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XXX Domingo Comum – Ano B PDF Imprimir E-mail
Ano B
Dom, 17 de Maio de 2009 00:03


Jr 31,7-9
Sl 125
Hb 5,1-6
Mc 10,46-52
 

                                                                     Modelo I

            Comecemos nossa meditação da Palavra de Deus com a primeira leitura. Muitas vezes, na sua história, o povo de Deus experimentou a escravidão, o exílio e a opressão. Muitas vezes Israel experimentou-se como um nada e viu-se numa escuridão tremenda. Parecia que o povo iria acabar-se! Assim, por exemplo, em 722 aC, quando os assírios varreram do mapa o reino do Norte, o Reino de Israel e, em 597 e 587 aC, quando os israelitas do Reino de Judá foram levados para o exílio em Babilônia. É quase um escândalo, mas é verdade: a história do povo de Deus é uma história de dor e de angústia! Pois bem, é no meio de tal angústia e escuridão que o Profeta fala hoje e diz palavras de esperança, de ânimo e de alegria: “Exultai de alegria, aclamai a primeira entre as nações!

Eis que os trarei do país do Norte e os reunirei desde as extremidades da terra”. No meio da desgraça, Deus consola o seu povo: irá salvá-lo, reuni-lo, fazê-lo reviver. Mas, quem é esse povo? No que se tornou? Quem somos nós, povo de Deus? “Entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes. Eles chegarão entre lágrimas e eu os receberei entre preces, eu os conduzirei por torrentes d’água por um caminho reto onde não tropeçarão... tornei-me um pai para Israel e Efraim é o meu primogênito”. O Israel que vai experimentar a salvação de Deus é um povo pobre, capenga, humilde... um povo que não conta nada aos olhos do mundo! Como não recordar as palavras de São Paulo aos coríntios? “Vede quem sois, irmãos, vós que recebestes o chamado de Deus; não há entre vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de família prestigiosa. Mas o que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e, o que é fraqueza no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte; e o que no mundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é” (1Cor 1,26-28).

            Quando pensamos na nossa civilização atual, nos nossos valores, exaltando a eficiência, a riqueza, o conforto, o bem-estar, o vigor e forma física, a saúde... Como os critérios de Deus são diferentes! Israel é imagem da Igreja e é imagem de cada um de nós, membro do povo de Deus da nova Aliança. À medida que descobrirmos nossas pobrezas pessoais e eclesiais, podemos também ter certeza que o Senhor não nos abandona: ele nos chama, ele nos reúne, ele nos salva: “Entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes”, gente fraca, gente sem força, gente incapaz de se defender... Mas, Deus é nossa defesa: defesa da Igreja, defesa de cada um de nós! Se caminharmos, muitas vezes, chorando, semeando com lágrimas o caminho de nosso seguimento de Cristo, haveremos de voltar cantando, na força e na graça do Senhor: “Mudai a nossa sorte, ó Senhor, como torrentes no deserto. Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria. Chorando de tristeza sairão, espalhando suas sementes; cantando de alegria voltarão, carregando os seus feixes”. Somente pode experimentar isso aqueles que sabem e experimentam que são pobres diante de Deus, aqueles que sentem sua própria fraqueza! Esta é a experiência que o cristão deve fazer sempre na sua vida, seja pessoalmente, seja como Igreja! Somos pobres, mas Deus é nossa riqueza; somos fracos, mas Deus é nossa força!

            Agora podemos deter-nos no Evangelho de hoje, que mostra de modo maravilhoso essa experiência cristã de ser salvo por Deus em Jesus Cristo. Jesus está saindo de Jericó, já está perto de Jerusalém, onde morrerá. Uma multidão o acompanha: barulho, empurra-empurra, aglomeração, aperreio... À beira do caminho, havia um cego mendigo... Ele era ninguém, nem nome tinha... Marcos só diz que era o “bar-Timeu”, o filho de Timeu... Cego, incapaz de caminhar sozinho, esmolando, sentado à margem do caminho de Jericó e da vida. Este cego é a humanidade; este cego é cada um de nós! Mas, ele ouve o rumor, a confusão no caminho e quando ouviu dizer que Jesus estava passando, não perde tempo; é a chance de sua vida! Ele grita alto: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” Repreendem o cego, mas ele grita com voz mais forte! Ele sabe que é a chance da sua vida. Santo Agostinho dizia: “Eu temo o Cristo que passa”... É preciso não perder a chance, é preciso gritar... não deixar o Cristo passar em vão no caminho da nossa existência!

