Home Padres da Igreja A Ação do Espírito Santo (S. Basílio Magno)
A Ação do Espírito Santo (S. Basílio Magno) PDF Imprimir E-mail
Padres da Igreja
Sáb, 23 de Maio de 2009 13:28


Caro(a) Internauta, nesta semana de preparação para a Solenidade de Pentecostes, ofereço-lhe este precioso texto de São Basílio sobre o Espírito Santo. São Basílio é do século IV; trata-se de um dos quatro grandes doutores da Igreja do Oriente. Suas palavras exprimem a fé de toda a Igreja. Para uma maior compreensão, coloquei alguns comentários como nota de rodapé. Boa leitura!

            Qual o homem que, ao ouvir os nomes com os quais é designado o Espírito Santo, não eleva seu ânimo e o seu pensamento para a natureza divina? É chamado Espírito de Deus, Espírito da verdade que procede do Pai, Espírito de retidão, Espírito principal e, como nome próprio e peculiar, Espírito Santo[1].

            Volta-se para ele o olhar de todos os que buscam a santificação; para ele tende a aspiração de todos os que vivem segundo a virtude; é o seu sopro que os revigora e reanima para atingirem o fim natural e próprio para que foram feitos. 

            Ele é fonte da santidade e luz da inteligência; é ele que dá, de si mesmo, uma certa iluminação à nossa razão natural para que encontre a verdade[2]

            Inacessível por sua natureza, torna-se acessível por sua bondade. Enche tudo com o seu poder, mas comunica-se apenas aos que são dignos; não a todos na mesma medida, mas distribuindo os seus dons em proporção da fé. Simples na essência, múltiplo nas manifestações do seu poder, está presente por inteiro em cada um, sem deixar de estar todo em todo lugar. Reparte-se e não sofre diminuição. Todos dele participam e permanece íntegro, à semelhança dos raios do sol que fazem sentir a cada um a sua luz benéfica como se fosse para ele só, e contudo iluminam a terra e o mar e se difundem pelo espaço[3]

            Assim é também o Espírito Santo: está presente em cada um dos que são capazes de recebê-lo, como se estivesse nele só, e, não obstante, dá a todos a totalidade da graça de que necessitam. Os que participam do Espírito recebem os seus dons na medida em que o permite a disposição de cada um, mas não na medida do poder do mesmo Espírito. 

            Por ele, os corações são elevados ao alto, os fracos são conduzidos pela mão, os que progridem na virtude chegam à perfeição. Ele ilumina os que foram purificados de toda mancha e torna-os espirituais pela comunhão consigo. 

            E como os corpos límpidos e transparentes, sob a ação da luz, se tornam também extraordinariamente brilhantes e irradiam um novo fulgor, da mesma forma também as almas que recebem o Espírito e são por ele iluminadas tornam-se espirituais e irradiam sobre os outros a graça que lhes foi dada.

           
Dele procede a previsão do futuro[4], a inteligência dos mistérios[5], a compreensão das coisas ocultas, a distribuição dos carismas, a participação na vida do céu[6], a companhia dos coros dos anjos. Dele nos vem a alegria sem fim, a união constante e a semelhança com Deus; dele procede, enfim, o bem mais sublime que se pode desejar: o homem é divinizado[7].

[1] Sempre foi muito difícil para a teologia falar do Espírito Santo. O próprio nome que lhe é dado, se pensarmos bem, é comum às três divinas pessoas: “espírito” e “santo”. Deus é espírito e Deus é santo. Por isso, São Basílio afirma que, ao ouvirmos falar do Espírito Santo, elevamos nosso pensamento à natureza divina. Além disso, é relativamente fácil falar do Pai e do Filho como pessoas. Já é bem mais difícil fazer o mesmo em relação ao “Espírito”.

[2] É importante compreender que o Espírito tem de próprio agir em tudo escondendo-se por detrás de tudo: ele tudo suscita, tudo faz acontecer, tudo sustenta, mas respeitando infinitamente a autonomia de todos os seres. Ele é a presença eficaz, potente e respeitosa de Deus em todas as coisas, sobretudo na liberdade humana.

[3] Aqui aparecem duas características preciosas da ação do Espírito: (1) ele, sendo sempre único e o mesmo, amolda-se aos que o recebem. Respeita infinitamente a criatura. Por isso mesmo ele é sempre representado na Bíblia por elementos que não têm forma definida: fogo, vento, água, perfume, óleo, vinho. A própria pomba, presente no batismo de Jesus, nada mais é que uma evocação da pomba do dilúvio, que trazia no bico a oliveira, da qual se faz o óleo para a unção. Note-se que todos estes elementos se adequam ao recipiente onde estão. Assim faz o Espírito: agindo em nós, adequa-se à nossa natureza e realidade. Deus não força e não destrói jamais a nossa personalidade e liberdade. (2) O outro aspecto: porque é sempre único, agindo de modos tão diversos e produzindo resultados tão variados, o Espírito é fonte de profunda unidade e de verdadeira e fecunda diversidade. Por isso, no Apocalipse, sendo o mesmo e único Espírito, é representado de modo plural como “sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus” (5,6) ou “sete lâmpadas de fogo: são os sete Espíritos de Deus” (4,5).

[4] Refere-se, aqui, ao dom da profecia, sobretudo do Antigo Testamento, quando o Espírito falou pelos profetas, anunciando o que se referia a Jesus (cf. 1Pd 1,10-12).

[5] “Mistérios” aqui tem dois sentidos: (1) Deus mesmo e seus desígnios, que são insondáveis e totalmente incompreensíveis para o homem carnal e o homem psíquico (cf. 1Cor 2,10-15);. (2) os sacramentos, santos mistérios, que somente são canais de salvação porque são celebrados na potência do Espírito Santo e somente podem ser saboreados no Espírito Santo.

[6] E Escritura e a Tradição da Igreja insistem que no Espírito Santo nós já experimentamos aquela vida que receberemos um dia em plenitude. O Espírito é esta Vida Eterna, recebida no batismo, alimentada na eucaristia e, um dia, plenificada na glória.

[7] Para os antigos Padres da Igreja, a grande missão do Espírito Santo, raiz de tudo quanto ele faz, é a nossa divinização: o que ele fez com Jesus morto e ressuscitado, faz conosco desde o batismo: vai transfigurando nossa pobre vida humana na vida do próprio Deus. O termo “divinização” é tirado da 2Pd 1,4, onde se fala em sermos tornados “participantes da natureza divina”. Para isso Jesus fez-se carne (= homem): para morrer na carne e ser totalmente transfigurado-divinizado, tendo sua carne (= humanidade) totalmente assumida pelo Espírito Santo: “Morto na carne foi vivificado no Espírito” (1Pd 3,18). Tendo recebido o Espírito na sua natureza humana, ele o derramou sobre nós nos sacramentos, divinizando-nos (cf. At 2,32). Esta é a antiga teologia da divinização a que alude aqui São Basílio.

Artigos Relacionados:

relatedArticles
 

Fornecido por Joomla!. Designed by: Joomla 1.5 Template, database terminology. Valid XHTML and CSS.