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Perguntas do Internauta
Dom, 24 de Maio de 2009 22:03


A vontade de crer vem de Deus - é graça.... Corremos o risco de não receber a graça para encontrá-Lo ? (Célia)

            A resposta para a sua pergunta é complexa e já provocou tantas e tantas controvérsias na teologia. Vou respondê-la expondo algumas afirmações que são pontos seguros e indiscutíveis na doutrina sobre a graça: 

(1) Tudo de bom que pensamos, desejamos, empreendemos e concluímos com perseverança vem da graça de Deus; é dom que ele nos faz: “É Deus quem opera em vós o querer e o operar, segundo a sua vontade” (Fl 2,13). Assim, está correta a sua afirmação: a vontade de crer vem de Deus. Um antigo documento da Igreja do século V, chamado Indiculus Caelestini, diz assim: “Deus opera de tal modo no coração dos homens e no próprio livre arbítrio, que todo santo pensamento, todo piedoso conselho e qualquer ação de boa vontade são vindos de Deus, porque por meio dele podemos tudo de bom, sem ele nada podemos”. 

(2) Uma outra coisa importantíssima: “Deus, nosso Salvador... quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,3s). Então, já daqui fica clara uma primeira resposta à sua questão: Deus concede a graça a todo ser humano, sem exclusão! 

            O problema, no entanto, é o seguinte: se Deus dá a graça a todos, e se aceitar a graça também é graça de Deus - pois é Deus quem nos dá o querer e o realizar -, como alguns acolhem a graça e outros não? Como conciliar isso com o fato que Deus quer a salvação de todos?

            É preciso, então, deixar claro mais um ponto importantíssimo: 

(3) A graça de Deus jamais sufoca a liberdade humana, jamais a elimina, mas, pelo contrário, torna-a mais robusta e livre. Ainda aquele documento que já citei, o Indiculus, diz assim: “Certamente, o livre arbítrio não é submerso pela ajuda ou dom de Deus, mas, ao contrário, é libertado, de modo que, de tenebroso, torna-se luminoso, de doente, torna-se sadio, de imprudente, torna-se sábio”. Então, estamos diante de um mistério. Deus, com a sua graça, torna o homem ainda mais livre, mais capaz de discernir, mais sábio... e, no entanto, ainda assim, o homem pode dizer “não”. Se ele disser “sim” foi porque foi dócil à graça que agiu nele; se disser “não” é porque agiu somente por ele mesmo, fechando-se à graça. Mas, se disse “sim”, foi somente pela graça de Deus. 

            Repito: jamais vamos compreender esse mistério! Uma coisa é certa: Deus age no mais íntimo de nós, suscitando sempre o bem; por outro lado, nos respeita infinitamente. Procuremos, então, colocar toda a confiança na graça misericordiosa de Deus e, ao mesmo tempo, com a sua graça, nos esforçar sinceramente na busca e realização do bem. Como diz São Paulo: “Pela graça de Deus sou o que sou: e sua graça a mim dispensada não foi estéril” (1Cor 15,10). O que Paulo é, o é pela graça; mas, poderia ter inutilizado a graça, não lhe correspondendo e, então, a graça teria nele sido estéril. No entanto, se correspondeu, foi por graça de Deus! Insisto: jamais iremos compreender estes dois pólos: a absoluta primazia da graça de Deus em Cristo, por um lado, e a real liberdade humana, por outro...

            Basta sabermos que a todos Deus dá a possibilidade da salvação... e que cuidemos de não receber em vão tamanho dom, tamanha graça!

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