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Dom Hélder: entre a censura e a leviandade PDF Imprimir E-mail
Editoriais do Semeador
Sex, 15 de Maio de 2009 23:59

Dom Hélder partiu; foi estar com Cristo (cf. Fl 1,23). Sua vida - para além das opiniões que alguém possa ter sobre suas atividades e idéias - foi um testemunho de amor a Cristo e de compromisso com os mais pobres por amor daquele que, “sendo rico se fez pobre” (cf. 2Cor 8,9). Foi também um modelo de coragem humana e cristã – coisa tão rara hoje: ele não se calou ante os excessos da ditadura militar, ante a tortura, as prisões em massa e os assassinatos cometidos “em nome da família, da pátria e da civilização cristã”! Ele não teve medo, como Jesus.

Por tudo isso, o “Bispo Vermelho” – como os militares o chamavam – foi perseguido, foi punido. Seu nome não podia de modo nenhum aparecer nos meios de comunicação; nenhuma referência à sua pessoa deveria ser feita: era a censura que conduzia ao ostracismo: os meios de comunicação, censurados, censuraram O Arcebispo de Olinda e Recife. Mas Dom Hélder, firme na esperança de quem tem sempre diante dos olhos o Ressuscitado, Aquele que venceu a morte e o inferno (cf. Ap 1,18), não desistiu nem teve medo. Assim, ele passou pelo mundo, tendo ajudado certamente a fazer menos dura e menos desumana a ditadura que nasceu da quartelada de 1964. Sem dúvida alguma o Brasil deve em boa parte a Dom Hélder o fato de estar hoje na plenitude da democracia, ao menos politicamente – já que ainda não somos uma democracia racial nem social. De Dom Hélder, poder-se-ia dizer o que Pedro disse de Jesus: “Ele passou fazendo o bem...” (cf. At 10,38)

Agora ele partiu para estar com Cristo. E é espantoso, decepcionante e de causar indignação ver o espaço que os meios de comunicação lhe reservaram: quase nenhum! Míseros três ou quatro minutos, para falar de um homem cuja vida esteve sempre emaranhada com a história recente do nosso povo, entranhada na vida do Brasil! Com o Airton Senna... com o Leandro.... com os gloriosos Mamonas Assassinas as coisas foram diferentes... Se fosse a Xuxa, então, que luto teríamos nos meios de comunicação! Mas, foi somente Dom Hélder: ele não sabia dançar, nem cantar o “tchan”, nem enganar os “baixinhos”... ele não sabia embalar a ilusão dos brasileiros nas corridas de Fórmula 1 nas manhãs de domingo, ele não sabia cantar músicas de gosto artístico duvidoso e com letras indecentes, pervertendo as crianças... Foi somente Dom Hélder, um bispo... apenas um cristão, entre tantos! O que teria a dizer ao mundo de hoje, “tão cabeça”, tão “entrosado” e livre, tão cheio de si e tão vazio de Deus, um bispo velhinho, já inútil, que somente cheirava à pobreza? Quem se recorda ainda dos cacetetes dos militares, das prisões, da censura? É triste, porque é menos deplorável, menos nociva a censura dos militares que a leviandade dos meios de comunicação atuais, que vivem do sensacionalismo, que invertem os valores, que fazem parecer prioritário, importante, aquilo que não o é nem deveria nunca ter a primazia de nossas preocupações e atenções.

Não se trata aqui de lamentar por Dom Hélder, de querer fazer-lhe justiça com estas palavras: a recompensa que um autêntico ministro de Cristo deve esperar é estar com Cristo, é participar da sua glória. Um verdadeiro cristão jamais deve fazer o bem esperando recompensas humanas e aplausos do mundo! Ao invés, o que está em jogo nesta situação é uma outra coisa, bem mais urgente: que sociedade estamos construindo com meios de comunicação assim: tão hipócritas, tão superficiais e levianos? Numa sociedade como a brasileira, que não lê, que não é muito de refletir em profundidade, que não conhece sua história, seu passado e, portanto, não sabe bem apontar o rumo do futuro, que papel tem estes benditos mass media? E depois nos queixamos de uma sociedade sem valores, violenta, desagregada e individualista... É tempo de o povo brasileiro e seus governantes refletirem com seriedade sobre o assunto! É tempo de exigir meios de comunicação que sirvam para educar e humanizar e não somente para enriquecer os empresários do ramo!

Quanto a Dom Hélder, que seu nome esteja no Livro da Vida do Cordeiro (cf. Apl 20,12) e que ele, como aqueles que ensinam a muitos a justiça, brilhe como as estrelas, por toda a eternidade (cf. Dn 12,3)!

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