juízo Final. Até lá, o sheol era igual para todo mundo, bons e maus: era o reino dam orte para todos! Os mortos ficavam numa situação de espera até à consumação final. Aos poucos foi nascendo a idéia de que, mesmo no sheol, há diferença entre os bons e maus; basta pensar na parábola do rico epulão e do pobre Lázaro: os dois estão no sheol (no seio de Abraão), mas um está feliz enquanto o outro pena. Em resumo: segundo o Antigo Testamento, os mortos ficavam “dormindo” no sheol até a ressurreição final, quando o Messias viesse. No Novo Testamento, o Messias chegou: tudo muda! Com Cristo, que é o Messias esperado, os mortos não mais ficarão esperando, pois chegaram os últimos tempos! Recordemos aquela passagem de Lucas 23,42s, do bom ladrão: “E falou: ‘Jesus, lembra-te de mim quando vieres como Rei’. E Jesus lhe respondeu: ‘Eu te asseguro: ainda hoje estarás comigo no paraíso’”. O ladrão, como os judeus da época de Jesus, esperava a Ressurreição no final dos tempos, quando o Senhor viria em glória: “Lembra-te de mim, quando vieres com teu Reino!” Mas, o Reino já chegou, com a Ressurreição de Jesus chegaram os tempos finais. Por isso mesmo Jesus responde: “Hoje mesmo estarás comigo!” Agora que ele chegou, que venceu a morte, não há mais o que ficar esperando: com Cristo, os mortos não têm mais o que esperar! O futuro esperado torna-se hoje, torna-se presente em Cristo: a salvação definitiva não é uma realidade meramente escatológica, futura, mas surte efeitos imediatos para quem parte desta vida na comunhão com Cristo; o paraíso, estado final da bem-aventurança, é estar com Cristo, “já”, “agora”!. A morte de Cristo abre as portas do paraíso, de modo que a morte do cristão é entrada na Vida eterna. Por isso mesmo São Paulo afirma preferir ausentar-se desta vida terrena para ir estar com Cristo: “Estamos, repito, cheios de confiança, preferindo ausentar-nos do corpo para morar junto do Senhor” (2Cor 5,8). Aqui aparece claramente que o término da existência terrena leva imediatamente a habitar junto do Senhor. Não tem essa de ficar dormindo: morrer é ir estar imediatamente com o Senhor... por isso Paulo prefere morrer logo! Os que morrem antes da Vinda de Cristo na glória vivem já com o Senhor. O Apóstolo acrescenta, em outra carta: “Para mim viver é Cristo e a morte, lucro. Entretanto, se o viver na carne ainda me permitir um trabalho frutuoso, não sei o que escolher. Estou como que na alternativa. Pois de um lado desejo partir para estar com Cristo, o que é muito melhor” (Fl 1,21ss). Note-se que aqui o importante é que “ o viver é Cristo”: a morte não é um lucro em si mesmo, mas somente se for um partir para estar logo com Cristo. Uma morte que fosse separação de Cristo ou que interrompesse a comunhão com ele, não seria “lucro” para Paulo. A morte somente é desejável porque permite a entrada nessa comunhão com Cristo, que constitui o objetivo último da esperança cristã. Em mais sete textos paulinos a expressão “com Cristo” aparece com este significado. Por exemplo: “Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, cremos também que Deus levará com Jesus os que nele morrerem. Depois nós, os vivos, que estamos ainda na terra, seremos arrebatados juntamente com eles para as nuvens, ao encontro do Senhor nos ares. Assim estaremos sempre com o Senhor” (1Ts 4,14.17); “Pois Deus não nos destina à ira mas à salvação por Nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós a fim de que, vivos ou mortos, fiquemos unidos a ele” (1Ts 5,10). Outros textos são 2Cor 4,14; 13,4; Rm 6,8; 8,32. Estar com o Senhor exprime a firme certeza da comunhão com Cristo logo após a morte! Se o estar com Cristo fosse possível somente na Parusia, o melhor para Paulo não seria partir! Partir para ficar dormindo?! Partir somente é bom porque é para estar com Cristo! Resumindo tudo isto que vimos até agora: aparece claríssimo no Novo Testamento que logo após a morte “partimos para estar com Cristo”. Então, erram aqueles protestantes que afirmam que, após a morte, ficamos dormindo até à Ressurreição final! Afirmar que, após a morte ficamos dormindo, é esquecer que Cristo ressuscitou, que com ele, ressuscitamos para a Vida! Erram gravemente os espíritas, que pensam que, após a morte, ficamos à toa, zanzando num além, até reencarnarmos novamente! Isso seria desconhecer que nem a morte, nem a vida, nem criatura alguma