            O grito do cego é já um grito de fé. Chamando Jesus “filho de Davi”, o Bartimeu está dizendo que crê que Jesus é o messias: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” Repreendem o cego... como o mundo quer nos repreender, quer nos impedir e ridicularizar quando nos reconhecemos cegos, pobres e coxos e gritamos por Jesus: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” Mas o cego insiste; grita mais alto ainda! Então, apesar da distância, apesar da multidão, apesar do empurra-empurra, Jesus escuta o clamor do cego! Como não recordar, comovidos, as palavras do salmo 129? “Das profundezas eu clamo a vós, Senhor; escutai a minha súplica!” Ninguém grita pelo Senhor do fundo da sua miséria e fica sem ser ouvido! “Então, Jesus parou e disse: ‘Chamai-o’. O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus”. Cego esperto, esse: não perde tempo, dá um pulo, deixa tudo, desembaraça-se do manto e corre para Jesus! Ele segue o conselho do Autor da Carta aos Hebreus: “Também nós, rejeitando todo fardo e o pecado que nos envolve, corramos com perseverança para a corrida que nos é proposta, com os olhos fixos naquele que é o Autor e Realizador da fé, Jesus” (12,1s). Quem dera, fizéssemos assim também: largássemos tudo, deixássemos nossas tralhas e bagulhos, nossos apegos e quinquilharias e corrêssemos para Jesus!

            E Jesus? Que delicadeza! Não vai logo curando, como esses curadores de televisão, os falsos profetas da telinha, os RR Soares e Edir Macedos da vida! O Senhor deseja encontrar as pessoas, ouvi-las, com todo respeito: “O que queres que eu te faça?” O pedido do cego é comovente; é o nosso pedido: “’Mestre, que eu veja!’ Jesus disse: ‘Vai, a tua fé te curou’”. Este deve ser o nosso pedido, mas, para isso é necessário ter a humildade de se reconhecer cego, pobre, necessitado! “Senhor, eu sou o cego do caminho! Cura-me, eu te quero ver!”

            O cego foi curado... “e seguia Jesus pelo caminho”. Curado, iluminado por Jesus, agora seguia Jesus como discípulo, caminhando com ele para Jerusalém, para com ele morrer e com ele ressuscitar. Esta é a nossa vocação, este deve ser o nosso itinerário, a nossa experiência de fé!

            “Senhor, tua Igreja, peregrina no mundo, é um povo de pobres, de frágeis seres humanos. Mas confiamos em ti! Não queremos colocar nossas força ou esperança no nosso prestígio, ou nas riquezas ou nos amigos poderosos o nos elogios do mundo. Não! Tu somente és nossa força! Salva-nos, Senhor! Reúne-nos, Senhor! Ilumina-nos, Senhor! Dá-nos a graça de reconhecer que somente na tua luz poderemos ver a luz! O mundo chama luz, sabedoria e esperteza a coisas que são inaceitáveis aos teus olhos! Senhor, abre nossos olhos para caminharmos na tua luz até a cruz, até a ressurreição, até à vida. Senhor, arranca-nos da nossa cegueira. Amém”.

Modelo II

            Tomemos hoje a Palavra de Deus pensando na nossa pobreza; na minha como sacerdote, na sua como leigo, na pobreza de toda a Igreja, povo santo de Deus.

