Hipocrisia PDF Imprimir E-mail
Editoriais do Semeador
Sex, 15 de Maio de 2009 18:45

            Apareceu, recentemente, na Folha de São Paulo, um artigo de um padre jesuíta, Luís Corrêa Lima, intitulado “O papa e o crítico feroz”. Trata do encontro que o Santo Padre Bento XVI teve com o teólogo suíço, Hans Küng no passado dia 24 de setembro. Küng é um teólogo rebelde que, apesar de inteligente, há muito tempo segue sua própria estrada, desvinculado da teologia católica. Küng sempre se colocou acima da Igreja e do Magistério, sempre se julgou a Verdade. Com toda razão, desde os anos oitenta, o Papa João Paulo II o proibiu de ensinar em nome da Igreja. Desde então, ele é teólogo dele mesmo e pensa por sua própria conta. Küng já disse cobras e lagartos do Papa João Paulo II. Por exemplo: tratando-o como “polaco”, afirma que ele seria um papa das decisões erradas, que obstruiu as reformas na Igreja, negou o diálogo com o mundo e quis impor suas idéias de modo absoluto porque não aplaudiu o aborto, não canonizou o divórcio, não liberou geral os preservativos, não traiu a Escritura e a Tradição permitindo que mulheres se ordenassem padres, não acabou com o celibato e, finalmente, nomeou para a Igreja um episcopado medíocre, servil e ultraconservador, seu legado mais grave. Quanto a Ratzinger, Küng o caluniou do modo mais abjeto e sem caridade. Na véspera do Conclave chegou a escrever na imprensa alemã que o Cardeal estava manipulando a eleição do novo papa. No entanto, Bento XVI é humilde e manso, sereno e caridoso – sempre foi e quem o conhece sabe disso. Por isso, nunca criticou Küng, nunca respondeu suas provocações e, agora, como Papa, aceitou receber o ex-teólogo católico. Conversaram sobre temas gerais do mundo atual. Nada de teologia propriamente dita.

            Pronto! Bastou isso, e o pessoal que antes metia a ripa no Papa Bento XVI, chamando-o de conservador, autoritário, obscurantista, já está aplaudindo o Papa. Antes, esse pessoal dizia que João Paulo II era duro porque Ratzinger o pressionava e o influenciava. Agora estão dizendo que Ratzinger era bonzinho; o Papa João Paulo II é que era duro e o obrigava o coitadinho do Cardeal alemão a ser duro. Agora, que o Santo Padre recebeu o grande guru, o iluminado, o grande teólogo Hans Küng, Bento XVI virou um Papa agradável e útil. Eis as próprias palavras do Pe. Luís Corrêa, que representa bem esse pessoal da Igreja do oba-oba: “Este encontro destoa da imagem de Ratzinger conservador intransigente. Ele foi um teólogo avançado na época do Concílio. Depois, teve outra postura à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, sob as ordens de Wojtyla (João Paulo II). Agora como papa, ele tem mais liberdade de ação, sem estar sujeito a outra pessoa, mas apenas à sua própria consciência e a Deus. É possível que esteja surgindo um novo Ratzinger. Assim como houve um primeiro e um segundo, pode haver um terceiro. Hans Küng saiu maravilhado do encontro com Bento XVI”.

            Mais uma vez esse pessoal vai se decepcionar. Se essa gente conhecesse um pouquinho o Papa Bento, veria que ele nunca foi intransigente nem reacionário nem perseguidor de ninguém. Nunca houve um primeiro Ratzinger avançado e um segundo Ratzinger perseguidor malvado e fechado. Também não haverá um terceiro Ratzinger, dançarino da música do mundo atual. O Papa Bento XVI sempre foi e será homem de diálogo, manso e humilde. Se esse pessoal conhecesse o pensamento de Ratzinger saberia também que o Papa não cederá um palmo daquilo que é a fé da Igreja. Ele nunca cedeu ao mundo: nem quando era professor de teologia, nem quando era teólogo no Concílio, nem quando era cardeal! Não se negocia o Evangelho! Basta recordar suas palavras na abertura do Conclave: “Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, muitas vezes é classificado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar daqui pra lá por qualquer vento de doutrina, aparece como a única atitude à altura dos tempos hodiernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades. Ao contrário, nós, temos outra medida: o Filho de Deus, o verdadeiro homem. É ele a medida do verdadeiro humanismo. "Adulta" não é uma fé que segue as ondas da moda e a última novidade; adulta e madura é uma fé profundamente radicada na amizade com Cristo. É esta amizade que nos abre a tudo o que é bom e nos dá o critério para discernir entre verdadeiro e falso, entre engano e verdade. Devemos amadurecer esta fé, para esta fé devemos guiar o rebanho de Cristo”. A Igreja não dançará a música que o mundo toca! Dialogar com o mundo, sim; servir o mundo naquilo que é justo, sim; trair o Evangelho e desfigurar a fé católica para agradar o mundo, nunca! Bento XVI será firme tanto quanto João Paulo II, para a glória de Deus, o bem da Igreja e o desgosto de quem hipocritamente tenta aplaudir aquele em quem antes impiedosa e injustamente jogou pedra.

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