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O Vaticano II na história dos Concílios PDF Imprimir E-mail
Variedade
Ter, 19 de Maio de 2009 20:13

Mons. Walter Brandmüller
Presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas - Roma

 Caro Internauta, ofereço-lhe este texto por ocasião dos quarenta anos do Concílio Vaticano II. Como você sabe, em nome de um tal "espírito do Concílio", fez-se e disse um monte de loucuras e bobagens na Igreja. O Concílio foi e é uma bênção; o que muitos fizeram dele foi uma desfiguração, uma deturpação e um enorme dano à Igreja. Seria interessante ler os textos conciliares... Por isso tudo isso, este artigo é interessante. Boa leitura.

            O Vaticano II (1962-1965) foi o Concílio dos superlativos. Nunca na história da Igreja um Concílio fora preparado com tanta intensidade. É verdade que também o Vaticano I (1869-1870) foi bem preparado e, provavelmente, a qualidade teológica dos seus esquemas preparatórios era até mesmo melhor. Mas, o número dos requerimentos e das propostas enviados de todo o mundo e a sua utilização no Vaticano II superaram o que existira nessa área até aquele momento. 

            O Vaticano II mostrou-se visivelmente o Concílio dos superlativos desde o número de 2440 bispos que entraram na Basílica de São Pedro. Se o Vaticano I, com os seus cerca de 642 Padres coube todinho no braço direito da Basílica, agora a assembléia conciliar ocupava toda a nave central. Em menos de um século a Igreja tinha se tornado realmente mundial. Também nunca se tinha verificado, como em 1962, que mil jornalista de todo o mundo fosse crendiaciados para cobrir o Concílio. Assim, o Vaticano II tornou-se também o Concílio mais conhecido de todos os tempos, tornando-se um evento midiático mundial de primeira grandeza. Enfim, das 1135 páginas que contém os decretos dos vinte Concílios ecumênicos, o Vaticano II ocupa sozinho cerca de 315, muito mais de um quarto delas. 

            Outras particularidade deste Concílio são dignas de nota. Os Concílios exercem as supremas funções magisteriais, legislativas, judiciárias, “sob e com o Papa”, a quem tais funções competem, mesmo sem Concílio. Mas, nem todos os Concílios exerceram todas estas funções. Se o I Concílio de Lião (1245) emanou leis e agiu como tribunal, excomungando e depondo o Imperador Frederico II, o Vaticano I não julgou nem legislou, mas deliberou exclusivamente sobre questões de doutrina. Por sua vez, Concílio de Vienne (1311-1312) julgou, emanou leis e decidiu questões de fé, e o mesmo fizeram os Concílios do século XV. O Vaticano II, ao invés, não julgou nem emanou leis e nem mesmo deliberou de modo definitivo sobre questões de fé. Na verdade, realizou um novo tipo de Concílio: um Concílio “pastoral”, que quis aproximar o Evangelho do mundo atual. De modo particular, não exprimiu condenações doutrinais, como sublinhou João XXIII no discurso de abertura: “A Igreja sempre se opôs às heresias. Frequentemente condenou-as com a máxima dureza”, enquanto hoje, “a Igreja prefere fazer uso da medicina da misericórdia” porque “crê que esta corresponda às exigências da época atual, preferindo mostrar a validez das suas doutrinas mais que exprimir condenações”. Mas, à luz dos sucessivos desenvolvimentos históricos, o Vaticano II teria revelado ser mais clarividente se, seguindo os passos de Pio XII, tivesse tido a coragem de condenar expressamente o comunismo. No entanto. Ao invés, o temor de pronunciar condenações doutrinais e definições dogmáticas fez com que os textos conciliares sejam muito diversificados entre si. Por exemplo: as constituições dogmáticas “Lumen Gentium” sobre a Igreja e “Dei Verbum” sobre a revelação divina possuem o caráter e a natureza de documentos doutrinais, mas sem definições vinculantes, enquanto, segundo o canonista Klaus Mörsdorf, a declaração “Dignitatis Humanae” sobre a liberdade religiosa “toma posição sem um conteúdo normativo evidente”. Os textos do Vaticano II têm, portanto, um grau muito diferenciado de obrigatoriedade, e também isto é um elemento novo na história dos Concílios. 

            Mais: se se compara o Vaticano II com o I Concílio de Nicéia (325), com o Concílio de Trento (1545-1563) e com o Vaticano I, tendo em conta as respectivas conseqüências, salta à vista que depois dos dois Concílios Vaticanos houve um cisma: em 1871 aquele dos “velhos católicos”, protestando contra as definições do primado e da infalibilidade do papa e, em 1988, aquele do arcebispo Lefebvre e dos seus seguidores. Mesmo parecendo opostos, os dois movimentos concordam na rejeição dos legítimos desenvolvimentos na doutrina e na vida da Igreja, rejeição fundamentada numa relação distorcida com a história. E depois do I Concílio de Nicéia (325) começaram lutas religiosas que cresceram em violência e aspereza por mais de um século antes que o Concílio de Calcedônia (451) conseguisse estabelecer a doutrina de Nicéia. Pode-se fazer uma comparação também com o Concílio de Trento, que produziu um extraordinário florescimento missionário, religioso e cultural na Europa que permaneceu católica – o “milagre de Trento”, do qual falou o famoso historiador Hubert Jedin. Mas este florescimento não de manifestou de uma vez só. Concluído o Concílio, passou-se quase um século antes que os seus decretos dogmáticos e a reforma que eles traziam mostrassem eficácia em larga escala. 

