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Padres da Igreja
Sáb, 23 de Maio de 2009 14:27

Catequeses para os recém-batizados – III  

O pão do céu e a bebida da salvação 

            “Na noite em que foi entregue, nosso Senhor Jesus Cristo tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e deu-o a seus discípulos, dizendo: ‘Tomai e comei: isto é o meu corpo’. Em seguida, tomando o cálice, deu graças e disse: ‘Tomai e bebei: isto é o meu sangue’” (Mt 26,26s; 1Cor 11,23s). Tendo, portanto, pronunciado e dito sobre o pão: “Isto é o meu corpo”, quem ousará duvidar? E tendo afirmado e dito: “Isto é o meu sangue”, quem se atreverá ainda a duvidar e dizer que não é sangue? 

            Recebamos, pois, com toda a convicção, o Corpo e o Sangue de Cristo. Porque sob a forma de pão é o corpo que te é dado, e sob a forma de vinho, é o sangue que te é entregue [1] . Assim, ao receberes o corpo e o sangue de Cristo, te transformas com ele num só corpo e num só sangue. Deste modo, tendo assimilado em nossos membros o seu corpo e o seu sangue, tornamo-nos, como diz São Pedro, “participantes da natureza divina” [2] (2Pd 1,4). 

            Outrora, falando aos judeus, dizia Cristo: “Se não comerdes a minha carne e não beberdes o meu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6,53). Como eles não compreenderam o sentido espiritual[3] do que lhes era dito, afastaram-se escandalizados, julgando estarem sendo induzidos por Jesus a comer carne humana. 

            Na Antiga Aliança havia os pães da propiciação; por pertencerem ao Velho Testamento, já não mais existem. Na Nova Aliança, porém, trata-se de um pão do céu e de um cálice da salvação que santificam a alma e o corpo. Assim como o pão é próprio para a vida do corpo, também o Verbo é próprio para a vida da alma. 

            Por isso, não consideres o pão e o vinho eucarísticos como se fossem elementos simples e vulgares. São realmente o corpo e o sangue de Cristo, segundo a afirmativa do Senhor[4]. Muito embora os sentidos te sugiram outra coisa, tem a firme certeza do que a fé te ensina. 

            Se foste bem instruído pela doutrina da fé, acreditas firmemente que aquilo que parece pão, embora seja como tal sensível ao paladar, não é pão, mas é o corpo de Cristo. E aquilo que parece vinho, muito embora tenha esse sabor, não é vinho, mas é o sangue de Cristo[5]. Antigamente, bem a propósito, já dizia Davi nos salmos: “O pão revigora o coração do homem, e o óleo ilumina a sua face” (Sl 103,15). Fortifica, pois, teu coração, recebendo esse pão espiritual e faze brilhar a alegria no rosto de tua alma. 

            Com o rosto iluminado por uma consciência pura, contemplando como num espelho a glória do Senhor, possas caminhar de claridade em claridade, em Cristo Jesus, nosso Senhor, a quem sejam dadas honra, poder e glória pelos séculos sem fim. Amém.


 

[1] Note-se bem com já nas origens a Igreja insistia claramente sobre a real presença do Cristo morto e ressuscitado nas espécies eucarísticas do pão e do vinho!

[2] Aqui há duas idéias preciosas dos cristãos da antiguidade: (a) a união com Cristo na Eucaristia nos cristifica, isto é, nos transforma em Cristo, dando-nos a sua Vida, que é o seu Espírito Santo: “te transformas com ele num só corpo e num só sangue”; (2) ao recebermos nos sacramentos a Vida, que é o Espírito Santo do Cristo morto e ressuscitado, somos divinizados, isto é, recebemos a própria natureza divina e podemos, com toda a verdade, chamar de Pai o nosso Deus. Aqui aparece com toda clareza a insuficiência da idéia protestante que a fé e o Batismo não nos renovam de fato, mas apenas faz com que Deus não mais considere os nossos pecados. Para os católicos tanto romanos como ortodoxos, o Batismo nos renova realmente e nos dá o perdão dos pecados, dando-nos participar da natureza divina; para os protestantes, ao invés, a fé – e só a fé – faz com que Deus não mais me impute os pecados, que, na realidade, permanecem em mim... Este nunca foi o pensamento da Igreja de Cristo.

[3] “Sentido espiritual” não quer dizer sentido figurado, mas sentido no Espírito Santo, “sentido espirituado”: “O que nasce da carne é carne; o que nasce do Espírito é espírito!” (Jo 3,6); “O Espírito é que vivifica; a carne para nada serve. As palavras que vos disse são Espírito e vida” (Jo 6,63). Tanto falando do Batismo como da Eucaristia, Jesus insiste que a carne (a natureza humana entregue a si mesma) não pode ser princípio de salvação e vida nova, vida divina. Somente recebendo o Espírito que ele dará após a ressurreição, podemos ter uma vida nova, experimentar de modo novo e compreender de um modo novo.

[4] A partir da Idade Média, para refutar as heresias, a Igreja deu o nome de transubstanciação à transformação do pão no Corpo verdadeiro do Senhor e do vinho no seu verdadeiro Sangue.

[5] Estejamos atentos: não cremos que Cristo está no pão e no vinho; cremos que o próprio pão e o próprio vinho são tornados o próprio Cristo morto e ressuscitado, de modo que, falando rigorosamente, as espécies eucarísticas não são mais pão e vinho, mas Corpo e Sangue de nosso Senhor.

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