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Sex, 15 de Maio de 2009 23:53

Celebramos há pouco Corpus Christi. Na segunda leitura da Missa da solenidade, São Paulo perguntava: “O cálice de bênção que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo?” (1Cor 10,16) Tais afirmações, em forma de perguntas e, à primeira vista tão simples, têm uma força e significação enormes.

Na Escritura Sagrada o “sangue” não é simplesmente o líquido vermelho que circula em nossas artérias, mas sobretudo a vida e, muitas vezes, a vida tirada violentamente. Dar o sangue quer dizer dar a vida, sofrida, violentada, arrancada de modo cruel. “Sangue de Cristo” significa, portanto, a vida de Jesus dada em sacrifício, tirada de modo violento; a vida que ele deu por nós. “Corpo”, por sua vez, não significa os músculos nossos, mas sim o homem todo, a pessoa toda, na sua situação de criatura limitada, frágil, mortal. Assim, “corpo de Cristo” significa a natureza humana que o Filho de Deus assumiu por nós em Maria Virgem: “O Verbo se fez carne” (Jo 1,14), quer dizer, fez-se homem, fez-se realmente humano, com um corpo humano e uma alma humana, com inteligência, vontade, consciência e liberdade humanas. Então, dar o corpo significa dar-se todo, dar toda sua vida humana: seus sonhos, cansaços, desilusões, sofrimentos... dar tudo quanto a pessoa é!

Pois bem, Paulo afirma que o pão que partimos é comunhão com o corpo do Senhor. Palavra estupenda! Comungar na eucaristia significa, então, entrar numa comunhão misteriosa e real com a pessoa mesma de Jesus; mas não uma pessoa desencarnada: é entrar em comunhão com tudo quanto ele viveu, experimentou em sua existência humana; é ter comunhão com os ideais de Jesus, com o modo de viver e agir de Jesus, com as opções, esperanças e angústias de Jesus, com o sofrimento de Jesus, com a morte e sepultura de Jesus, com a ressurreição e glorificação de Jesus! Comungar daquele pão é comungar com Jesus na totalidade da sua existência, é colocá-lo na nossa existência, é não mais viver por nós mesmos, sozinhos conosco, do nosso modo, mas viver nossa vida na vida de Jesus, que por nós morreu e ressuscitou (cf. 2Cor 5,15)! E o cálice, o Apóstolo diz que é comunhão no sangue de Cristo; quer dizer comunhão na sua entrega, na sua morte, morrida por nós! Participar do cálice do Senhor é estar dispostos a beber o cálice com ele, a ser batizado no batismo de morte no qual ele foi batizado (cf. Mc 10,38)! Portanto, participar do pão e do vinho eucarísticos é entrar em comunhão de vida e morte com o Senhor, é “com-viver” com Cristo, é conhecê-lo, conhecer o poder de sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos, “com-formando-nos” com ele na sua morte para alcançar a sua ressurreição dentre os mortos (cf. Fl 3,10).

Esta é a experiência central da vida cristã: viver nesta comunhão plena de vida e morte com o Senhor! E aqui, precisamente, cabe alguns urgentes questionamentos... Os cristãos têm consciência disso? Individualmente e como Igreja temos presente esta nossa misteriosa e estupenda vocação, que é trazer em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo (cf. Fl 4,10). Como os cristãos se comportam diante dos desafios da vida pessoal e comunitária? Estão os cristãos dispostos a viver para o Senhor ou somente para si mesmos, segundo a lógica do mundo contemporâneo? Nossa evangelização tem levado a esta comunhão existencial com o Cristo no mistério da sua vida, morte e ressurreição? Notemos que o que está em jogo aqui é a própria identidade do cristianismo! Sem esta consciência não há, de fato, uma vida cristã! Ser cristão não é primeiramente aderir a doutrinas ou a uma moral mas, antes de tudo, entrar em comunhão com Alguém, com o Senhor Jesus. Pode-se, então, compreender aquelas palavras de fogo do santo bispo de Antioquia, Inácio, que no século I, ao dirigir-se para o martírio, no qual seria devorado pelas feras, exclamava: “Coisa alguma visível ou invisível me impeça que encontre a Jesus Cristo. Maravilhoso é para mim morrer por Jesus Cristo. A ele é que procuro, ele que morreu por nós; quero aquele que ressuscitou por nossa causa. Permiti que eu seja imitador do sofrimento do meu Deus! Meu amor está crucificado! Quero o pão de Deus que é a carne de Jesus Cristo, da descendência de Davi, e como bebida quero o sangue dele, que é amor incorruptível. Sou trigo de Deus e sou moído pelos dentes das feras, para encontrar-me como pão puro de Cristo. Quando lá chegar serei homem!” Palavras estonteantes! Inácio de Antioquia compreendera o que significava celebrar a eucaristia, participar do corpo e sangue do Senhor!

Que nossas eucaristias sejam realmente a celebração desta comunhão de vida, sonho, agir, morte e ressurreição com o Cristo, cujo corpo e sangue comungamos. É disto que o mundo tanto precisa; é isto que o mundo espera, mesmo sem o saber: o nosso testemunho de comunhão com o Salvador!

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