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| Perguntas do Internauta |
| Dom, 24 de Maio de 2009 15:56 |
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Todos sabemos que o batismo de Jesus é histórico, isto é, realmente aconteceu. Quando, porém ,lemos o relato que os Evangelhos fazem, vemos que se trata de três versões distintas. Com efeito, enquanto Mateus diz que João Batista não queria batizá-lo e lhe opôs resistência (cf. 3,13-17), Marcos afirma que o batizou sem nenhum problema (cf. 1,9-11), João, por sua vez, silencia totalmente, como se o batismo não tivesse existido. E Lucas o menciona só de passagem. De acordo com Marcos,a visão dos céus e a escuta da voz que se seguiram após o batismo tinham sido percebidas só por Jesus, entretanto para Mateus todos os presentes viram os céus se abrirem e todo o povo ouviu a voz de Deus que agora não mais dizia "Tu és meu Filho", como Marcos, mas " Eis meu Filho...",dirigindo-se a todos. Já Lucas não mencionou quem batizou Jesus: "Quando todo o povo ia sendo batizado, também Jesus o foi...” (3,21-22). E têm-se, a impressão que Lucas queria insinuar que não foi João Batista quem batizou Jesus. Pois, um versículo antes, havia contado que no momento em que Jesus se fazia batizar, João Batista estava preso em cárcere por ordem do rei Herodes (cf. 3,20). Por último, o também apóstolo João não menciona o batismo de Jesus, somente o supõe. “No dia seguinte, João Batista viu Jesus que vinha a ele e disse: ‘Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo’” (1,29). João havia declarado: "Vi o Espírito descer do céu em forma de pomba e repousar sobre Ele" (1,32); " Eu o vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus" (cf. 1.34). E, para concluir, temos em Mt 11,2-3: “Tendo João, em sua prisão, ouvido falar das obras de Cristo, mandou-lhes dizer pelos seus discípulos: Sois vós aquele que deve vir, ou devemos esperar por outro?” Pergunto: a) Por que narrações diferentes do batismo de Jesus? b) Por que João Batista mesmo já tendo reconhecido Jesus como o Cordeiro de Deus (cf. Jo 1,29), envia seus discípulos a perguntar a Jesus se é ele que deve vir, ou se devem esperar por outro? Por que a dúvida de João Batista? Não deveria mandar perguntar a Jesus: "És tu aquele a quem batizei? E não se ele era o Messias? Ou ele não batizou Jesus, como insinuou Lucas? (Rosivaldo Soares) Parabéns pela perspicácia. Primeiramente, você deve ter bem presente que os evangelhos não são uma biografia de Jesus nem muito menos uma reportagem sobre o mesmo. Entre os acontecimentos e os evangelhos houve pelo menos trinta anos de pregação oral da Igreja – Jesus morreu e ressuscitou pelo ano 30 e o primeiro escrito do Novo Testamento foi a Primeira Carta aos Tessalonicenses, no ano 51; o primeiro evangelho escrito foi o de São Marcos, por volta de 64. Absolutamente surpreendidos pela Ressurreição e iluminados pelo dom do Espírito, os Apóstolos foram compreendendo em profundidade o sentido dos eventos e palavras de Jesus, numa perspectiva totalmente nova, só possível agora, à luz da Páscoa. Ora, os Apóstolos usavam tudo quanto Jesus disse e fez na catequese, de modo livre e criativo. Não inventavam, mas adaptavam ao auditório para passar uma mensagem viva e interpeladora sobre Jesus. Os evangelhos não são narrativas objetivas! São narrativas apaixonadas destinadas a provocar paixão, a nos fazer penetrar no mistério que não pode ser capturado nem transmitido por uma linguagem simplesmente racional e fria. Jesus foi batizado sim por João; mas o fato é interpretado e transmitido em função de quatro teologias diferentes. Cada evangelista conta o mesmo fato querendo passar um ensinamento diferente, enfatizando uma ou outra dimensão do mistério de Cristo. Por isso os detalhes das narrativas são totalmente diferentes. Há muitas passagens dos Evangelhos assim. Por exemplo: o Sermão da Montanha em Mateus, em Lucas foi feito numa planície; os dois cegos de Jericó de Mateus, em Marcod era um só; a ovelha transviada de Mateus é transformada na ovelha perdida em Lucas, etc... Quanto à segunda questão, esta sim é belíssima! João reconhecera que Jesus era o Messias. Só que havia muitas imagens de Messias em Israel: uns esperavam um Messias dominador político, outros um Messias legalista, outros ainda um Messias curandeiro e milagreiro, outros um Messias sacerdotal que purificasse o culto e o sacerdócio. Somente um grupo pequeno (os pobres de IHWH) esperavam um Messias pobre e humilde. João - veja pela sua pregação - esperava um Messias santo, justo, reto, justiceiro e juiz, que viria com a pá e a foice! Note que Jesus não corresponde totalmente a essa expectativa. João entra em crise! "És tu mesmo ou devemos esperar outro?" Jesus responde: "Sou eu: vê os sinais que realizo: são os que os profetas indicaram!" E acrescenta: “Feliz de quem não se escandalizar por minha causa; feliz de quem me aceitar como eu sou e não como a encomenda!" É belíssimo: na prisão, João realiza sua última conversão, sua última pobreza, sua última adesão a Deus, aceitando o Messias como ele é e não como ele desejaria. É o mesmo caminho que todos nós temos de fazer a vida inteira, já que Cristo sempre nos surpreende e nunca é o nosso Cristo de encomenda... Diante dele, muitos perdem a fé; outros, como João, se convertem a cada dia, aceitando sempre Jesus como ele é, como ele se dá, como ele se manifesta. Estes, como João, verão a glória de Deus.Artigos Relacionados: |
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