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XXV Domingo Comum – Ano B PDF Imprimir E-mail
Ano B
Dom, 17 de Maio de 2009 00:07

 

Sb 2,12.17-20
Sl 53
Tg 3,16 – 4,3
Mc 9,30-37

Homilia I

No domingo passado – deveis recordar - Jesus anunciou aos seus discípulos que ele era um Messias não de glória, mas de humildade e serviço até à morte de cruz. Ao final, triunfaria pela ressurreição. Pedro havia se escandalizado com tais palavras. Hoje, Jesus continua sua pregação. Ele ensinava a sós a seus discípulos: “’O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens e eles o matarão. Mas, três dias após, ele ressuscitará’. Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar”.

Vede, caríssimos, é a mesma atitude da semana passada. O ensinamento do Senhor tem como seu centro o Reino de Deus que viria pela sua cruz e ressurreição. Entrar no Reino é tomar com Jesus a cruz e com ele chegar à glória! Estejamos atentos: este não é apenas mais um dos muitos ensinamentos de Cristo; este é o ensinamento por excelência, a mensagem central que o Senhor veio nos revelar e mostrar com sua palavra, suas atitudes e sua própria vida. Repito: eis o que Jesus ensina: que o caminho do Reino passa pela cruz, passa pela morte e chega à plenitude da vida na ressurreição. Observai que ele ensina isso de modo insistente e prepara particularmente os discípulos para esse caminho... E, no entanto, os discípulos não compreendem a linguagem de Jesus, não compreendem sua missão, seu caminho! Esperavam um messias glorioso, cheio de poder, que resolvesse todos os problemas e reafirmasse orgulhosamente a glória terrena de Israel... Um messias na linha da teologia da prosperidade do Edir Macedo e do RR Soares. Nada mais distante de Cristo que esse tipo de coisa! Observai que, enquanto Jesus caminha adiante ensinando isso, os discípulos, seguindo-o com os pés, próximos fisicamente, estão com o coração muito longe do Senhor. No caminho, vão discutindo sobre quem deles era o maior! Jesus fala da humilhação e do serviço até à cruz; seus discípulos, nós, falamos de quem é o primeiro, o maior... Que perigo, caríssimos, pensarmos que somos cristãos, que seguimos Jesus, e estarmos com o coração bem longe do Mestre amado! 

Temos nós essa tentação também? Certamente! A linguagem da cruz continua difícil, dura, inaceitável para nós. É claro que não teoricamente: persignamos-nos com a cruz, beijamos a cruz, trazemo-la pendurada ao pescoço, veneramos a cruz... Mas, o caminho da cruz se faz na vida, não na teoria! Essa cruz de Cristo está presente nas dificuldades, no convite à renúncia de nossa vontade para fazer a vontade do Senhor, na aceitação dos caminhos de Deus, na doença e na morte, nas perdas que a vida nos apresenta, nos momentos de escuridão, de silêncio do coração e de aparente ausência de Deus... Todas essas coisas nos põem à prova, como o justo provado da primeira leitura deste hoje. É a vida, são os acontecimentos, são os outros que nos provam: “Armemos ciladas aos justos... Vamos pô-lo à prova para ver sua serenidade e provar a sua paciência; vamos condená-lo à morte vergonhosa, porque, de acordo com suas palavras, virá alguém em seu socorro”. Jesus passou por esse caminho, fez essa experiência em total obediência à vontade do Pai. E nos convida a segui-lo no hoje, no aqui da nossa vida. Nossa tentação é a dos primeiros discípulos: um cristianismo fácil, de acordo com a mentalidade do mundo atual; um cristianismo a baixo preço – isso: que não custe o preço da cruz! Se assim for, como estaremos longe de Jesus, como não o conheceremos! Ele nos dirá: “Apartai-vos de mim! Não vos conheço!” (Mt 7,23). 

