Home Homilias Ano B VIII Domingo Comum – Ano B
VIII Domingo Comum – Ano B PDF Imprimir E-mail
Ano B
Sáb, 16 de Maio de 2009 12:56


Os 2,16b.17b.21-22
Sl 102
2Cor 3,1b-6
Mc 2,18-22

          Caríssimos em Cristo, hoje o Evangelho trata de uma importante questão: a relação entre os cristãos e a Lei de Moisés, bem como todo o restante Antigo Testamento. Sigamos o Evangelho. Podemos perceber duas partes bem claras. A primeira é uma discussão a respeito do jejum. Questionam Jesus: "Por que os discípulos de João e os discípulos dos fariseus jejuam e os teus discípulos não jejuam?” A resposta de Jesus é surpreendente: “Os convidados de um casamento poderiam jejuar enquanto o noivo está com eles? Vai chegar o tempo em que o noivo será tirado do meio deles; aí, então, eles vão jejuar”. Que festa de casamento é essa? De que noivo Jesus está falando?

          Recordemos que, para o Antigo Testamento, Deus era o Esposo, o Noivo de Israel; o povo de Israel, a Virgem filha de Sião, era a Esposa de Deus. Deus fez com o seu povo uma aliança de amor, como uma aliança matrimonial: “Eu sou do meu amado, e meu amado é meu” (Ct 6,3) – assim o Cântico dos Cânticos apresenta a aliança de amor entre Deus e Israel. Por isso mesmo, na primeira leitura desta Santa Missa, o Senhor Deus trata Israel como um amante apaixonado, que vai seduzir sua amada, falar-lhe ao coração e selar com ela uma aliança matrimonial perene: “Eu a conduzirei levando-a ao deserto, onde lhe falarei ao coração. Eu te desposarei na fidelidade e tu conhecerás o Senhor”. Então, Deus é o Esposo, Israel é a Esposa; os dois selaram uma aliança de amor. Mas, já sabemos do resultado dessa aliança: a Esposa foi infiel, o Esposo foi traído e Deus prometeu que um dia desposaria um resto de Israel, o seu povo, para sempre. Ora, Jesus é esse Esposo, Jesus é o próprio Deus que veio desposar o resto de Israel, que é a Igreja. Sua presença entre nós, nos dias de sua vida mortal, é o tempo da festa de casamento. Em Jesus, Deus mesmo está desposando Israel. Por isso, os discípulos de Jesus não jejuam: “Os convidados de um casamento poderiam jejuar enquanto o noivo está com eles?” Eis, caríssimos, Jesus é Deus, é o nosso Deus que vem desposar a humanidade redimida, a sua Igreja, fazendo-a sua Esposa amada! Jesus veio para selar conosco a nova e eterna Aliança, no seu sangue. Por isso mesmo, ele se refere à dor da separação, dor da sua morte na cruz. Ouçamos: “Mas, vai chegar o tempo em que o noivo será tirado do meio deles; aí, então, eles vão jejuar!” Aqui o Senhor se refere à sua morte, refere-se ao tempo em que vivemos, tempo em que o Noivo foi tirado visivelmente do nosso meio. Por isso, jejuamos. Jejuaremos na próxima Quarta-feira de Cinzas, jejuaremos na Sexta-feira da Paixão, recordando que o Noivo foi tirado do nosso meio de modo visível. Jejuaremos até o final dos tempos, quando, novamente, contemplaremos sem véus o Noivo, o Esposo, o mais belo dos filhos dos homens, o Cristo nosso Deus! A Esposa Igreja espera ansiosamente esse Dia bendito! Assim, o jjejum, além de ser um caminho de humildade e de disciplina interior para combater nossos vícios, é também, um modo de a Igreja exprimir nos seus filhos a saudade do Esposo Jesus; é um modo de dizer: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20).

