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O Sagrado e o Santo nos Sacramentos (Inos Biffi) PDF Imprimir E-mail
Variedade
Seg, 29 de Dezembro de 2008 19:13
Caro Leitor meu, com imenso prazer apresento-lhe este texto do teólogo italiano Inos Biffi. Este belíssimo artigo apareceu na edição italiana do jornal da Santa Sé, L’Osservatore Romano de 29 de agosto, com o título “O sagrado e o santo nos sacramentos cristãos”. É uma leitura que deve causar reflexão...

O “santo” e o “sagrado”: falemos deles numa perspectiva cristã, para observar imediatamente que o valor absoluto é o “santo”, ou seja, o estado de graça, de comunhão com Cristo, de vida segundo o Espírito. Para um cristão não há nada que valha e seja tão definitivo quanto a santidade, que é a razão mesma da existência do homem, criado para ser conforme ao Filho de Deus (Rm 8,29), no qual foi escolhido para ser “santo e imaculado” (Ef 1,4).

A graça, destinada a cumprir-se na glória, é uma propriedade que marca a pessoa, que lhe pertence e a qualifica; ela não serve para algo de ulterior, não é uma qualidade passageira ou provisória, nem uma condição que serve de meio, mas é feita para permanecer e ser definitiva e conclusiva, como fim último.

Modelo original e completo da santidade cristã é Jesus Cristo; a humanidade perfeitamente santa é a sua humanidade, a cuja plenitude todos somos chamados a participar.

Diferente, ao invés, é o valor do “sagrado”. Ele possui uma função mediadora. No âmbito cristão podemos reconhecer assim de tudo como realidade sacra os sacramentos e, por assim dizer, tudo quanto é deles irradiação e imitação, os “santos sinais”, diria Romano Guardini, ou as coisas sagradas: o espaço, o tempo, os edifícios, os objetos, o canto, as figuras, as pessoas, os livros... Dir-se-ia toda uma “estética” sacra. Eles não detêm em si e não são fechados em si: diversamente da santidade, são mediadores e funcionais. Mas, é necessário uma precisa articulação.

Com respeito aos sacramentos, é iluminante a distinção que faziam os teólogos medievais – cujo princípio encontra-se já em Agostinho – que lhes permitia colocar em luz os “estratos” ou os “níveis” dos próprios sacramentos.

Eles falavam dos sacramentos distinguindo antes de tudo o nível visível, celebrativo, chamado, com expressão técnica, sacramentum tantum; segue-se, depois, um segundo nível, aquele da “virtude” do sacramento, que na Eucaristia corresponde à presença real do Corpo e do Sangue do Senhor, para atingir um terceiro nível, aquele da res do sacramento, nós diríamos do seu efeito, que no caso da Eucaristia equivale à participação com a caridade de Cristo ou à comunhão e unidade eclesial sem a qual a pura sacramentalidade ou vsibilidade celebrativa e a própria presença objetiva de Jesus Cristo seriam desprovidas do seu sentido último e da sua finalidade, sendo em si mesmas válidas, mas resultando “ineficazes” ou sem conseqüência em quem as realiza ou delas toma parte.

E aqui retorna o tema do “santo”: o sacro sacramentalmente é “válido” se o seu êxito é a santidade cristã, isto é, a caridade de Cristo, que é a substância do sacrifício da Cruz, presente realmente na Eucaristia e “virtualmente” nos outros sacramentos.

Portanto, no caso dos sacramentos, o sagrado corresponde ao rito, que não tem em si a sua razão de ser, todo orientado como é à santidade como ao próprio fim.

Eis por que o fim procurado não é a repetição ritual, como não é a presença da força da paixão e nem mesmo do Cristo padecente, mas a sua adequação à finalidade de conformar a vida a Jesus Cristo e, por assim dizer, ao fim de ser santos.

Os sacramentos se “justificam” não como valores absolutos em si. Eles, como celebração, são passageiros e funcionais, como meios para a obtenção do fim, que é a santidade. Eles exprimem a nossa disponível dependência, ou a obediência da fé, que passa através dos sinais litúrgicos, mas não pára e não se conclui neles.