Caros irmãos, ouvindo isso, talvez digamos: mas, como suportar a dureza da cruz? Como amá-la? Não é possível! É que ninguém pode amar a cruz pela própria cruz, caríssimos. Cristo amou sua cruz e a abraçou por amor total e absoluto ao Pai, por fidelidade ao Pai. Nós, também, somente poderemos compreender a linguagem da cruz e somente não nos escandalizaremos com ela se for por um amor apaixonado pelo Senhor Jesus, para segui-lo em seu caminho, para estarmos em união com ele. Eis, portanto: é o amor ao Senhor que torna a cruz aceitável e até desejável! Sem o amor ao Senhor, a cruz é destrutiva, é louca, e desumana! Com Jesus e por causa de Jesus, a cruz é árvore bendita de libertação e de vida. É o amor a Jesus que torna doce o que é amargo neste vida! 

O problema é que precisamos redescobrir a experiência tão bela e doce de amar Jesus. Não se pode ser cristão sem paixão pelo Senhor, sem um amor sincero entranhado para com ele! Como se consegue isso? Estando com ele na oração, aprendendo a contemplá-lo no Evangelho, alimentando durante o dia, dia todo, sua lembrança bendita, procurando a sua graça nos sacramentos, sobretudo na Eucaristia, lutando pacientemente para vencer os vícios e colocar a vida, os sentimentos, os instintos e a vontade em sintonia com a vontade do Senhor Jesus... Sem esses exercícios não há amor, sem amor não há como compreender a linguagem da cruz e sem tomar a cruz com e por Jesus não há a mínima possibilidade de ser cristão! Quando vier a crise, largaremos tudo, trairemos o Senhor e terminaremos por fazer do nosso jeito, salvando a pele e fugiremos covardemente da cruz... 

            Então - pode ser que perguntemos – por que o Senhor quer nos fazer passar pela cruz? Por que escolheu e determinou um caminho tão difícil? Eis a resposta: porque somos egoístas, imaturos, quebrados interiormente! O pecado nos desfigurou profundamente! São Tiago traça um perfil muito realista e muito feio da nossa realidade: guerras interiores, paixões, disputas, auto-afirmação doentia, desordens e toda espécie de obras más... Quem tiver a coragem de entrar em si mesmo, quem for maduro para se olhar de frente verá em si todas essas tendências. Quantas vontades, quantas guerras interiores! Ora, isso tudo nos fecha para Deus, nos joga na idolatria do ter, do poder, do prazer, da auto-suficiência de pensar que somos deuses... É a cruz do Senhor quem nos purifica, nos corrige e nos liberta de verdade. Não há outro modo, não há outro caminho. Somente sentimentos, risos, cantorias e boa vontade não nos construiriam, não nos colocariam de verdade em comunhão com o Senhor no seu caminho. O mistério do pecado é sério demais, profundo demais para ser tratado com leviandade... “Quem quiser seu meu discípulo tome a sua cruz e siga-me” – diz o Senhor! 

Caríssimos, tenhamos coragem! Na docilidade ao Espírito Santo que o Senhor nos concedeu, teremos tal união com o Senhor Jesus, que tudo poderemos e suportaremos. Foi esse o caminho dos santos de Deus de todos os tempos; é esse o caminho que agora nos cabe caminhar... Que o Senhor no-lo conceda por sua graça, ele que é Deus com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.

 

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Homilia II

           

            O Evangelho deste XXV Domingo é dramático, pois revela a solidão de Jesus e a incapacidade nossa de compreender verdadeiramente a proposta do Senhor e caminhar com ele. “Jesus e seus discípulos atravessavam a Galiléia. Ele não queria que ninguém soubesse disso, pois estava ensinando a seus discípulos”. Para onde caminha Jesus? Seu caminho irá terminar em Jerusalém; é para lá que ele, enfim, se dirigirá (cf. Mc 10,1), para enfrentar seu destino final de morte e ressurreição por amor. E o que Jesus ensina, a sós, aos seus discípulos? “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão. Mas, três dias após a sua morte, ele ressuscitará”. Jesus vai preparando seus discípulos para algo que eles de modo algum esperavam: o Messias não será aquele glorioso, como imaginavam, mas passará pela humilhação, pelo fracasso e pela cruz, como a primeira leitura de hoje no-lo apresenta: “Os ímpios dizem: ‘Armemos ciladas... sua presença nos incomoda... Vejamos se é verdade o que ele diz. Se é filho de Deus, Deus o defenderá. Vamos pô-lo à prova com ofensas e torturas; vamos condená-lo à morte vergonhosa...” Em vários momentos do Antigo Testamento fala-se de uma sorte desastrosa para o Messias, mas nem Israel nem os discípulos prestavam atenção a isso; recordavam-se somente das passagens gloriosas, lembravam-se somente do que interessava... Por isso o evangelho diz que “os discípulos não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar”. Parece que Jesus falava (a fala) para surdos, que não conseguem de modo algum escutar realmente o que ele está dizendo... que não conseguem sintonizar realmente com o Senhor...

