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Os Salmos Graduais - V PDF Imprimir E-mail
Estudos Bíblicos
Sex, 08 de Maio de 2009 21:11

Côn. Henrique Soares da Costa 

Salmo 122(123) 

            Este salmo foi composto no período pós-exílico (após o século VI aC), quando os deportados voltaram pobres e encontraram sua terra invadida por populações pagãs; os israelitas sofriam humilhações de toda sorte, sobretudo a dor da saudade do antigo esplendor do reino de Davi e-Salomão. 

A ti eu levanto meus olhos,
a ti, que habitas no céu;
sim, como os olhos dos escravos
para a mão do seu senhor.
 

Mais uma vez Israel, pela boca e o coração do peregrino, recorda sua história: do meio de suas misérias, incapacidades, tragédias e impotências, o povo de Deus peregrino ergue o olhar para o seu Deus, para aquele que habita no céu e é Senhor. Sim, há um Deus no céu (cf. Dn 2,28). 

Como os olhos da escrava
para a mão da sua senhora,
assim estão nossos olhos
em IHWH Deus,
até que se compadeça de nós.
 

O sentimento expresso por estas palavras são de dependência, de consciência da pobreza e do desamparo diante de Deus, mas também de súplica, de atenção ao Senhor, de paciência cheia de esperança: “até que se compadeça de nós!” Feliz de quem tem consciência de sua pobreza, de sua dependência, de sua miserabilidade e da fugacidade da existência, diante de Deus e, com paciência e confiança, se abandona ao Senhor Deus de Israel! 

            O fiel peregrino fita as mãos do seu Senhor: as mãos que plasmaram Israel, que arrancaram-no do Egito, que velam sobre o seu povo: 

Assim diz IHWH,
o Santo de Israel, seu criador:
Pedem-me sinais a respeito dos meus filhos,
querem dar me ordens a respeito da obra de minhas mãos! (Is 45,11). 

IHWH te tirou do Egito com mão forte! (Ex 13,9).

Eis que te gravei nas palmas de minha mão,
os teus muros estão continuamente diante de mim (Is 49,16). 

Eu, IHWH, te chamei para o serviço da justiça,
tomei-te pela mão e te modelei! (Is 42,6).
 

Sim, Israel é obra das mãos de IHWH; sê-lo-á sempre: 

Como a argila na mão do oleiro, assim sereis vós na minha mão, ó casa de Israel! (Jr 18,6). 

Estas mãos são de amor e misericórdia. Por isso Israel as fita numa atitude de obediência: para ir aonde o Senhor Deus indicar. Mas estas mãos têm também um sentido ainda mais profundo: segundo Santo Irineu, as duas mãos de Deus são Filho e o Espírito Santo. Estas duas mãos são as que agem na história da salvação - na nossa vida, na vida da Igreja e na vida do mundo: o Filho nos plasma exteriormente com a força da sua palavra e nos educa pelos seus mandamentos; o Espírito é aquele que age interiormente, consolando-nos, impulsionando-nos, sustentando-nos. Podemos, portanto, dizer com o salmista: 

Sim! Tu formaste os meus rins,
tu me teceste no seio materno.
Eu celebro por tanto prodígio,
e me maravilho com as tuas maravilhas! (Sl 138,13s).
 

Israel deve fitar as mãos de IHWH, a elas ser dócil como um servo, como uma serva, aquele que presta um serviço (éVeD). Este serviço tem três sentidos na Escritura:
        1) éVeD indica as relações de dependência do homem para com Deus, com a natureza e com os outros. O homem é éVeD de IHWH porque dele depende, por ele foi criado, para ele existe;
        2) éVeD significa também “cultivar”: o Senhor colocou o homem no Éden para que o cultivasse; o homem serve o Senhor participando da obra de sua criação, sendo seu mordomo, cuidando da criação para a glória do Senhor;
        3) aVoDá (serviço de culto): o homem é chamado a fazer de toda a sua existência um culto ao Senhor. Para realizar sua vocação profunda, ele deve fazer do seu trabalho um ato de louvor e adoração àquele que habita nos céus. Assim, cultiva a terra, edifica os irmãos e louva o Senhor. Contudo, quando o homem se esquece que é servo, quando já não consegue mais compreender a existência como um dom que Deus lhe faz, subverte tudo, porque já não se volta para o Senhor, cai na ilusão de que vive somente de pão, que vive autonomamente, que não precisa de Deus e, sem ele, pode ser feliz, subvertendo o sentido do trabalho, que agora tiraniza a si e aos outros e, finalmente, seu serviço já não é de culto ao Senhor, mas de escravidão aos ídolos. Era esta a situação dos israelitas no Egito. Mas IHWH grita aos ouvidos de faraó:
 

Faze partir o meu filho, para que me sirva! Deixa o meu povo partir, para que me sirva no deserto! (Ex 4,23; 7,1626; 8,16; 9,1.13;10,3). 

Israel, porque se reconhece dependente daquele que o criou e é seu Senhor, pode clamar de coração aberto e humilde: 

Piedade, IHWH! Tem piedade!
do sarcasmo dos satisfeitos!
O desprezo é para os soberbos! 

Trata-se aqui dos soberbos senhores deste mundo, dos falsos senhores, que querem reduzir o povo eleito e o fiel ao estado de servidão, prestando um aVoDá (serviço) que escraviza, aliena e destrói, em última análise, que mata: 

Ó IHWH, nosso Deus, ao lado de ti temos tido outros senhores, mas, apegados a ti, só ao teu nome invocamos. Os teus mortos tomarão a viver, os teus cadáveres ressurgirão. Despertai e cantai, vós os que habitais o pó! (Is 26,13.19). 

São Paulo nos previne a respeito: 

Se bem que existam aqueles que são chamados deuses e muitos senhores - para nós, contudo, existe um só Deus, o Pai, de quem tudo procede e para quem nós somos, e um só Senhor, Jesus Cristo, por quem tudo existe e por quem nós somos (1 Cor 8,5s). 

Os senhores do mundo são mentira, isto é, ilusão, miragem, vazio... como os ídolos! Somente servindo ao Senhor, o homem é livre de verdade. O serviço ao Senhor não humilha, mas eleva o homem à sua mais alta dignidade! 

            Terminemos com Agostinho: 

Somos servos e somos servas porque somos Igreja. Mas a Igreja tomou-se esposa, resgatada pelo sangue do Esposo e os servos tomaram-se amigos: “não vos chamo servos, mas amigos”! 

E com uma pequena oração do século I: 

Como os olhos do Filho voltados para o Pai, os meus olhos, ó Senhor, estão continuamente voltados para ti! (Odes de Salomão).

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