nos poderá separar do amor de Cristo (cf. Rm 8,39). Para terminar, cito um importante texto do magistério da Igreja, a Constituição Benedictus Deus, do Papa Bento XII, no século XIV, que ensinou claramente e de modo infalível: “Nós, com a força da autoridade apostólica, definimos que, segundo a geral disposição de Deus, as almas de todos os santos que deixaram este mundo antes da paixão de nosso Senhor Jesus Cristo, e aquelas dos santos apóstolos, dos mártires, dos confessores, das virgens e dos outros fiéis que morreram após receber o santo Batismo de Cristo, e nos quais não há mais nada para purificar quando morreram, e não haverá também no futuro, quando morrerem, ou caso tenham algo para purificar, uma vez purificado, já que foram purificados após a sua morte (...) imediatamente após a morte e a purificação - se disto tinham necessidade -, mesmo antes de reassumirem os seus corpos e do juízo universal, após a Ascensão do nosso Senhor Jesus Cristo ao céu, estavam, estão e estarão no céu, no reino dos céus e no celeste paraíso, com Cristo...” A doutrina da Igreja é clara: aqueles que já estão purificados de seus pecados, imediatamente após a morte, mesmo antes do juízo final, estarão no paraíso, que é estar com Cristo. E isto por quê? Porque Jesus já ressuscitou e já subiu ao céu. Na sua Ascensão, já nos abriu o coração do Pai! Repito: quem nega que logo após a morte vamos estar com Cristo, está desconhecendo que Cristo ressuscitou, está ainda no Antigo Testamento! No próximo tópico vamos continuar com nossa reflexão. A questão a ser respondida será: como ficamos entre a nossa morte e o juízo final? Se não vamos ficar dormindo, vamos estar com Cristo em corpo e alma ou é só a alma que vai e o corpo só vai depois? Ou é só a alma que interessa e o corpo vai ser destruído para sempre? Vamos ver... A retribuição imediata. O estado intermédio. A imortalidade - II Vimos, no tópico passado, que, imediatamente após a morte estaremos com Cristo. Esta é a fé do Novo Testamento e da Tradição da Igreja. Imediatamente após a morte o indivíduo encontra-se no estado definitivo e não no de espera. No entanto isto não significa isolá-lo do momento final, da Vinda do Senhor, com toda a sua importância. Assim, dois pontos devem ser mantidos firmes na nossa fé: (1) estaremos com Cristo no momento da morte e, (2) no entanto, o momento final da Vinda do Senhor será importante para todos e para cada um. Vejamos, passo a passo. Primeiramente é necessário deixar claro que somente no final dos tempos, na Vinda do Senhor, é que toda a criação e toda a humanidade (todos os mortos) chegará à plenitude. É o que chamamos de ressurreição final, a ressurreição no Último Dia. Vamos, então, como dizem os protestantes, ficar “dormindo”? Desde o século passado os protestantes dizem que é anti-bíblico falar em imortalidade da alma: na morte, seria o homem todo que sucumbiria, em corpo e alma, e é todo o homem que ressuscita. Então, serei totalmente destruído, em corpo e alma, de modo que, a realização de toda e qualquer esperança para mim somente acontecerá no juízo final! Até lá, eu serei nada! O que pensar disso? Trata-se de uma idéia completamente falsa. Se nós fôssemos totalmente destruídos após a morte, então a ressurreição não seria ressurreição, mas recriação: Deus criaria uma outra pessoa - outro corpo e outra alma! Já não seria eu! Além do mais, na Bíblia existe a palavra “alma”, que significa o eu do homem, aquilo que nele é permanente, que subsiste à corrupção. Assim, a alma é a dimensão que garante a continuidade do indivíduo com sua identidade pessoal após a morte: sou eu mesmo que ressuscito! Esta alma, por ser imaterial, não é destruída nem com a morte. Mas por que isso? Porque Deus nos criou para a Vida e, assim, ele, que é fiel, já nos criou para a imortalidade... por isso deu-nos uma alma imortal. Mas, vejamos bem: somente a alma imortal não garante a vida eterna ao homem: a vida eterna é dom de Deus, é estar com Cristo para sempre. Do que valeria uma alma imortal se vivêssemos longe de Cristo? Seria viver no inferno, seria melhor nem existir! Portanto, com alma imortal e tudo, é somente Cristo, na potência do seu Espírito Santo, quem nos garante a vida eterna! Neste sentido, podemos dizer que a alma também ressuscita, ou seja, será transfigurada, passará desta vida limitada para a Vida plena, feliz, a