            Quase todo Concílio e, naturalmente, também o Vaticano II, por estrutura, desenvolvimento e conteúdo possui a sua inconfundível peculiaridade, mas tem em comum com todos os outros o fato que sob o aspecto formal em cada um exercitou-se colegialmente a suprema autoridade doutrinal e pastoral. Do ponto de vista dos conteúdos, trata-se da apresentação, da interpretação e da aplicação da Tradição, à qual cada Concílio dá a sua contribuição específica. Obviamente, isto não pode consistir num acréscimo de novos conteúdos ao patrimônio da fé da Igreja. E muito menos pode ser uma eliminação das doutrinas transmitidas até aquele momento. Trata-se, antes, de um processo de desenvolvimento, clarificação e distinção que se vai realizando, com a assistência do Espírito Santo e, através desse processo, cada Concílio, com o seu definitivo anúncio doutrinal, se insere na Tradição da Igreja como um todo como uma parte integrante. Por isso, os Concílios olham sempre adiante, para um anúncio doutrinal mais amplo, mais claro, mais atual... Jamais voltam atrás na doutrina. Um Concílio não pode contradizer os seus antecessores, mas somente integrar, explicar melhor, prosseguir. 

            Tudo isso vale também para o Vaticano II. Também este não é mais nem menos que um Concílio entre outros, ao lado de outros e depois de outros, não acima nem fora, mas no interior da série dos Concílios ecumênicos da Igreja. O próprio Vaticano II reconhece a sua colocação na linha da Tradição. A quantidade de referências à Tradição nos textos do Vaticano II é impressionante. O Concílio acolhe difusamente a Tradição citando os Concílios, em particular o de Florença (1439-1442), o de Trento e o Vaticano I, as encíclicas de numerosos Papas, a literatura patrística e os grandes teólogos, primeiramente entre todos São Tomás de Aquino, como fontes nas quais beber. 

            O Cardeal Joseph Ratzinger, em um encontro há alguns anos, falou de “um isolamento obscuro do Vaticano II” e disse: “Algumas descrições dão a impressão que depois do Vaticano II tudo tornou-se diferente e tudo que existiu antes não pudesse mais ser levado em conta ou pudesse sê-lo somente à luz do Vaticano II. O Vaticano II não é tratado como uma parte no todo da Tradição da Igreja, mas como um início totalmente novo. Apesar de não ter proclamado nenhum dogma e ter desejado ser modestamente um Concílio pastoral, alguns o apresentam como se fosse o super-dogma que torna todo o resto irrelevante”, enquanto, na verdade, “somente poderemos fazer o Vaticano II digno de fé se o apresentarmos muito claramente assim como ele é: uma parte da Tradição única e total da Igreja e da sua fé”. 

            Com efeito, nos anos pós-conciliares era moda comparar a Igreja a um canteiro no qual se faziam demolições e novas construções ou reconstruções. Freqüentemente, a ordem de Deus a Abraão de partir de sua terra era interpretada como uma exortação à Igreja para abandonar o seu passado e a sua Tradição. Falava-se com entusiasmo de partida da barca de Pedro e da sua viagem para novas águas. Propagava-se a partida em direção ao desconhecido, ao distante, ao novo e a palavra Tradição tornara-se um insulto. Ao contrário, é necessário insistir com força que uma interpretação do Vaticano II fora da Tradição estaria em contraste com a essência da fé. Neste horizonte, também a distinção tão em moda entre “pré-conciliar” e “pós-conciliar” é muito dúbia no plano teológico e no histórico. Um Concílio não é jamais um ponto de chegada ou de partida sobre o qual se possa dividir a histórica da Igreja ou, pior, a história da salvação. 

            Haverá um Vaticano III? Não surpreende que alguns já tenham pedido tal coisa, mesmo que com objetivos opostos. Segundo alguns, deveria reunir-se um novo Concílio que finalmente derrubasse as barreiras, realizasse a democratização da Igreja, consentisse o acesso aos sacramentos àqueles que depois de um matrimônio fracassado contraíram nova união, abrisse o caminho para o matrimônio dos sacerdotes e o sacerdócio feminino e levasse à reunificação os cristãos divididos. Outros pensam que a confusão e a crise do turbulento período pós-conciliar exigiriam urgentemente um Vaticano III que troussesse ordem e orientação. Uma coisa é certa: mesmo um novo eventual – talvez em Nairobe ou em Moscou – colocar-se-ia na linha da Tradição e seria somente um outro elemento desta venerável série. Em todo caso, o Vaticano II não foi nem o início nem o fim da história conciliar e temos a missão de colocá-lo em prática, antes de falar do futuro.

 

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Última atualização em Sex, 22 de Maio de 2009 20:59
 

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