          No entanto, depois de responder por que seus discípulos não jejuavam, Jesus dá uma importantíssima lição. Escutemo-la: “Ninguém põe um remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo novo repuxa o pano velho e o rasgão fica maior ainda. Ninguém põe vinho novo em odres velhos; porque o vinho novo arrebenta os odres velhos... Por isso, vinho novo em odres novos!” O que Jesus quer dizer? Por que essas palavras? O pano velho, os odres velhos são a Lei de Moisés e o Antigo Testamento. Jesus está dizendo: não adianta querer remendar a Lei de Moisés e o Antigo Testamento; não adianta ficar querendo ainda cumprir seus preceitos! Eu não vim remendar o que era antigo. As práticas da Lei de Moisés – jejuns, sábados, preceitos – passaram! Eu vim trazer algo novo: a Lei do Espírito Santo, que eu derramarei como um vinho novo nos corações de quem crer! Eis, caríssimos: o cristianismo não é uma puxadinha do judaísmo! O cristianismo é algo novo, diverso, que cumpre o judaísmo, leva-o à plenitude e o supera! Com Jesus, a Lei antiga passou, o Antigo Testamento foi superado! Não adianta, como fazem alguns cristãos pouco formados, ficar apegando-se aos preceitos do Antigo Testamento. Que miséria! Uns brigam por causa de guardar o sábado; outros, distinguem entre alimentos puros e impuros; uns ainda brigam por causa de imagens; outros arengam com a questão da transfusão de sangue... Que tristeza! Gente que diz acreditar em Cristo, querendo colocar o remendo novo do Evangelho no pano velho do Antigo Testamento; cristãos cegos, querendo colocar o vinho novo da Nova Aliança nos odres velhos da Lei de Moisés! Essa gente engasga-se com a letra e fica cega para o Espírito. Deveriam ouvir a exortação de São Paulo na segunda leitura: “A letra mata, mas o Espírito comunica a vida!”

          Mas, perguntarão alguns, Jesus disse que não veio abolir a Lei, mas cumpri-la; disse que nenhum iota da Lei passará sem que tudo se cumpra (cf. Mt 5,17-19). Como, então compreender, que o Antigo Testamento passou e deu ao Novo o seu lugar? Como compreender que estamos livres de cumprir os preceitos da Lei? É preciso compreender o sentido de “cumprir a Lei”. Jesus não veio para obedecer a Lei, mas para cumpri-la, isto é, realizar o que ela havia predito, prometido. Nele, tudo se cumpre, tudo se realiza. Como vimos no Domingo passado, Jesus é o sim de Deus para nós: nele, todas as promessas do Antigo Testamento foram cumpridas (1Cor 1,18-20). Cumpridas e ultrapassadas. Por exemplo: o botão se cumpre na flor; chegou a flor, o botão deixa de ter utilidade. Os ensaios das escolas de samba vão se cumprir na noite do desfile: chegando o desfile, os ensaios se cumprem e perdem a utilidade. Assim também, a Lei de Moisés e todo o Antigo Testamento: preparavam para o Cristo; agora que Cristo chegou, tudo foi cumprido, nada caiu por terra, nada passou desperdiçado! Em Cristo tudo se cumpriu e, cumprido, perdeu o valor, pois realizou sua missão! O cristão não mais está sujeito aos preceitos do Antigo Testamento! Então, que ninguém venha nos citar passagens do Antigo Testamento para tirar a nossa liberdade. Em Cristo, estamos livres da Lei de Moisés: ele a realizou para nós! São Paulo mesmo gritava aos gálatas: "Foi para a liberdade que Cristo nos libertou!" (Gl 5,1).

          Então, para que serve ainda o Antigo Testamento? Por que o lemos na Missa e devemos meditá-lo em casa? O Antigo Testamento será sempre palavra de Deus e deverá sempre ter nosso amor e veneração. Nós o lemos e veneramos porque ele tem para os cristãos quatro utilidades: (1) dá testemunho de Cristo, pois nos mostra como Deus foi preparando tudo para o seu Filho pela Lei e os profetas; (2) mostra-nos a pedagogia de Deus e como ele é bom, paciente e fiel e, assim, desperta nosso amor pelo Senhor; (3) mostra os pecados de Israel, o antigo povo e, assim, faz-nos ocmpreender o modo de agir do Senhor e nos educa e previne, para que não façamos como Israel fez, pois não somos melhores que nossos antepassados; (4) educa-nos na vida espiritual e na piedade com tantas orações e textos piedosos, como os salmos, os provérbios, etc. O que passou foi o Antigo Testamento com seus preceitos legais! Não mais estamos debaixo daquelas normas. Aí a gente compreende como estão errados aqueles que se apegam ao Antigo Testamento e ficam brigando por causa de imagens e outras coisas mais!

          Então, nós, cristãos, não mais temos Lei? Certo que temos! Qual? A Lei do Espírito Santo que dá vida, Espírito de amor, que nos impele a amar como Jesus amou ao Pai e aos irmãos. Esse amor de Jesus (amor ao Pai e aos irmãos) foi derramado em nossos coração pelo Espírito que nos foi dado no Batismo (cf. Rm 5,5). "O amor é a plenitude da Lei. Quem ama, cumpriu a Lei!" (Rm 13,10). Amar como Jesus e por amor de Jesus, amar até dar a vida, amar sem medida, ao Pai e aos irmãos – essa é a única Lei dos cristãos! Que o Senhor Jesus, na força do seu Espírito de Amor, nos conceda tal graça. Amém.

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