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Sáb, 16 de Maio de 2009 00:13

Thomas Hobbes, filósofo inglês do século XVI, pensava que o Estado deveria ser todo-poderoso, um verdadeiro deus: era o único modo de salvar os indivíduos do caos, da barbárie, que seus interesses e desejos contraditórios e concorrentes provocariam. Para ele, o Estado nasce quando todos os homens de uma determinada sociedade conferem “todo o próprio poder e a própria força a um homem ou a uma assembléia de homens, que possa reduzir todas as suas vontades a uma só vontade; que é o mesmo que deputar um homem ou uma assembléia de homens a representar sua pessoa, e a reconhecer-se, cada qual por sua parte, autor de qualquer coisa que aquele que o representa possa fazer naquelas coisas que dizem respeito à paz e à salvação comum”. Daí o Estado deve ter – ainda segundo Hobbes – todos os poderes: “tem o direito de infligir as penas como lhe aprouver... tem o direito de constranger todos a fazer qualquer coisa que ele queira; e é este o maior poder que jamais se possa conceber”. Pois bem, como dizia, o Estado é como um deus! Não é a toa que Hobbes intitulou seu livro sobre o papel do Estado de “Leviatã”, aquele monstro que aparece nos capítulos 40 e 41 do livro de Jó. Um Estado poderoso, tentacular, que alcança tudo e todos, que pode tudo, que se mete tranqüilamente na vida das pessoas e as dirige, obriga, impõe... tal idéia já levou tantos à morte: pense-se na fase do Terror na Revolução francesa, no fascismo, no nazismo, no stalinismo... e todas as formas de absolutismos da História.

Mas por que esta alusão a Hobbes? Estamos no meio de uma crise energética, entre outras. O Governo federal tentou explicá-la apelando para a falta de chuvas... mas não conseguiu muita coisa, não convenceu ninguém: se, por um lado, é verdade que faltou chuva, não é menos verdade que faltou mais ainda planejamento, competência e responsabilidade do Presidente da República e de sua equipe de governo para prever e evitar esse atoleiro em que nos metemos! Mas, o que mais assusta é o modo como o mesmo Governo quer enfrentar a crise: parece que deseja punir a sociedade, que dela não tem culpa nenhuma! Vimos, surpresos, uma enxurrada de medidas: temos que reduzir o consumo em 20%, estamos sujeitos à sobretaxas e cortes! Somos culpados de uma culpa que não temos! Chegou-se mesmo a ensaiar suspender o código dos direitos do consumidor! Aqui, o Governo e o Estado aparecem como senhores do bem e do mal, da vida e da morte, do certo e do errado; senhores absolutos, que pensam que são deus, que podem simplesmente determinar a vida alheia, sem discutir, sem ouvir, sem pedir licença! Aliás, em toda a nossa história, o Estado brasileiro tem tido essa tentação: onera e oprime o indivíduo, chupa-lhe o sangue com cargas tributárias insuportáveis, nega-lhe benefícios mínimos como saúde digna, educação decente, moradia razoável, salário justo, segurança pública, saneamento básico... Um Estado que quer tudo e não dá nada além de restrições, obrigações, cargas e leis absurdas. Vimos isso agora, com a crise energética! Não que nada deva ser feito! Cuide o Governo de conscientizar a população para a necessidade de economizar e racionalizar... Mas sobretaxar... isso é roubo, é arbítrio, é complexo de onipotência! Por isso Hobbes foi recordado no início deste texto editorial.

Infelizmente – e aqui permita o leitor um salto de raciocínio - o que constatamos sempre mais, à medida que corre o tempo da história humana, é que o homem, quando se toma a si mesmo como referência única, quando não se abre para o Transcendente, para Deus, tende a erigir-se em medida de todas as coisas e termina sendo lobo para si mesmo e para os outros, tiranizando-se a si e aos outros. Tantos tiranos temos, tantos deuses sanguessugas: o Estado, os meios de comunicação, o mercado globalizado, a cultura do prazer... E no entanto, nenhum Estado, nenhum poder – nem o religioso! - pode se sobrepor à consciência do indivíduo e à sua dignidade fundamental! Mas também nenhuma dignidade humana será respeitada por muito tempo sem o respeito por Deus e pela sua presença no coração humano! O homem sem Deus se devora a si mesmo! A propósito, já que começamos com um filósofo, Hobbes, é conveniente terminar com outro, do século XVII, o francês Blaise Pascal, que advertia: a fé cristã ensina “que há um Deus do qual os homens são capazes e que há uma corrupção da natureza que os torna indignos dele. Interessa aos homens conhecer igualmente tanto um como o outro ponto, pois é igualmente danoso para os homens conhecer Deus sem conhecer sua própria miséria e conhecer sua própria miséria sem conhecer o Deus que pode curá-los. Um desses conhecimentos, isolado, gera a soberba dos filósofos, que conheceram Deus mas não sua própria miséria, ou o desespero dos ateus, que conhecem sua própria miséria sem conhecer o Redentor”. Pois bem, segundo a linha de pensamento de Pascal, a fé em Deus é a melhor garantia de um verdadeiro respeito pelo homem e sua dignidade. Para o nosso filósofo francês, somente abrindo-se para Deus em Jesus Cristo o homem pode se conhecer, conhecer o sentido da vida e da morte; fora disso, “nós não conhecemos nada e só vemos obscuridade e confusão”.

Que pelo menos isso a crise energética nos ensine: ao Governo - e ao Estado que ele gerencia - que ele não é Deus, não é dono dos indivíduos e não pode agir de modo despótico; e a nós - que talvez enfrentemos a escuridão dos apagões -, que a única luz que nos livra do apagão da consciência e da liberdade, tanto em nível pessoal quanto social, é uma vida pessoal e comunitária aberta para o Cristo Jesus... só ele é a luz que não se apaga e nos livra dos monstros de ontem e de hoje... dos leviatãs da vida e da história...

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