            Mas, há ainda mais... mais e pior, mais e mais trágico: “Estando em casa, Jesus perguntou-lhes: ‘O que discutíeis pelo caminho?’ Eles, porém, ficaram calados, pois pelo caminho tinham discutido quem era o maior”. É terrível e trágico constatar a distância enorme entre o Mestre e os discípulos, a falta de sintonia, de compreensão: no caminho, no caminho cristão, Jesus fala da cruz, da vida que ele entregará como serviço de amor (este é o caminho cristão, o caminho do cristão!); os discípulos falam de ser o maior, de glórias, de privilégios! Não é assim, ainda hoje? Não somos assim, no caminho? Leigos ou membros do clero, religiosos ou seculares, não nos encontramos muitas vezes atolados nesta surdez, nesta cegueira, nesta falta de sintonia real com o Senhor? O caminho de Jesus é o do serviço que dá vida, que se entrega, que encontra, precisamente no servir, a liberdade e a plenitude. Num outro momento do evangelho, o Senhor nos adverte gravemente: ”Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc10,42-45). Ele próprio se coloca como modelo de serviço, de vida doada! E nós? A segunda leitura de hoje, da Epístola de São Tiago, revela um quadro desolador: invejas, rivalidades, brigas na comunidade, conflitos interiores no coração dos cristãos... E por quê? Por que, ao invés de realmente abraçarmos o caminho do Senhor, que passa pela cruz como serviço de amor a Deus e aos outros, amor desinteressado, que, dando a vida, encontra vida, seguimos uma lógica perversa e pecaminosa, a lógica do homem velho, com suas paixões e seus desejos de posse, de domínio, de auto-afirmação: “Só quereis esbanjar o pedido nos vossos prazeres...” ou seja, buscais somente vossos interesses, totalmente desligados daquele que é o caminho proposto pelo Senhor Jesus. Esqueceis a exortação do Apóstolo São João: “Aquele que diz que permanece nele deve andar como ele andou” (1Jo 2,6).

            No fundo, no fundo, o desafio atual para os cristãos é o mesmo de nossas origens, na Igreja primitiva: compreender e levar a sério a linguagem da cruz, a linguagem do amor que se doa, que acolhe, que não busca seu próprio interesse nem sua própria glória e satisfação, sobretudo se isso é às custas da dignidade e da felicidade do irmão. O desafio é levar a sério o caminho de Jesus...

            Ante esta palavra do Senhor que escutamos, impõem-se algumas questões sérias e urgentes: Que valores norteiam nossa vida pessoal? Que valores norteiam nossa vida comunitária, de grupo, de paróquia, de Igreja? Com tristeza, vemos, não poucas vezes, reproduzirem-se, em nossa vida pessoal e na vida de nossas comunidades, as atitudes do mundo: interesses, joguinhos de poder, dissimulações e invejas, maledicências e competições... e isto tudo sob a capa da santidade! Tudo hipocrisia! Não é à toa que, como os discípulos, ficaríamos envergonhados e calados, se o Senhor nos perguntasse sobre o que discutimos no caminho da vida!

“A sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura, depois pacífica, modesta’conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem fingimento...” Esta sabedoria é que deveria nortear nossas relações como cristãos! Esta sabedoria, tão bendita, porque é fruto daquele amor-caridade que Jesus viveu e nos mandou viver: “o amor é paciente, a caridade á prestativo, não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Que o Senhor que, tendo nos amado, amou-nos até o extremo (cf. Jo 13,1), no-lo conceda, para que sejamos realmente seus discípulos, com palavras e com a vida. Amém!

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Última atualização em Qui, 08 de Outubro de 2009 15:45
 

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