Indispensáveis no tempo da Igreja, são destinados a cessar na Vinda do Senhor. Paulo falava do anúncio da morte do Senhor “até que ele venha” (1Cor 11,16).

A santidade é escatológica; a ritualidade é temporal.

Por outro lado, sublinhar a intenção última dos sacramentos que é a santidade não significa menosprezar ou diminuir o valor da celebração, que encontra a sua gênese radicalmente na vontade de Cristo, que a instituiu para que se alcance a conformidade com ele.

Daqui segue o máximo cuidado com o rito litúrgico. Transcurá-lo ou secularizá-lo despojando-o das suas referências a Jesus Cristo, contestar o seu caráter sagrado – foi uma das não poucas loucuras do pós-concílio – significaria no fim das contas reconhecer na natureza e nas possibilidades do homem a fonte da justificação e, portanto, subtraí-lo da obra e da graça de Cristo.

É o aspecto que primeiramente deve aparecer na ritualidade e que a catequese e a pastoral litúrgica devem acima de tudo colocar às claras: a relação da celebração com o Senhor.

A esta altura, para fazer aparecer de modo claro a distinção entre santo e sagrado, pode ser pertinente uma reflexão sobre a pessoa “sagrada” do sacerdote, para observar que a ordem sacerdotal, que a caracteriza, não exprime e não produz por si mesma a santidade pessoal do ministro, que não age eficazmente por causa do seu estar em graça: a sacralidade que ele possui é o objetivo poder de Cristo que nele habita a serviço da santificação da Igreja. Sem o sacramento da ordem nem mesmo o membro mais santo do povo de Deus pode validamente presidir à Eucaristia e tornar presente, “representando o Cristo, o sacrifício da cruz.

Como sinais sagrados, todavia, não temos somente os sete sacramentos. Deles distintos, mas quase como que prolongamento ou “propagação” deles, temos todo o universo dos outros “santos sinais”, com os quais a Igreja circundou e enriqueceu as suas celebrações.

Ainda que estes sejam somente de instituição eclesial, mesmo com uma fundamentação no sentido religioso natural que é originariamente criador e pesquisador de símbolos; e ainda que estes não possuam a força salvífica dos sacramentos, são, todavia, uma evocação eloqüente de Jesus Cristo, são direta ou indiretamente uma transparência dele. A Igreja os assinalou com a sua autoridade e os orientrou ao Salvador, mesmo porque normalmente têm como fonte a Escritura e a história sagrada.

Também estes, que geralmente podemos chamar de “sacramentais”, possuem um valor objetivo e estão em função da santidade, pelos pensamentos espirituais que inspiram, os sentimentos religiosos que suscitam, a fé que alimentam e a contemplação que sustentam.

Constestá-los ou transcurá-los como superficiais, no preconceito segundo o qual tudo é igualmente sagrado, teria como conseqüência, ao fim das contas, a perda do próprio sentido da celebração cristã e da concepção da salvação como dom de Deus.

Certamente existe também o risco de uma supervalorização e de uma espécie de complacência ritual. Este, todavia, não é o risco do nosso tempo, quando, freqüentemente, celebra-se em qualquer lugar e de qualquer modo, de qualquer forma e com qualquer canto, e freqüentemente, com a conivência da banalização, e da feiúra; quando, por exemplo, os espaços e os edifícios, surgidos como casas de Deus e do seu Povo cristão, são violentamente endereçados a qualquer uso, disponibilizados para qualquer cátedra ou espetáculo, com o resultado de fazê-los perder a destinação para a qual foram construídos e, portanto, a mensagem que originariamente deviam transmitir.

Aquilo que havia surgido como um símbolo claro, incisivo e habitual, perde a sua identidade, torna-se confuso e desviante: o templo torna-se praça, ou faz-se teatro, e desse modo, com a ilusão de progredir, regride-se até à perda do sentido religioso natural.

Última atualização em Seg, 29 de Dezembro de 2008 19:16
 

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