Vida que o próprio Senhor ressuscitado vive. Sem Cristo, a alma imortal não serviria para nada! Já falamos sobre isto em outros tópicos! O certo é que o “estar com Cristo” irá nos transformar completamente, em todas as dimensões do nosso ser (corpo e alma), transfigurando-nos totalmente à imagem do Senhor: seremos semelhantes a ele pois o veremos como ele é (cf. 1Jo 3,2). Muito bem: com a morte, minha alma não é destruída, não se acaba minha amizade com Deus nem eu deixo de ser amado pelo Senhor: para ele eu continuo existindo, pois ele é fiel no seu amor! Por isso, já vimos, que Paulo falava em partir para estar com Cristo! Mas, se após a morte, minha alma vai estar com Cristo (ou ficar longe de Cristo, se eu fui fechado para ele)... e o meu corpo? E a ressurreição final, no final dos tempos? E pode existir uma alma separada do corpo? Já vimos, no tópico passado, que segundo o judaísmo do tempo de Jesus, os mortos ficavam esperando o Messias: seus corpos eram destruídos pela morte, mas, mesmo assim, eles continuavam existindo - basta recordar a parábola do rico e do pobre Lázaro! Por sua vez, São Paulo afirma que, quer continuando nesta vida, quer saindo “da tenda em que habitamos”, quer dizer, do nosso corpo, o importante é que estaremos com Cristo: “Sabemos, com efeito, que ao se desfazer a tenda que habitamos – nossa casa terrestre – teremos nos céus uma casa preparada por Deus e não por mãos de homens, uma casa eterna. Pois gememos em nossa tenda, desejando revestir-nos de nossa morada celeste, na suposição de sermos encontrados vestidos e não despidos. Realmente, enquanto moramos nesta tenda, suspiramos oprimidos porquanto não queremos ser despidos mas sim revestidos de uma veste nova sobre a outra, para o mortal ser absorvido pela vida. Foi Deus mesmo que assim nos fez, dando-nos o primeiro sinal de seu Espírito. Assim estamos sempre confiantes, persuadidos de que o tempo em que passamos no corpo é um exílio distante do Senhor. Andamos na fé e não andamos na visão. Estamos, repito, cheios de confiança, preferindo ausentar-nos do corpo para morar junto do Senhor. É também por isso que nos esforçamos quer na pátria quer no exílio por lhe ser agradáveis. Pois teremos todos de comparecer perante o tribunal de Cristo. Aí cada um receberá segundo o que houver praticado pelo corpo, bem ou mal” (2Cor 5,1-10). O que interessa aqui, para Paulo e para nós, é que, no corpo ou fora dele, após a morte estaremos com o Senhor! A mesma coisa a Igreja diz. Vejamos a Constituição Benedictus Deus, que já apresentamos no tópico anterior. Aí a Igreja ensinou que logo após a morte com nossa alma, receberemos o prêmio ou o castigo eternos: “Nós, com a força da autoridade apostólica, definimos que, segundo a geral disposição de Deus, as almas de todos os santos que deixaram este mundo antes da paixão de nosso Senhor Jesus Cristo, e aquelas dos santos apóstolos, dos mártires, dos confessores, das virgens e dos outros fiéis que morreram após receber o santo Batismo de Cristo, e nos quais não há mais nada para purificar quando morreram, e não haverá também no futuro, quando morrerem, ou caso tenham algo para purificar, uma vez purificado, já que foram purificados após a sua morte (...) imediatamente após a morte e a purificação - se disto tinham necessidade -, mesmo antes de reassumirem os seus corpos e do juízo universal, após a Ascensão do nosso Senhor Jesus Cristo ao céu, estavam, estão e estarão no céu, no reino dos céus e no celeste paraíso, com Cristo... e que estas, após a paixão e morte de nosso Senhor Jesus Cristo, viram e vêem a Essência divina com uma visão intuitiva e, mais ainda, com uma visão face a face, sem que haja, em razão do objeto visto, a mediação de nenhuma criatura, revelando-se, ao invés, a elas a Essência divina de modo imediato, descoberto, claro e notório e que aquelas que assim vêem, gozam plenamente da mesma Essência divina e, assim, em força de tal visão e gozo, as almas daqueles que estão já mortos, são verdadeiramente bem-aventuradas, e possuem a vida e a paz eternas, e também aqueles que em seguida morrerão, verão a mesma Essência divina e dela gozarão, antes do juízo universal”. Então, logo após a morte, na nossa alma, veremos a Deus e, no final dos tempos, nossos corpos ressuscitarão. Como compreender isso? Vejamos! Entre a morte de cada pessoa e a ressurreição final