            Amados no Senhor, a nossa fé, a nossa salvação, toda a experiência do cristianismo dá-se num misterioso encontro entre a riqueza misericordiosa de Deus e a humana pobreza, a nossa pobreza. E isto é dificílimo de ser compreendido, aceito e vivenciado por uma humanidade que se julga material e racionalmente auto-suficiente, por nós, que dizemos que temos direito a tudo, não devemos nada e não queremos favores de ninguém. E, no entanto, a Palavra santa no diz que diante de Deus somos pobres, necessitados, deficientes. E somente reconhecendo esta realidade encontramos a nossa verdade mais profunda e a salvação! Somos pobres, mas amados; somos frágeis, mas aconchegados entre as benditas mãos do Senhor. É ele nossa riqueza, é ele nossa esperança e auxílio. Mas, vejamos isso na Palavra de Deus que acabemos de ouvir...

            Comecemos pelo Evangelho, com esta comovente história do cego de Jericó. Esse cago nos representa; ele é cada um de nós, ele é a Igreja toda. Não tem nome, este homem: é somente o bar Timeu, isto é, o filho de Timeu; é cego e mendigo, sentado à margem da estrada da vida. Esta, meus caros, é a nossa situação sem Cristo. Em certo sentido, esta será sempre a nossa situação, pois somos sempre necessitados de Cristo, sempre pobres, sempre dependentes. Esta é também a situação da Igreja toda. Não é ela aquele povo de Deus que o Senhor liberta do cativeiro e vai conduzindo? Não é ela aquele pobre resto, formado por cegos, aleijados e mulheres em estado de fragilidade? Recordem, meus irmãos, as características daqueles a quem o Senhor chama na primeira leitura desta Missa: “Salva, Senhor, o teu povo, o resto de Israel. Entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes. Eles chegarão entre lágrimas...” A Igreja será sempre isto: um resto, feito de pobres, formado por pessoas frágeis, que experimentam as lágrimas e provas da vida, as quedas e debilidades na estrada da existência... A Igreja de Cristo será sempre aqueles que caminham entre preces, colocando no Senhor sua esperança. Nosso arrimo, caríssimos, é somente o Senhor!

            Pobre cada um de nós, pobre a Igreja, pobres também os que o Senhor constitui como seus sacerdotes... A segunda leitura os apresenta tendo como modelo o único e perfeito sacerdote, modelo de todo sacerdote do povo cristão: Jesus Cristo. Quem é o sacerdote? Um pobre homem, vaso de eleição e vaso de argila, tirado do meio dos homens e colocado em favor dos homens não em qualquer assunto, mas nas coisas de Deus. Qual a sua missão central? Oferecer o Santo Sacrifício de Cristo pelos pecados próprios e do mundo inteiro. Mas, aqui, compreendamos bem: o Sacrifício eucarístico oferecido sobre o Altar não se resume ou se esgota no Altar, mas deve ser vivenciado e prolongado no serviço total ao povo de Deus e à humanidade. Serviço na pregação, serviço de pastoreio na coordenação e animação dos irmãos, serviço na oração, na celebração dos santos mistérios, na orientação espiritual, na promoção humana dos irmãos... Como Cristo, o sacerdote deve ser cheio de compaixão pelas fraquezas humanas, pois ele próprio é fraco. Assim, como a Igreja e como cada um de nós, também o sacerdote deve ser consciente de sua total dependência e necessidade do Senhor. Ele não tem nada de próprio para dar. Pelo contrário: sua missão será tanto mais eficaz, tanto mais verdadeira, quanto mais ele deixar que Cristo transpareça nele. O Sacrifício da Missa, por ele oferecido todos os dias, com o povo santo e em nome do povo santo, é expressão clara de que tanto ele quanto toda a Igreja não vivem de suas próprias forças e virtudes, mas somente da graça de Cristo, que brota continuamente do sacrifício pascal do Senhor. Portanto, nós padres somos pobres sacerdotes no meio de um povo de pobres, que deve vencer a tentação da auto-suficiência, da soberba, tão característica do mundo atual, e colocar sua esperança somente no Senhor, comprometendo-se com toda a vida somente com ele e com a sua vontade. Quão grande é a tentação de ser padre do nosso jeito, como se fôssemos donos do ministério e do rebanho! Que tentação manipular a doutrina, a liturgia, os conselhos... Não! Somos apenas servos, somos apenas embaixadores de Deus e administradores do seu mistério. O que se espera de nós é que sejamos fiéis! E que tentação do rebanho, a de querer fazer uma doutrina do seu modo, sob medida, uma moral a gosto da moda, um cristianismo fácil e burguês, sem exigências e sem conversão contínua...

