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Editoriais do Semeador
Sáb, 16 de Maio de 2009 00:04

Foi não foi a imprensa noticia a possibilidade de renúncia do Papa João Paulo II. Vez por outra algum cardeal ou bispo de língua meio solta noticia que o Papa está prestes a renunciar: basta terminar o Ano Santo.
Que pensar destas notícias e boatos? Há alguns aspectos interessantes a serem considerados nesta história toda.

(1) Antes de mais nada é necessário deixar bem claro que aqueles que afirmam que o Papa renunciará fazem-no gratuitamente, sem nenhum fundamento sério, a não ser os mexericos que surgem naturalmente em situações como a da saúde de João Paulo II. Quem conhece um pouco o Vaticano sabe que não há possibilidade para preparar a renúncia do Papa. Não há preparativos nem pode haver: o Papa renuncia se quiser, quando quiser e como quiser... e nenhum Cardeal ou Bispo iria propor tal coisa ao Papa; tampouco iria perguntar-lhe se ele pensa em renunciar. Portanto, que não se tenha dúvida: não há nenhum plano realmente conhecido para que João Paulo II renuncie.

(2) Um outro aspecto interessante é o seguinte: a Igreja não é uma empresa multinacional nem um Estado, um País... É a comunidade dos discípulos de Cristo e está totalmente presente em cada Igreja particular (= cada diocese). Assim, ainda com um Papa idoso e debilitado, a Igreja caminha normalmente. O Papa não é um governante secular que precisa todo o tempo viajar, decretar, executar atos de governo. A principal função do Papa é ser testemunha da fé; é sobre a confissão de Pedro – “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!” – que se fundamenta seu ministério: com sua presença, sua vida, seu ministério de Bispo de Roma ele é testemunha. Assim, ainda que não pudesse viajar, escrever encíclicas, conceder tantas audiências, fazer discursos, ainda assim, com sua vida e sua presença paterna o Papa estaria desenvolvendo plenamente seu ministério de Sucessor de Pedro. Nunca esqueçamos que um Papa não tem um programa de governo e nem mesmo um governo: ele é Pastor. Trata-se de um ministério carismático, como o de um pai de família.

(3) É necessário também ter cuidado para não superestimar o papel do Papa na Igreja. Esta é maior que o Papa; recebe sua vida e seu dinamismo não do Papa, mas do Espírito do Ressuscitado, presente na Palavra e nos Sacramentos. É abusivo pensar que, porque o Papa é ancião a Igreja entre em compasso de espera. É necessário reafirmar: a Igreja não é uma empresa!

(4) Seria conveniente que o Papa renunciasse aos 80 anos? Os Bispos não renunciam aos 75? Por que o Papa não poderia também renunciar? Nos dois mil anos de história da Igreja pelo menos três já renunciaram: o Papa Ponciano, em 235, o Papa Silvério, em 537 e o Papa Celestino V, em 1294. Portanto, não há novidade na possível renúncia de um Papa. A questão é outra: seria conveniente que todo Papa renunciasse aos 80 anos? Afinal, o mundo atual tornou-se tão dinâmico, tão veloz, tão complicado, que um Papa muito idoso poderia não corresponder ao que o mundo espera dele... Pode-se fazer essa pergunta, desde que nunca se esqueça que nenhuma lei poderá jamais obrigar um Papa a renunciar, já que, na Igreja, o Papa é o supremo legislador. No entanto, pode-se pensar naquilo que o filósofo francês, Jean Guitton disse a Paulo VI: “Um pai não renuncia...” Ou seja, como já dissemos, o papado, mais que uma função é um testemunho.

(5) Seria também para se perguntar se num mundo tomado pelo utilitarismo, pelo pragmatismo e pelo gosto do descartável, não é um testemunho profético de respeito pela pessoa humana, pelo valor do ancião, pela venerabilidade dos cabelos brancos que os Papas continuem a exercer seu ministério até quando o Senhor os chamar. O mundo que tende a considerar os idosos como ultrapassados e inúteis, precisa de um testemunho assim. Neste sentido basta recordar a belíssima carta que o João Paulo II dirigiu, neste ano, aos anciãos.

Terminemos nossas considerações com um último pensamento: o ministério petrino é um dom de Cristo à sua Igreja que, por graça de Deus o conserva e haverá de conservar sempre com alegria, gratidão e fidelidade. No entanto, o Papa não é toda a Igreja e, por isso, como católicos, devemos rejeitar o sensacionalismo e até uma certa leviandade no modo como os meios de comunicação tratam desta questão de uma possível renúncia de João Paulo II. Se um dia o Santo Padre achar que deve renunciar, que o faça e contará sempre com nosso carinho e gratidão por todo o bem que tem feito à Igreja. Por outro lado, se quiser continuar no seu ministério até que o Senhor o chame para a Pátria celeste, contará sempre com nossa fidelidade, nosso carinho de filhos e nossa oração para que tenha saúde de alma e de corpo!

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