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Os Salmos Graduais - III PDF Imprimir E-mail
Estudos Bíblicos
Sex, 08 de Maio de 2009 21:13

Côn. Henrique Soares da Costa 

Salmo 120(121) 

A primeira coisa a observar neste salmo é que seu título é “Cântico para as subidas” e não “cântico das subidas”, como os outros. Que significa tal detalhe? A subida para Jerusalém é a subida da nossa vida e ninguém pode empreendê-la por si mesmo, fechado em si... É preciso erguer os olhos: 

Ergo os olhos aos montes:
de onde virá meu socorro?
 

Este salmo exprime uma confiança inefável: tendo feito a experiência de habitar em Mosoc e Cedar, o peregrino agora ergue os olhos para os montes, como que antevendo o Monte Sião, habitação bendita de IHWH ! Esta deve ser a atitude de quem deseja subir, peregrinando até o Senhor. Se no salmo anterior, o fiel tomou consciência de viver no exílio, longe do Senhor e, agora, deseja subir, sua atitude para a subida toda somente pode ser levantar os olhos...

            Erguer os olhos é reconhecer-se pobre, necessitado, aberto para o Eterno. Santo Agostinho afirma: “A salvação não nos vem das criaturas, mas daquele que é a fonte. Quando ergo os olhos aos montes, de onde espero o meu socorro, não são os montes que me enviam esse socorro, mas o Senhor, criador do céu e da terra”. Erguer os olhos é decidir deixar as mentiras do mundo para atender o chamamento do Senhor, aventurando-se na busca da liberdade. Assim foi com nosso pai Abraão: “IHWH disse a Abrão: ‘Vai por ti, de tua terra, de teu nascimento, da casa de teu pai, rumo à tema que te farei ver’. Abrão partiu, como Ihe disse IHWH (Gn 12,1.4). E assim será, doravante, a vida de nosso Pai na fé: um eterno levantar os olhos para partir de si próprio, entrar no pensamento de Deus e assim, alcançar as coisas impossíveis: “‘Meu Senhor IHWH que me darás? Continuo sem filho..’. Ele o fez ir até fora. Diz: ‘Ergue os olhos para o céu e conta as estrelas, se as pode contar... Assim será a tua posteridade!’ Abrão creu em IHWH” .(Gn 15,2-6). O original hebraico utiliza aqui uma expressão rara e sempre usada no sentido de olhar de cima para baixo, como alguém que está situado num ponto de observação alto. Por exemplo: “Olha desde o céu e vê, desde a tua morada santa e gloriosa. Onde estão o teu zelo e o teu valor?” (Is 63,15). Abraão sai de sua tenda conduzido pelo Senhor, que não o larga antes de tê-lo feito ver as coisas do ponto de vista divino e não mais segundo o seu próprio ponto de vista! Afinal, “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são s meus caminhos, oráculo de IHWH. Quanto os céus estão acima da terra, tanto os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos e os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos” (Is 55,8s). Por isso mesmo o Senhor Jesus mostrava aos seus discípulos “que era necessário que fosse a Jerusalém e sofresse muito por parte dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos escribas, e que fosse morto e ressurgisse ao terceiro dia. Pedro, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo, dizendo: ‘Deus não o permita, Senhor! Isso jamais te acontecerá!’ Ele, porém, voltando-se para Pedro, disse: ‘Afasta-te de mim, satanás! Tu me serves de pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens!’” (Mt 16,21-23). Para subir a Jerusalém, precisamos seguir o Senhor Jesus, deixando tudo que não é Deus, entrar num pensamento que não é o nosso pensamento e nos entregar com toda confiança àquele a quem o vento e o mar obedecem, porque para ele nada e impossível.

Muitas vezes a Escritura nos mostra como o Senhor Jesus ergueu os olhos nos momentos cruciais de sua vida: “Depois, olhou para o céu, suspirou e disse: ‘efatá’, que quer dizer ‘abre-te!’. Imediatamente, os ouvidos do homem se abriram, sua língua se soltou, e ele começou a falar sem dificuldade” (Mc 7,34). “Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Depois pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e os deu aos discípulos; os discípulos distribuíram às multidões. Todos comeram, ficaram satisfeitos...” (Mt 14,19s). “Então tiraram a pedra. Jesus levantou os olhos para o alto e disse: ‘Pai, eu te dou graças porque me ouviste. Eu sei que sempre me ouves. Mas falo por causa daqueles que me rodeiam, para que creiam que tu me enviaste’. Dizendo isso, gritou com voz forte: ‘Lázaro, vem para fora!’ O morto saiu” (Jo 11,42-44). “Assim falou Jesus, e, erguendo os olhos ao céu, disse: ‘Pai, chegou a hora: glorifica teu Filho, para que teu Filho te glorifique!’” (Jo 17,1). É por isso que o peregrino, ao iniciar sua viagem, levanta os olhos para Aquele que habita no céus, com uma certeza que alentará seu caminho: 

Ergo os olhos para os montes:
de onde virá meu socorro?
O meu socorro vem de IHWH
que fez o céu e a terra.
 