de todos nós há um “período” que não é como o nosso tempo da terra, feito de dias, meses e anos - para usar a linguagem dos teólogos: uma duração extensa de natureza diversa da nossa temporalidade espácio-temporal (estado intermédio). Ora, durante este “período” algo de nós não morre, continuamos vivos e já com Cristo, transformados! É este algo de nós, este “eu” que pode ser chamado de “alma”. Posso, então dizer com certeza: imediatamente após a morte, eu (ou se quiser, pode usar a palavra alma) estarei com Cristo. E meu corpo? Também não é parte de mim, do meu eu? É sim! Ele ressuscitará no Último Dia: um corpo glorioso, como já vimos antes, em outros tópicos. E eu, em corpo e alma, estarei para sempre com Cristo! Mas, então até lá, fica a minha alma separada do corpo? É possível isso? Não. Minha alma não ficará separada: quem está em Cristo nunca está “separado”, sozinho! Desde o Batismo somos membros do Corpo de Cristo, que é a Igreja. Assim, mesmo esperando a ressurreição de nosso corpo, estamos no aconchego do Corpo de Cristo, todos juntos, como membros da Igreja celeste, como membros uns dos outros, todos unidos pelo Espírito Santo ao Cristo, nossa Cabeça. É assim que estão os santos todos, esperando a ressurreição do seu corpo, no Último Dia, quando todos nós seremos glorificados! Portanto, mesmo dizendo que nosso corpo ainda não ressuscitou, não é correto dizer que até o final dos tempos nossa alma ficará separada do corpo: estaremos no Corpo de Cristo! É assim que estamos desde o nosso Batismo; é isto que experimentamos em cada Eucaristia! No próximo tópico terminaremos esta reflexão. A retribuição imediata. O estado intermédio. A imortalidade - III Vimos, no tópico passado, que logo após a morte estaremos com Cristo, com nosso “eu” unido à nossa alma. Nosso corpo, no entanto, ressuscitará somente no Último Dia, quando o Senhor vier em glória. Mas vimos também que nossa alma ressuscitará, quer dizer, será transformada, transfigurada pelo Espírito Santo do Cristo Jesus, de modo que já não sofreremos, não teremos saudades, tristezas, solidão nem nenhuma das limitações desta vida. Vimos, finalmente, que não se deve dizer que, até à Vinda do Senhor, nossa alma ficará “separada” do corpo, pois estaremos, mesmo antes da ressurreição final, no Corpo de Cristo ressuscitado, que é a Igreja celeste, a Jerusalém do Alto. Para quem vive na amizade com Cristo, não há isolamento: há somente comunhão de amor! Sim, para quem crer, não é o isolamento que o espera após a morte, mas a incorporação no Corpo eclesial de Cristo, numa situação marcada pelo conforto e pela alegria da Comunhão dos santos, imersa na Vida trinitária: estaremos plenos do Espírito, incorporados plenamente em Cristo - no seu Corpo (incorporação iniciada no Batismo) e, assim, contemplaremos o Pai. Que fique bem claro: mesmo se não ressuscitaremos logo com nosso corpo, mas, por enquanto, somente com nossa alma, nem por isso nossa alma fica à toa na vida! Não fica separada coisa nenhuma: fica unida; bem unida ao Corpo de Cristo no qual estamos desde o nosso Batismo. Esta união é vivida e celebrada por nós sobretudo em cada Eucaristia! Assim, o estado intermédio (entre a nossa morte individual e o final dos tempos) é uma forma de tempo escatológico da Igreja a caminho, ou seja, é um modo de estar, de viver, dos cristãos que partem desta vida e esperam ainda a Vinda final do Senhor em glória. Neste sentido, “alma separada” quer simplesmente significar a personalidade do homem enquanto permanece em vida e, com Cristo em Deus, também além da morte, até à nova reunião com o corpo transfigurado dos ressuscitados. Nem a morte nos poderá separar do amor de Cristo! Não seria justo, portanto, colocar a ênfase na idéia de alma separada, mas sim na comunhão com o Senhor e seu Corpo: quem se encontra com o Senhor goza de uma plenitude humana superior à nossa, ainda aqui na terra, mesmo se “espera” a plenitude do Corpo de Cristo, a transformação do universo e, com ela, a plena identidade consigo mesmo em todas as sua dimensões pessoais e sociais. No Corpo de Cristo, no estar com Cristo, o “eu” daquele que morreu, mantém juntamente com a “alma”, uma corporeidade: a do Corpo de Cristo, de modo que nem o corpo nem a alma imortal são independentes de Cristo. Para terminar, gostaria de comentar rapidamente algumas partes do documento “Algumas questões de Escatologia”, da Congregação para a Doutrina de Fé, de 17 de maio de 1979. O Documento apresenta os seguintes pontos firmes, que devem ser afirmados por todos os católicos: 1. A Igreja crê em uma ressurreição dos mortos. 