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Os Salmos Graduais - I PDF Imprimir E-mail
Estudos Bíblicos
Sex, 08 de Maio de 2009 21:18

Os Salmos Graduais - I

Côn. Henrique Soares da Costa 

Caro amigo(a) Internauta, pensei num presente de Quaresma para você. Vou comentar os Salmos Graduais (Sl 119[120] até Sl 133[134]). Eram os salmos que os judeus cantavam quando subiam para Jerusalém em peregrinações. Jesus os rezou quando subiu a Jerusalém para sua Paixão. Vamos subir com ele, nesta santa Quaresma! 

INTRODUÇÃO

            “Estes salmos cantam a alegria da Igreja a caminho na terra rumo à Jerusalém celeste... Esta ascensão não se faz com os nossos pés, mas com os desejos do nosso coração...” (Santo Agostinho). Os salmos 119(120)-133(134) são chamados “Cânticos das Subidas” ou “Salmos Graduais” ou “Cânticos das Peregrinações”. Trata-se de um livreto que servia de guia aos peregrinos nas peregrinações a Jerusalém pela Páscoa, Pentecostes e Festa das Tendas (cf. Ex 23,17; Dt 16,16; 2Sm 6,2; 1 Rs 12,28.32s; 2Rs 23,1s; Is 30,29, etc). Todo judeu devia subir a Jerusalém por ocasião dessas três festas. Os mais pobres subiam apenas uma vez por ano e, em caso de grande pobreza, uma vez na vida. Porém toda a religiosidade do judeu piedoso tendia para a Cidade Santa. “Subir para Jerusalém” era o cume da experiência religiosa do povo judeu: era subir ao Templo de Deus, à Cidade Santa, era entrar em comunhão com o Senhor Deus! Subir para Jerusalém simbolizava a própria experiência de Deus que o povo de Israel fizera nos caminhos da história. E ninguém pode chegar a Jerusalém sem subir!

            Esta subida é uma saída da condição de dependência e escravidão na qual o homem se encontra para a liberdade dos filhos de Deus para bendizer o Senhor no seu Templo. Para isto Deus desceu: para fazer o seu povo subir: “Por isso desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e vasta, terra que mana leite e mel” (Ex 3,8). Ora, tal subida exige uma purificação radical da fé: não se trata de uma viagem turística, mas de uma peregrinação! No decorrer dessa caminhada os peregrinos, nossos antepassados, conservaram religiosamente a memória das provações e fracassos, das alegrias e vitórias, dos grandes e pequenos acontecimentos da vida de Israel a fim de que também nós pudéssemos viver uma fé verdadeira e chegar à Jerusalém celeste.

            Cada salmo gradual se apresenta como uma etapa na subida, um degrau na escada que leva a Jerusalém. Como no caso de Jacó, que do fundo da sua miséria, contemplou a escada que tocava o céu (cf. Gn 28,10-19), cada passo da caminhada para Jerusalém fazia o povo de Deus reviver, de geração em geração, o Jacó desamparado, cheio de medo, sem lugar onde repousar a cabeça. Subindo, Israel aprende, com sua história, a passar da desconfiança de Jacó... “Se Deus estiver comigo e me guardar no caminho por onde eu for, se me der pão para comer e roupas para me vestir, se eu voltar são e salvo para a casa de meu pai, então IaHWeH será meu Deus” (Gn 28,20s). ... para a confiança reconhecida, que se transforma numa proclamação de louvor e humilde gratidão: “Deus foi o meu pastor desde que eu existo até hoje (Gn 48,15). Eu sou indigno de todos os favores e de toda a bondade que tiveste para com teu servo. Eu não tinha senão meu cajado para atravessar este Jordão, e agora posso formar dois bandos (Gn 32,11 ).

            A subida é para Jeru-shalaím, a Santa! Etimologicamente Jerusalém significa “visão das pazes”, da paz plena, transbordante – por isso no plural! É a cidade do Shalom de Deus concedido ao homem como graça e bênção. Esta é sua vocação contínua, ela é o contrário de Babel (= confusão)! Politicamente, ela é a Cidade de Davi, estando acima de todas as tribos. Representa, assim, a unidade do Povo de Deus. Religiosamente, é o centro espiritual de Israel, lá IaHWeH habita, lá está o Templo (cf. SI 78,68s;132,13-18).

O Salmo 136(137) nos dá magnificamente uma idéia do que significa a Cidade Santa para o povo do Antigo Testamento: 

À beira dos canais de Babilônia

nos sentamos, e choramos

com saudades de Sião;

nos salgueiros que ali estavam

penduramos nossas harpas. 

Lá, os que nos exilaram

pediam canções,

nossos raptores queriam alegria:

“Cantai-nos um canto de Sião!”
 

Como poderíamos cantar

um canto de IaHWeH

numa terra estrangeira?

Se eu me esquecer de ti, Jerusalém,

que me seque a mão direita!

 

Que me cole a língua ao paladar,

caso eu não me lembre de ti,

caso eu não eleve Jerusalém

ao topo da minha alegria! 

Para nós, cristãos, Jerusalém é a figura da Jerusalém celeste, a do Alto, que é livre e é nossa mãe (cf. GI 4,24-31); figura da humanidade consumada, da criação plenamente transfigurada pelo Espírito do Senhor ressuscitado; é a visão do Shalom pleno, daquele que só o Ressuscitado nos pode dar (cf. Jo 20,19). 

Jerusalém gloriosa,

bendita visão de paz,

de pedras vivas erguidas,

por entre os astros brilhais

qual noiva, de anjos cingida,

que seu caminho perfaz.
 

Já vem do céu preparada

para o festim nupcial,

e ao Senhor será dada

no esplendor virginal.

As suas praças e muros

são do mais puro metal. 

(Ofício da Dedicação de uma Igreja) 

            Para esta Jerusalém todos caminhamos, como Jesus, que “quando se completaram os dias de sua assunção, tomou resolutamente o caminho de Jerusalém” (Lc 9,51)[1]. Os salmos graduais ajudar-nos-ão a perceber, a contemplar esta nossa subida, que é, em última análise, a nossa história, a história de nossa vida cristã, de membros do Povo de Deus: “Não podereis experimentar a verdade do que cantais se não começardes a vivê-lo. Em vão eu vo-lo pregaria, vo-lo comentaria, vo-lo traduziria em outros termos; essa palavra não entra no coração de quem não a vive. Começai por agir e compreendei o que dizemos” (Sto. Agostinho). 

Que a contemplação destes salmos sagrados nos ajude, nesta Quaresma, a subir para a Santa Cidade de Deus, onde nos aguarda o Cordeiro imolado e ressuscitado, que nos plenificará com seu Espírito e nos revestirá da glória do Pai!

[1] Lucas, o evangelista mais sensível ao sentido de Jerusalém, divide a vida de Jesus em três etapas: a etapa da infância, com a subida ao Templo para ouvir a profecia de Simeão (cf. 2,22-40); a etapa da maturidade religiosa - a festa do Bar Mitsvá -, com a subida ao Templo para ocupar-se das coisas do se Pai (cf. 2,41-52) e a etapa do cumprimento, com a longa subida que, passando pela cruz, chega à glória da Jerusalém celeste (cf. 9,51; 24,51).

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Última atualização em Sex, 08 de Maio de 2009 21:33
 

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