            Mas, caros irmãos pobres, que escutam agora um sacerdote mais pobre ainda, voltemos ao cego do caminho. Aprendamos com ele, porque ele hoje nos serve de modelo no modo como agir diante do Cristo que passa pela estada da nossa vida! Esse cego reconhece sua miséria e grita a Jesus com todas as suas forças. Seu grito é uma profissão de fé em Jesus: “Filho de Davi, ele exclama, tem piedade de mim!” Ele tem consciência que é pobre, necessitado, precisado da misericórdia e da cura de Jesus. Ele sabe que é cego... Bem diferente do mundo atual, bem diferente de nós, às vezes, que teimamos que estamos vendo quando agimos como cegos... Observem como querem calá-lo, como querem que ele não grite por Jesus! Não é a mesma coisa que a Igreja sofre do mundo? Não é a mesma coisa que o nosso orgulho deseja fazer conosco? Querem nos calar, querem que não reconheçamos que somos pobres cegos e precisamos de Jesus! Querem reprimir nossa sede, sufocar nossa procura, matar nosso desejo! – Nós, no entanto, continuemos a gritar: Senhor Jesus, Filho santo e bendito de Deus, tem piedade de mim, tem piedade da tua Igreja! Sê nosso socorro, nosso perdão, nossa força! Sê a luz dos nossos olhos, tu que venceste o Maligno e a Morte e fizeste brilhar para nós a luz e a vida imperecível (cf. 2Tm 1,10). Senhor, que eu possa ver novamente: ver com teu olhar, ver na tua luz, ver a tua verdade, que faz a vida valer a pena e não ser uma existência vazia!

            Observem, meus caros, como Jesus, apesar do ruído da multidão, escuta o cego, ouve aquele que grita das profundezas de sua miséria! Ouve e o chama para si! E o cego, dando um pulo e deixando cair o manto no qual guardava seu dinheiro, corre para Jesus! Bendito cego: primeiro soube reconhecer a cegueira, depois teve discernimento para reconhecer o Cristo que passava na sua vida, em seguida teve a coragem de gritar por Jesus pedindo ajuda; e agora, tem a sabedoria de deixar tudo: pula apressado, não perde tempo com o manto, e vai ao encontro do essencial: encontrar Jesus! Eis, então: a miséria diante da Misericórdia, o cego diante de Jesus. E a Misericórdia pergunta à miséria: “Que queres que eu t e faça?” E a miséria não perde tempo, não pensa em futilidades; vai direto ao essencial: “Mestre, que eu veja!” – Senhor, abre os meus olhos às maravilhas do teu amor! Eu sou o cego do caminho: cura-me, eu te quero ver! – E Jesus, a Misericórdia infinita, responde: “A tua fé te curou!” Eis o fruto da humildade de quem se reconhece pobre e pequeno, de quem se reconhece pecador: a cura, a luz, o poder contemplar Jesus. Que alegria daquele Bartimeu poder ver Jesus, dirigir o olhar para o Senhor, manter seus olhos no Senhor, que alegra a nossa vida! E não só. Vejam como termina a narrativa do Evangelho: “Recuperou a vista e seguia-o pelo caminho!” Ó caríssimos, que também nós nos deixemos curar de nossa cegueira e possamos ver Jesus e tenhamos a coragem de segui-lo pelo caminho! – “Salva, Senhor, o teu povo, o resto de Israel!“por torrentes d’água, por um caminho reto onde não tropecemos! Torna-te sempre de novo um Pai para nós, como tu és o Pai de Jesus, o teu Santo e Bendito Primogênito, que contigo vive e reina na unidade do Espírito Santo. Amém. Conduze-nos

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Última atualização em Sex, 06 de Novembro de 2009 15:27
 

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