2. A Igreja compreende tal ressurreição como referente ao homem inteiro (corpo e alma). Para os eleitos esta ressurreição não é outra coisa que a extensão aos homens da própria Ressurreição de Cristo, já que ressuscitarão por causa de Cristo, com Cristo e como Cristo. 3. A Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência, depois da morte, de um elemento espiritual, que é dotado de consciência e de vontade, de modo que o “eu humano” subsista, mesmo faltando neste meio tempo o complemento do seu corpo. Para designar este elemento, a Igreja usa a palavra “alma”, consagrada pelo uso da Sagrada Escritura e da Tradição. Sem ignorar que este termo assume na Bíblia diversos significados, a Igreja pensa, contudo, que não há nenhuma razão séria para refutá-lo e considera, também, que é absolutamente indispensável um instrumento verbal para sustentar a fé dos cristãos. Assim, podemos continuar falando na “alma” dos que morrem, desde que alma signifique “eu”. Quando dizemos: “pela alma de fulano”... queremos dizer: “por fulano”! 4. A Igreja, em conformidade com a Sagrada Escritura, espera “a manifestação gloriosa do Senhor nosso Jesus Cristo” - que ela deseja - como distinta e em outro momento em relação à situação que é própria dos homens imediatamente após a morte. Ou seja, a Vinda do Senhor vai acontecer para todos no momento final da história humana, no Último Dia, mesmo que já estejamos com Cristo na glória logo após a nossa morte. 5. A Igreja, no seu ensinamento sobre a sorte do homem após a sua morte, exclui toda explicação que tire o sentido à Assunção de Maria naquilo que ela tem de único, ou seja, o fato que a glorificação corpórea da Virgem é a antecipação da glorificação reservada a todos os outros eleitos. Em outras palavras: dentre todas as criaturas, somente a Virgem Maria já está no céu em corpo e alma, desde a sua Assunção. Todos os outros mortos em Cristo estão no céu com suas almas, à espera da ressurreição corporal. Uma última questão: os protestantes dizem que esta história dos católicos de falarem numa “alma imortal” é contra a Bíblia; é uma idéia da filosofia grega! Isso não é verdade! Já vimos o exemplo da parábola do pobre Lázaro e do rico epulão: eles, o pobre e o rico, mesmo após a morte e antes do Juízo Final, estão “vivos”, um no seio de Abraão e o outro, longe dele. Estão vivos nas suas almas! Quando a Igreja fala em alma imortal é no seguinte sentido: Deus nos ama e não permite que sejamos destruídos; ele criou o homem para a comunhão com ele e, assim, nos deu uma dimensão imaterial, espiritual (alma) que, mesmo após a morte, sobrevive. Temos uma alma imortal, indestrutível, porque Deus nos criou para nos amar eternamente e, somente vivos podemos ser amados: ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos! Se vivermos unidos a Cristo, estaremos com ele e esta nossa “alma” será glorificada, completamente transformada, plena da bem-aventurança de Cristo. Mas, se lhe dissermos “não” nesta vida, vamos estar longe do Senhor, naquela situação que a Escritura chama de inferno. Mas, nem aí, deixaremos de existir - porque Deus nos ama e não permite que sejamos destruídos: nossa “alma” viverá na tristeza, no “inferno” de estar longe do Senhor. Então, a alma sozinha, coitada, não garante nossa felicidade nem nossa vida: somente estando com Cristo é que seremos felizes e nossa alma terá a vida bem-aventurada! Assim, quando a Igreja fala na imortalidade da alma, não tem nada a ver com o modo de pensar dos pagãos, que imaginam que a alma é imortal porque é superior ao corpo e porque é imaterial e, assim, basta ficar livre do corpo para ser feliz. É esta, mais ou menos, a idéia dos espíritas, por exemplo! Para nós não é nada disto: somente em Cristo, na união com ele e transformados por seu Espírito Santo é que seremos felizes, tanto no nosso corpo quanto na nossa alma. Pronto! Agora só nos falta falar sobre o purgatório - é o assunto do próximo tópico... e terminaremos estes tópicos sobre escatologia! Artigos Relacionados: |
| Última atualização em Qua, 06 de Maio de 2009 11:09 |
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