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| “Eles, por uma coroa perecível...” |
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| Editoriais do Semeador |
| Sex, 15 de Maio de 2009 19:00 |
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Numa de suas edições recentes, a revista Veja trouxe, como reportagem de capa, a menina Daiane dos Santos, grande revelação da ginástica brasileira. Entre outras coisas, a matéria revelava o rigoroso regime de vida ao qual as atletas como a Daiane se submetem: uma vida de quartel ou, se preferirmos, de mosteiro. Ainda na sua capa, a Veja sublinhava: “O regime de dedicação, privação e dor que levou a brasileira ao topo da ginástica mundial”. Imediatamente, recordei as palavras de São Paulo: “Não sabeis que aqueles que correm no estádio, correm todos, mas um só ganha o prêmio? Correi, portanto, de maneira a consegui-lo. Os atletas se abstêm de tudo; eles, para ganhar uma coroa perecível; nós, porém, para ganhar uma coroa imperecível” (1Cor 9,24s). Confesso que fiquei triste... Hoje, investe-se tanto em esporte, divulga-se o esporte como a coisa mais séria do mundo; os atletas são apresentados como modelos de vida a serem admirados e seguidos; os treinos, o esforço, a disciplina esportiva, tudo apresentado como virtude e altruísmo... Os slogans são grandiloqüentes: “Esporte é vida”, “O esporte irmana os povos”, “Esporte é paz”... É verdade que há muito dinheiro em jogo e, por isso, toda essa promoção esportiva. Basta pensar no tênis, no futebol e na fórmula 1. Mas, é verdade também que se não houvesse quem assistisse, procurasse e muitas vezes idolatrasse a prática esportiva, todo esse frisson não existiria... É inquietante, é de fazer pensar... Claro que, em si, o esporte é um bem: auxilia a saúde física e mental, é fator importante de socialização, pode desenvolver lideranças, incentivar o trabalho em equipe, etc. O problema não é o esporte, mas o modo como hoje ele é visto e valorizado, a mística que se criou em torno dele! Quando nossa sociedade era cristã, os heróis não eram os atletas, mas os santos: aqueles que empenharam a vida em Cristo e, por ele, deram tudo a Deus e aos irmãos. Os heróis dos jovens cristãos eram um Francisco de Assis, um Camilo de Lelis, um Inácio de Loyola, um Francisco Xavier, um Luís Gonzaga, uma clara de Assis, uma Teresa do Menino Jesus... Era o tempo em que Cristo era realmente a seiva vital de nossa cultura e o cristianismo inspirava valores, ideais, modelos de existência... tempo em que o domingo (do latim dies Domini = dominica = dia do Senhor) era dia, antes de tudo, de participar da Ceia do Senhor, celebrando a Eucaristia. Atualmente, se os heróis são os Ronaldinhos e Ronaldos, os Gugas e Daianes; os domingos são dias de cerveja, estádio e praia... e nada mais. Escutam-se os slogans de efeitos, mas tão falsos, tão falsos: “Esporte é vida; esporte é paz”... Não! Cristo é vida, porque somente ele confere um sentido real e duradouro à vida; uma tal certeza, uma tal perspectiva, que nem a morte pode destruir! Cristo é paz! Somente ele! Porque somente nele o coração descansa realmente, de um descanso não ilusório, verdadeiro, consistente! “O esporte irmana os povos!” Somente o Cristo nos irmana de verdade, porque nos faz filhos do mesmo Pai, ao qual nos dirigimos exclamando: “Pai nosso!” É sintomático: sempre que uma pessoa ou uma sociedade exclui Deus, teórica ou praticamente, cria uma nova religião, uma religião sem Deus. Pois bem: o esporte é, hoje, uma dessas religiões; os templos são os estádios, os encontros de oração, as academias... Que pena, porque por mais que seja interessante a prática esportiva, ela não é um valor dos mais importantes da existência: ela não garante o sentido da vida, ela não realiza em profundidade o coração, ela não pode dar o eixo e o rumo de nossos dias neste mundo. Que pena! Como temos caído, a ponto de nos satisfazermos com tão pouco, de colocar nossa alegria em um ideal tão óbvio, tão curto, tão baixo... Realmente, são de cortar coração e atiçar a consciência, as palavras de São Paulo: “Não sabeis que aqueles que correm no estádio, correm todos, mas um só ganha o prêmio? Correi, portanto, de maneira a consegui-lo. Os atletas se abstêm de tudo; eles, para ganhar uma coroa perecível; nós, porém, para ganhar uma coroa imperecível” (1Cor 9,24s). Quem dera que nós, cristãos, nos entusiasmássemos tanto com o Cristo como os desportistas com seus esportes; que nos exercitássemos tanto na oração, na ascese (= exercício espiritual, que tem a mesma raiz grega da palavra “atleta”) como os atletas fazem para suas competições; que nosso entusiasmo em testemunhar e o Evangelho fosse o mesmo dos locutores tresloucados de rádio e televisão; que “perdêssemos” com o Senhor o tempo que os comentadores dos programas esportivos perdem todos os dias, com tantas futilidades... Recentemente, o Papa João Paulo II alertou os católicos para que não façam do domingo um dia mundano, dia simplesmente de ocupações lúdicas. Que o domingo seja aquilo que é: Dia do Senhor Ressuscitado que nos reúne como Igreja, nos dirige sua Palavra e conosco parte o pão da Eucaristia... Mas, a grande maioria dos católicos nominais não ouvirá, certamente. Estão muito ocupados com suas distrações e, além do mais, somente pode compreender essas coisas quem encontrou realmente o Cristo na sua vida, quem fez dele sua corrida, a causa de sua existência, o motivo último de seu esforço e a certeza do seu troféu... como um grande maratonista paulista do início do século XX que, um dia, encontrou o Cristo, e o encontro foi tão profundo e marcante, que ele entrou no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro; fez-se monge. Quando foi ordenado padre, mandou derreter todas as suas medalhas e, com elas, fez o cálice para a sua Missa. E, no cálice, escreveu: tanto corri, que alcancei o Cristo! 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