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A Eucaristia (Taizé) PDF Imprimir E-mail
Variedade
Sex, 22 de Maio de 2009 21:02


 

Caro Internauta, você já conhece Taizé, a Comunidade monástica ecumênica fundada pelo Ir. Roger. Taizé abriga religiosos católicos e protestantes. Eis que artigo belíssimo sobre a Eucaristia, escrito pelos membros da Comunidade! Pena que os protestantes daqui do Brasil não saibam essas coisas...

 

O que quis Jesus exprimir ao deixar-nos a Eucaristia? 

            O coração da mensagem cristã é o anúncio da comunhão, uma vida partilhada com Deus que tem como conseqüência a solidariedade entre as pessoas, todas filhos e filhas de um mesmo Pai. Na sua vida na terra, vivida como qualquer um de nós, Jesus não se limitou a convidar as pessoas a abrirem-se a esta mensagem; concretizou-a na sua própria existência: «Desci do Céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade daquele que me enviou é esta: que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu, mas o ressuscite no último dia» (Jo 6,38-39). Se toda a existência de Jesus é uma vida para Deus e para os outros, é sobretudo o fim da sua vida terrena, a sua morte na cruz, que testemunha em plenitude o dom de si próprio, levado ao extremo. Transfigurada pelo poder do Espírito quando da ressurreição, esta existência doada tornou-se o fundamento de uma vida de comunhão para todos. 

            Na véspera de morrer, Jesus realizou um gesto para exprimir o sentido da sua vida e da sua morte. Durante uma refeição festiva, toma pão e benze-o dizendo as seguintes palavras: «Isto é o meu corpo, entregue por vós». Depois, no fim da refeição, benze um cálice de vinho dizendo: «Isto é o meu sangue, derramado por vós». Os discípulos tomaram e consumiram o que Jesus lhes deu. Este gesto de Jesus torna presente, com uma densidade extraordinária, o centro escaldante da nossa fé. Na Bíblia, partilhar o pão com alguém é expressão de uma partilha de vida. Os convidados sentados à volta da mesma mesa formam uma família virtual, reconhecendo-se como irmãos e irmãs. Mas aqui, o que cria a unidade entre os convivas é o próprio Jesus. Não só convida para a sua mesa e preside à refeição, mas dá-se como alimento que comunica a todos uma mesma Vida. «A minha carne é uma verdadeira uma comida e o meu sangue uma verdadeira bebida. Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele» (João 6,55-56). 

            Ao dar a sua vida por nós, Jesus oferece-nos assim a possibilidade de entrarmos numa comunhão com ele e, por conseguinte, entre nós. Se, no plano humano, a alimentação e a bebida são assimiladas por aquele que come e bebe, pela comunhão com o corpo e com o sangue de Cristo é ele que nos assimila a si próprio: Tornamo-nos naquilo que consumimos, o Corpo de Cristo (cf. 1Cor 10,17), prolongamento da presença ativa de Cristo no mundo. A Eucaristia manifesta, no plano sacramental, o sentido profundo da morte e da ressurreição de Cristo: uma comunicação desta Vida, que consiste numa comunhão com a Fonte de toda a vida e que faz de nós uma só família, um só corpo. 

A Eucaristia será mais do que a repetição de um ato do passado? 

            Aos seus discípulos reunidos para a última ceia, Jesus diz: «Fazei isto em minha memória» (Lc 22,19). Obedecendo a esta sugestão, desde há dois mil anos que os cristãos continuam a lembrar-se, na sua liturgia, do dom da vida feito por Jesus. A celebração da Eucaristia olha para o passado e mantém-no presente como uma fonte no seio da comunidade cristã. 

            Mas esta celebração é muito mais do que uma simples lembrança de coisas passadas. A expressão «em memória», em hebreu «zikkaron», não significa um ato de memória humana para salvar um acontecimento passado do esquecimento. É sim Deus que, no culto, conserva no presente do povo as suas «maravilhas» passadas, ou seja os seus atos poderosos de misericórdia e de salvação. Assim, cada vez que Israel celebra a festa da Páscoa, o acontecimento da libertação do Egito torna-se-lhe contemporâneo: o Deus libertador está ainda presente e a agir entre os fiéis. 

            Com mais razão ainda, visto que Jesus ressuscitou dos mortos e, portanto, está eternamente vivo, a sua presença nunca falta no seio da comunidade dos seus discípulos. Está presente enquanto Crucificado que é igualmente Ressuscitado, realidade que é maravilhosamente expressa no livro do Apocalipse pela imagem do «Cordeiro de pé, que parecia ter sido imolado» (cf. Ap 5,6). Esta presença encontra o seu ponto culminante na Eucaristia, onde os crentes entram em comunhão com Cristo na sua passagem da morte à vida. 

            E como o mistério pascal desagua no dom do Espírito «sem medida» (cf. Jo 3,34), a Eucaristia é igualmente a presença do Ressuscitado que nos reúne hoje à volta da sua mesa, para nos enviar como suas testemunhas sobre os caminhos do mundo. Nos Atos dos Apóstolos, a vida dos primeiros cristãos conhece duas dimensões que exprimem como que o bater do seu coração: por um lado são chamados à união, por outro lado são por sua vez enviados aos outros para exprimirem e convidarem a uma comunhão mais lata. A celebração da Eucaristia inclui estes dois aspectos do chamamento e do envio, de encontro e de missão. Ou seja, a Eucaristia é uma antecipação do grande banquete celeste, onde todos os povos formarão uma só família em Deus (ver Isaías 25, 6-9). Quando da sua última refeição, não disse Jesus: «já não voltarei a comer (esta Páscoa) até ela ter pleno cumprimento no Reino de Deus» (Lc 22,16)? Ao representar esse futuro absoluto, a liturgia, «memória de futuro», dá-nos um antegosto da alegria de Deus ainda na terra. Assim, a celebração da Eucaristia une passado, presente e futuro num gesto de uma simplicidade desarmante, que alimenta a nossa peregrinação no seguimento de Cristo, tal como o maná celeste no passado alimentou o povo de Israel no deserto (cf. Jo 6,30ss).

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