O salmo 22(23) completa maravilhosamente esta idéia: “Ainda que eu caminhe por um vale tenebroso, nenhum mal eu temerei, pois estás junto a mim!” (SI 22[23],4). Aquele que habita em Sião, não é alheio ao nosso destino: de lá ele, que fez o céu e a terra, está junto ao seu fiel, que a ele se abandona[1]. Esta é a experiência constante do povo de Israel: “Não temas, porque o teu esposo será o teu criador: IHWH dos exércitos é o seu nome. O Santo de Israel é o teu redentor!” (Is 54,4s). “Eu, eu mesmo sou aquele que te consola; quem te julgas tu para teres medo do homem, que há de morrer, do filho do homem, cujo destino é o da erva? E te esqueces de IHWH aquele que te criou, aquele que estendeu os céus e fundou a terra? Eu sou IHWH teu Deus, que agito o mar e as suas ondas se tomam tumultuosas; IHWH dos Exércitos é o meu nome!” (Is 51,12s.15). “Mas agora, diz IHWH aquele que te criou, ó Jacó, aquele que te modelou, ó Israel: não temas, porque eu te resgatei, chamei-te pelo teu nome: tu és meu! Quando passares pela água, estarei contigo quando passares rios, eles não te submergirão. Quando andares pelo fogo, não te queimarás, a chama não te atingirá. Com efeito, eu sou IHWH  o teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador!” (Is 43,1-3). Agostinho comenta, a propósito: “Quando as provações da vida te acabrunham, tu não possuis o que buscas, mas está perto de ti Aquele a quem buscas. Busca, pois, Aquele que nunca te abandona. Se os seus dons te são arrebatados, acaso perdes Aquele que os dá?” Assim consolado, o salmista prossegue, intuindo:

Não te deixará tropeçar,
o teu guarda jamais dormirá!
Sim, não dorme nem cochila
o guarda de Israel!
 

Aquele que traça a rota das nuvens, do ar, do vento, encontrará também a rota pela qual nossos pés poderão caminhar com segurança. No diálogo com seu coração, o orante peregrino pensa na instabilidade da vida humana, tantas vezes a um passo do sheol, e coloca-se sob a guarda do Pastor de Israel, aquele que conhece suas ovelhas e as chama pelo nome (cf. Jo 10,3.14s). Como ele foi e é fiel ao seu povo, assim também é fiel a cada um daqueles que nele espera: ele é como o pastor que durante o dia guia o rebanho e, no meio a noite, vigia contra os perigos. 

IHWH é teu guarda, tua sombra,
IHWH está à tua direita.
De dia o sol não te ferirá

nem a lua de noite.
 

IHWH te guarda de todo o mal,
ele guarda a tua vida:
IHWH guarda a tua partida e chegada,
desde agora e para sempre.
 

Note-se a insistência na palavra “guarda”. IHWH guarda o seu fiel como havia feito no Êxodo, no deserto, guiando-o como uma sombra pela nuvem. A sombra, portanto, é símbolo da proteção divina no caminho para a Terra Prometida (cf. Sb 19,7; Ex 13,21; SI 91,1). Aparece claro, portanto, que a subida a Jerusalém é como que o caminho do Êxodo refeito: Jerusalém é a Terra Prometida para a qual IHWH faz subir o seu povo (cf. Ex 3,8). Nesta subida, o peregrino sabe que pode apoiar-se naquele que está à sua direita - a direita é a posição do protetor e do advogado quando o réu ia a julgamento. IHWH protege do sol e da lua, ou seja, do perigo da insolação e dos raios da lua, considerados perigosos (pense-se, por exemplo, nos lunáticos). Os raios do sol e da lua simbolizam aqui os males da existência, revelando, assim, que IHWH protege a totalidade da vida do seu amigo... até aquele momento em que “não terão fome nem sede, a canícula e o sol não os molestarão, porque aquele que se compadece deles os guiará...” (Is 49,10).

Guardado pela sombra protetora de IHWH, como na época do êxodo, o fiel sabe que Deus o guardará na partida e na chegada. Aquele que caminha com IHWH sabe que sua vida é uma marcha contínua para Jerusalém, marcha esta sempre sob o olhar benevolente de IHWH... até a Cidade Santa, lugar da plena comunhão com o Senhor: “Ele nos consola como viajantes, se compreendemos o sentido de nossa caminhada. Toda a nossa vida e todos os bens desta vida representam para ti a hospedaria do viajante, e não a casa do proprietário. Se na caminhada tu paras, ainda tens trilha a percorrer. Tu te deténs não para te instalares, mas para voltar a partir, reconfortado” (Sto. Agostinho).

[1] É neste sentido que devemos ler também Gn 22,4: “No terceiro dia, Abraão, levantando os olhos, viu de longe o Iugar...” e Gn 22,13: “Abraão ergueu os olhos, e viu um cordeiro, preso pelos chifres num arbusto...”

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Última atualização em Sex, 08 de Maio de 2009 21:29
 

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