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Editoriais do Semeador
Sex, 15 de Maio de 2009 23:40


            A fé cristã nos ensina que Deus criou o homem. Afirmação simples, que beira até mesmo à evidência e, no entanto, cheia de significado. Afirmação que, se bem compreendida, exige um profundo ato de fé!

            Acreditar que o homem foi criado por Deus significa primeiramente levar a sério que ele não existe por si mesmo, não decidiu o seu ser e não tem em si mesmo, como coisa sua, a vida que vive: a existência foi-lhe dada como um dom e, a cada momento, ele precisa recebê-la. Sim: não fomos criados; somos criados a cada momento. Ninguém pode apropriar-se de modo absoluto da existência! Por incrível que pareça, a vida não é propriedade privada nossa! Não temos a vida como uma posse garantida, mas precisamos recebê-la de fora, de um Outro, nos diz a fé e nos faz suspeitar a experiência! Basta que não nos alimentemos, que não respiremos... o que nos aconteceria? Decididamente não somos os autores de nossa vida!

            Se o homem fosse um pouquinho mais sensato, bastaria este dado tão simples para colocá-lo em alerta contra toda indevida soberba e pretensiosa auto-suficiência. Mas, infelizmente, o homem não é muito sensato! Não percebe que sua existência somente encontra sentido se é relacionada, referida a algo fora dela mesma. O homem centrado em si mesmo não se realiza, não encontra seu caminho, não atinge a plenitude, não se humaniza. É uma outra experiência que fazemos sempre: necessitamos dos outros, temos necessidade de criar relacionamentos, amar e sermos amados, acolher e sermos acolhidos. Precisamos planejar, sonhar, construir, partilhar... O coração humano não pode fazer pouco dessa realidade! Tudo isso nos indica que somos abertos, criados para estabelecer relações de dar e receber! E, no entanto, é uma experiência dolorosa constatar que nenhuma destas relações nos satisfaz totalmente: nem o amor, nem o trabalho, nem o que construímos, nem o que conhecemos... nada consegue saciar plenamente o nosso coração; sempre teremos sede de algo mais, de nos encontrar de modo mais profundo com aquilo que nos realizará e saciará plenamente!

            Esta estrutura aberta, dialogal, relacional, do homem é um sinal claro que ele foi feito para o Infinito, que somente saindo de si, consegue entrar em si, que somente se perdendo no Outro, se encontra verdadeiramente! Numa linguagem mais clara e teológica: fomos criados para a comunhão com Deus, nossa Vida, nosso Amor, nossa Plenitude: somente nele nosso coração descansará e terá a paz plena.

            Mas, nunca como em nossa época a humanidade foi tão bêbada de auto-suficiência e autocomplascência. Porque construímos umas maquinazinhas espertas, porque descobrimos alguns mecanismos da natureza, algumas franjas do mistério do psiquismo humano e da vida social e histórica dos grupos e comunidades, pensamos que somos senhores de nós mesmos, que nos bastamos e podemos nos fechar solenemente para Deus. Triste engano! Fechados assim, vamos construindo um mundo sem graça. Ou será que há alguma graça na situação do nosso Estado de Alagoas, no desemprego no Brasil, no cinismo de nossos políticos em todos os níveis, na desumanidade do sistema macro-econômico, vampiro de escala planetária? Será engrançada a omissão da ONU e a hipocrisia norte-americana no caso do Timor Leste? Será divertida a fome da África Negra? Será interessante o sem número de jovens que iniciam a vida sem um sentido para sua existência? Será sinal de progresso multidão de criancinhas nascidas de mães solteiras (e isso nas classes A a Z)? Será interessante a desagregação da família?

            Oxalá a humanidade acorde e veja o quanto está longe de se bastar a si mesma! É interessante, mas até psicologicamente, quando o homem se sente impotente é que tem mais facilidade de se enxergar com realismo. Coitadinho! Tem tanta facilidade de se iludir, que precisa sempre dos solavancos da vida para acordar e deixar sua leda ilusão! Os portugueses do século XVI tinham um provérbio interessante: “Se queres aprender a orar, faze-te ao mar!” Quer dizer: é diante do perigo, de uma realidade que nos ultrapassa e supera nossa compreensão, que o homem melhor consegue perceber que não se basta, que precisa de Deus, do seu carinho, da sua orientação, do seu socorro. Só assim ele percebe que foi criado aberto para Deus, para nele repousar um dia! Talvez, quando nossa civilização prepotente encontrar-se meio vazia e perdida no alto mar da existência e das crises que vez por outra a história nos prepara, consigamos mais uma vez levar Deus a sério e aprendamos novamente a orar, a nos abrir realmente para o Transcendente, construindo nossa existência em parceria com Deus.

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