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Os Salmos Graduais - II PDF Imprimir E-mail
Estudos Bíblicos
Sex, 08 de Maio de 2009 21:14

Côn. Henrique Soares da Costa 

Salmo 119 (120) 

            Este salmo é o ponto de partida de nossa subida para Jerusalém: um salmo todo cheio da ânsia de libertação. A consciência da própria miséria, da situação de escravidão é a condição indispensável para sonhar com Jerusalém (= “visão de paz”). Quebrado o jugo da escravidão poder-se-á celebrar a Páscoa em Jerusalém. 

Em minha angústia eu grito a IHWH,
e ele me responde.
 

O Salmo começa com a expressão “para IHWH“ como que indicando o sentido, a direção, a tensão da subida. No hebraico, o tempo verbal do grito é o passado e, no entanto, a descrição da situação de amargura é ainda no presente. Tal jogo de tempos verbais revela a esperança numa intervenção divina: “Eu gritei a IHWH ele me respondeu!”

Mas, que angústia é esta, da qual o salmista grita? TSaRá (angústia) é a palavra hebraica que evoca a opressão de quem se encontra num lugar fechado por uma pedra pesada (TSuR). Trata-se, portanto, de uma situação de túmulo, de morte: daí não se pode sair porque não se é forte o bastante para se tirar a pedra. É a mesma raiz hebraica de miTSRaím (sepulcro), palavra usada pelos judeus para falar da sua situação no Egito. O peregrino que deseja subir para Jerusalém é, portanto, alguém que se encontra numa situação de opressão, de peso, de escravidão e, sozinho, não pode libertar-se!

Este peregrino angustiado é o homem que cai em si, como o filho pródigo; é aquele que toma consciência da precariedade da existência humana, dos tantos e tantos enganos da existência, das mil e uma coisas que o mundo oferece e que ameaça o pessoa de cair numa existência vã, sem sentido, na mentira ilusória: 

Livra-me, IHWH dos lábios mentirosos,
da língua traidora!
 

“Mentira” é o modo como a Sagrada Escritura refere-se aos ídolos: eles são engano e mentira! A palavra mentirosa é aquela idolátrica, que é o contrário da palavra de IHWH que é a verdade (cf. SI 118[119]). O orante sente-se, portanto, cercado pela incredulidade, pelos ímpios pagãos que, com suas línguas enganadoras, repetem todo o tempo: “Onde está o teu Deus?” (SI 42,4). A idolatria é essencialmente mentirosa: “A sua língua é uma flecha mortífera, falsa é a palavra de sua boca. Ele diz shalom ao seu próximo, mas dentro de si Ihe prepara uma cilada” (Jr 9,7).
            O salmista, então, impreca em nome de IHWH, que é Verdadeiro:

 

Que te será dado ou acrescentado,
ó língua traidora?
Flechas de guerreiro, afiadas
com brasas de giesta.
 

A mentira idolátrica, a mentira humana traz em si seu próprio castigo: a palavra mentirosa, que sai da boca como uma flecha maligna, volta-se, como uma flecha com fogo na ponta, contra os que a proferiram! Quanto ao justo, que sonha com Jeru-shalaím, mesmo em meio à escuridão, às flechas do mal, às palavras mentirosas, IHWH o protege. No entanto, a dor, a situação de miséria e angústia são concretas: 

Ai de mim, peregrino em Mosoc,
acampado nas tendas de Cedar!
 

Mosoc e Cedar são povos estrangeiros, bárbaros, violentos e idólatras! O salmista vive entre estrangeiros, longe da Terra Santa de Israel e, portanto longe de IHWH. Para um judeu, estar longe da Palestina é estar distante da face de Deus. A queixa de Davi contra Saul reflete bem esta idéia: “Rogo-te, senhor meu rei, que ouças as palavras do teu servo: se é IHWH que te impele contra mim, a oferenda do altar o apaziguará; se os homens, sejam malditos perante IHWH porque hoje me excluíram da herança de IHWH como se dissessem: ‘Vai, serve a outros deuses’” Não se derrame agora o meu sangue na terra, longe da presença de IHWH !” (1Sm 26,18-20). É a mesma idéia, portanto, do apóstolo Paulo: “Enquanto habitamos neste corpo, estamos fora da nossa mansão, longe do Senhor, pois caminhamos pela fé e não pela visão[1]... (2Cor 5,6). 

Também São Pedro, na sua primeira epístola, considera os cristãos como estrangeiros da Dispersão: “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros da Dispersão...” (1,1). Por isso mesmo, ele considera este tempo na terra como exílio: “... portai-vos com temor durante o tempo do vosso exílio (1,17). Mosoc, Cedar, são símbolos do exílio no qual o homem caiu por viver na mentira:Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal!” (Gn 3,4s). Ou a mesma mentira, dita de outro modo, que o Senhor Jesus repele: “Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4). A mentira aqui é que o homem vive somente de pão, ou seja, daquilo que ele provê e cria. A mentira é a ilusão de que o homem se basta a si mesmo! A conseqüência de tal queda é trágica: “IHWH  Deus chamou o homem: ‘Onde estás?’, disse ele” (Gn 3,9). Não é que IHWH  pergunte para saber onde o homem está. Ele deseja, sim, é que esse homem tome consciência da sua situação. E a resposta do homem é patética: 

Ai de mim, estrangeiro em Mosoc,
acampado nas tendas de Cedar!
 

E prossegue:

Já há muito que moro
com os que odeiam o shalom.
Eu sou pelo shalom, mas quando falo,
eles são pela guerra.
 

“Ai de mim!” diz o fiel javista: eu habito entre os que não têm o shalom, não o conhecem e não o amam! E conclui: “Eu sou shalom, mas eles são guerra”. Esta expressão “eu sou shalom” quer dizer que o povo de Deus é paz (mais como uma vocação e tensão que como algo já realizado) no sentido profundo, que significa a integralidade do ser humano quando este realiza sua vocação de imagem e semelhança de Deus. O homem-paz é aquele que vive em comunhão com Deus, consigo mesmo, com seus semelhantes, com toda a natureza, e não pode conviver com a opressão, a mentira e a morte.

Ora, um tal shalom, uma tal vocação não pode ser atingido sem o socorro de IHWH. Por isso mesmo o Senhor Jesus vem para nos dizer: “Deixo-vos o shalom, o meu shalom vos dou; não vo-lo dou como o mundo dá. Não se perturbe nem se intimide vosso coração!”(Jo 14,27). O shalom-comunhão é a salvação. Por isso mesmo ele se “chamará com o nome de leshuah, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21). Pois bem, é com o olhar fixo no Senhor Jesus, conscientes da nossa situação de exílio e precavidos da mentira do mundo (o homem é deus; o homem pode viver somente de pão), que iniciamos a peregrinação para Jeru-shalaím. Iniciemos nossa subida sagrada com um apelo, tirado do hinário judaico: “Misericórdia, ó Deus, para todos os que estão adolorados, que choram e estão exilados! Para aqueles que são perseguidos, oprimidos, sem esperança! Para aqueles que se encontram dispersos nos ângulos remotos deste mundo. Para quem é prisioneiro e colocado debaixo do jugo dos tiranos. Tem piedade deles assim como está escrito na tua santa Torah, onde é exaltada a tua misericórdia!” 

- Sugiro que você reze o salmo 12.

[1] Como não pensar aqui em Jeru-shalaím, visão das pazes?...

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Última atualização em Sex, 08 de Maio de 2009 21:32
 

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