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O Sacramento da Ordem - IV PDF Imprimir E-mail
Ordem
Seg, 29 de Dezembro de 2008 16:27

Pe. Henrique Soares da Costa

Ainda sobre o Sacramento da Ordem, veremos no presente artigo como se pode falar em sacerdotes na Igreja quando o Novo Testamento afirma que todos os batizados são um povo de sacerdotes. Esta crítica os protestantes fazem a nós católicos. Têm eles razão. Claro que não! Mas, vejamos!

Referindo-se a Cristo, o Apocalipse diz: “Àquele que os ama, que por seu sangue nos libertou de nossos pecados e que fez de nós um reino de sacerdotes para seu Deus e Pai, a ele a glória e o poder, pelos séculos dos séculos. Amém” (Ap 1,5b-6). Mais adiante, o mesmo Apocalipse afirma, falando a Cristo: “Fizeste para o nosso Deus um reino de sacerdotes” (Ap 6,10).

No caso, aqui, os sacerdotes são os cristãos “de toda tribo, língua, povo e nação” (v. 9). Na mesma linha move-se a Primeira Epístola de São Pedro: “Também vós, como pedras vivas, formai um edifício espiritual, um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo!” (2,5). O sentido desta exortação é belíssimo: pelo Batismo todo cristão é membro do Corpo de Cristo, que também é Templo do Espírito. Pois bem, este Templo, este edifício espiritual (quer dizer, no Espírito) somos nós, a Igreja. E todos os membros da Igreja somos um povo sacerdotal, temos, em Cristo, um sacerdócio santo, pois no Espírito Santo de Cristo, participamos do seu sacerdócio único e perfeito e, unidos a Cristo, participamos do único sacrifício sacerdotal de Cristo, oferecendo sacrifícios espirituais (quer dizer, sacrifícios na força do Espírito Santo) por meio de Jesus para a glória do Pai! Todos os atos do cristão, todos os seus sofrimentos, toda a sua vida, quando unidos a Cristo, são participação na oferta sacrifical de Cristo! Ainda um outro texto, também da Primeira Epístola de São Pedro: “Vós sois a gente escolhida, o sacerdócio régio, a nação santa, o povo que ele conquistou...” (2,9). Mais uma vez a mesma idéia: todo o povo de Deus é povo sacerdotal, povo conquistado por Deus em Cristo Jesus! Todo este povo tornou-se sacerdotal no sacramento do Batismo. Em outras palavras: pelo sacramento do Batismo tornamo-nos todos participantes do único sacerdócio de Cristo. Então, como se pode afirmar que exista um outro sacramento, a Ordem, que confere um caráter sacerdotal aos Bispos e Presbíteros? Cristo não possui dois sacerdócios, mas um só! E agora? Lutero e os protestantes negam decididamente o sacramento da Ordem: para eles, todo o povo de Deus é formado por sacerdotes! No entanto, a Tradição Apostólica da Igreja, guardada cuidadosamente por católicos e ortodoxos desde o princípio, não pode estar de acordo com Lutero e os protestantes! Vejamos.

Já no Antigo Testamento, todo o povo de Israel era um povo sacerdotal: “Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa. São essas as palavras que deverás dizer aos israelitas” (Ex 19,6). No entanto, o meio desse povo sacerdotal, o Senhor escolheu uma tribo particular para exercer, em nome do povo sacerdotal, este sacerdócio que é de todos: “O Senhor falou a Moisés: “Fui eu que escolhi os levitas do meio dos israelitas... Os levitas são meus (Nm 3,11.12). Entreguei os levitas a Aarão e a seus filhos como doação da parte dos israelitas, para atuarem nas funções litúrgicas dos israelitas na tenda do encontro e por eles fazerem expiação” (Nm 8,19). A idéia é, portanto, bem clara: Israel é povo sacerdotal e, no meio desse povo, há uma tribo que é especialmente sacerdotal e está a serviço do sacerdócio do povo todo: pelo sacerdócio dos levitas o povo de Israel exerce o seu sacerdócio. Ora, no Novo Testamento também há um povo sacerdotal, a Igreja e, no meio deste povo, os ministros ordenados exercem em nome do povo e em benefício desse mesmo povo o sacerdócio de Cristo, único sacerdote da Nova Aliança. Mas, como se dá isso? Qual a diferença no exercício do sacerdócio de todo o povo para o sacerdócio dos ministros sagrados? Vejamos bem, porque é importante compreender isso! No Novo Testamento o único sacerdote, eterno e perfeito, puro e santo, é Cristo Jesus. Todos nós, cristãos, pelo Batismo, recebemos o Espírito Santo que nos une ao Cristo (cf. o que vimos sobre o sacramento do Batismo). Pois bem, sendo membros do corpo de Cristo, que é a Igreja, participamos do seu sacerdócio: é ele quem reza e age em nós, é ele quem louva e intercede ao Pai em nós! Mas, Cristo, o eterno sacerdote, cabeça da Igreja, está no céu. Existe na Igreja um ministério, querido e instituído por ele no grupo dos Doze e de seus sucessores, que torna presente, que representa o Cristo Cabeça no meio do Corpo da Igreja, povo sacerdotal: são os Bispos e presbíteros! Imaginemos a Igreja, povo sacerdotal, reunido para oferecer o sacrifício de Cristo na Eucaristia: na assembléia é todo o povo sacerdotal que está reunido, é o Corpo de Cristo exercendo o seu sacerdócio... O ministro sagrado é torna sacramentalmente presente o Cristo Cabeça que faz agir o povo sacerdotal, ele “re-presenta” o Cristo Cabeça da Igreja! Agora sim, a assembléia exercendo o sacerdócio do Corpo de Cristo e o ministro sagrado tornando presente o Cristo Cabeça desse Corpo exercem o único sacerdócio de Cristo. Há, então dois modos distintos essencialmente, de participar do único sacerdócio do Senhor Jesus Cristo: pelo Batismo todos os fiéis participam do Corpo sacerdotal de Cristo; pelo sacramento da Ordem, os ministros sagrados são configurados para agir na Pessoa de Cristo Cabeça da Igreja! Sacerdócio do Corpo, sacerdócio da Cabeça, ambos único sacerdócio de Cristo!

Os protestantes, então, de modo nenhum têm razão em pensar que o único sacerdócio do povo de Deus é ferido pela existência do ministério ordenado. É a unção do único Espírito de Cristo que, no Batismo nos faz povo sacerdotal e, na Ordem, configura os ministros sagrados ao Cristo Cabeça. Quão grande, quão suave, quão versátil é o Espírito que sopra onde quer, com o qual o Cristo ungiu a sua Igreja!

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