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Um Rosto para Jesus PDF Imprimir E-mail
Variedade
Dom, 24 de Janeiro de 2010 23:07

Eis um trecho da conferência do jornalista e escritor judeu Alain Elkann no Congresso sobre Cristo e as religiões do mundo, realizado em outubro de 2005, em Roma.

O Cristo está presente hoje em todos os continentes do mundo. Às vezes a religião cristã é hegemônica, às vezes é minoria. Em certos casos, é quase a religião oficial de um país, em outros sofre e vive quase na marginalidade; e, em sua longa história bimilenar, foi também muitas vezes objeto de duras discriminações e perseguições.

Jesus se manifesta por meio dos homens e das mulheres, religiosos e às vezes leigos, que são a Igreja e suas ordens religiosas. Sendo assim, por meio deles e de suas tarefas, vive certamente um Cristo que se transforma em gestos de culto, de caridade, de auxílio na área da saúde, iniciativas de escola, de pesquisa, de assistência social, de voluntariado. Certamente, é em nome de Jesus e do Evangelho que muitíssimos homens e mulheres de fé trabalham para ajudar os outros, para aplicar a caridade cristã, para confessar quem precisa, para socorrer quem está mal, para estar perto de quem tem medo porque está doente ou à beira da morte, para penetrar nos cárceres e falar com quem quer ou procura se arrepender.

Depois de Jesus surgiu a Igreja, que, acredito, tenha a tarefa de fazer encontrar a presença de Deus e de seu Filho em cada ponto da vida cotidiana. É claro que na história de uma organização tão antiga como a Igreja existem, no meu modo de ver, momentos obscuros, como o período da Inquisição, períodos históricos mais turvos do que outros, mas eu prefiro pensar na Igreja de hoje e não na de ontem. Nos papas que vi trabalharem durante a minha vida: João XXIII, Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI. Era muito pequeno quando Pio XII ainda vivia, e dele só lembro imagens televisivas ou fotografias em preto e branco. Mas acredito que sob esses papas se fez um grande caminho, e eu não tive medo de perder minha identidade judaica ao buscar encontrar muitas vezes ao longo de minha vida o mundo católico. O Cristo, assim, de certa forma é parte da minha vida desde a infância. Irmã Paulina vinha me dar injeções quando eu era um menino pequeno, mais tarde foi irmã Juliana que me fez conhecer por meio de sua alma profunda e serena as realidades do Cottolengo de Turim. Irmã Germana me ajudou, por sua vez, a trabalhar com sua eminência o cardeal Carlo Maria Martini na redação do nosso livro, “Cambiar il cuore”. Um padre rosminiano me hospedou em seu colégio no Vale d’Aosta quando eu estudava para prestar alguns exames, e festejei, como todos, em 5 de agosto, a festa de Nossa Senhora das Neves. Mais tarde, numa favela de uma cidadezinha brasileira, padre Artur, um padre da ordem de Foucauld, me fez entender o que significava dedicar a vida a Jesus e ao Evangelho e, mesmo realizando os trabalhos mais humildes, me falou muito do fascínio de Deus, dos Evangelhos e da figura de Jesus. Fez-me entender o que significa a palavra confiança, sentir uma fé profunda que guia a todos os atos da nossa vida. O cardeal Martini me levou a refletir sobre a palavra de Deus, sobre as Escrituras, sobre o silêncio e sobre Jerusalém. Ensinou-me como era importante sentir os outros como nossos irmãos.

O que significa a presença de Jesus no mundo de hoje? Creio que é uma das grandes mensagens de paz da humanidade, uma grande resposta de como deveria ser conduzida uma vida humana para que seja o mais feliz e serena possível. é uma grande mensagem de esperança e de solidariedade para o mundo, que hoje precisa disso, e sua Igreja demonstrou e demonstra saber ser ainda mais uma formidável organização de paz, de caridade e de amor. O papa é um incansável defensor do bem, da paz, dos jovens, dos doentes e dos necessitados.

Jesus, além disso, é ética, justiça, poesia e inspiração. Obras-primas da arte, nos últimos dois milênios, da música à pintura, passando pela escultura e pela arquitetura no Ocidente, foram de inspiração cristã, e a Itália é ainda hoje o testemunho vivo disso. Os crucifixos pintados e esculpidos, as cenas da vida de Cristo e dos apóstolos inspiraram os maiores artistas de todos os séculos e de todas as gerações.

Nesta altura eu sinto a necessidade de fazer uma pergunta. Como seria o mundo sem Jesus? Sinceramente, muito diferente e até difícil de imaginar. Os judeus são poucos e sempre foram poucos, os muçulmanos são mais recentes e vêm depois do cristianismo. Talvez, sem os cristãos, nem houvesse muçulmanos. Talvez tivesse existido um outro filho de Deus em algum outro lugar. O fato, porém, de não se conseguir pensar na história sem Cristo significa, por si só, que Ele era uma exigência do mundo e que os homens sentiam necessidade dele.

Mas, talvez entendamos melhor a presença de Jesus no mundo vendo na televisão uma mulher indígena pele-vermelha que, em Nova Orleans, dizia desconsolada, olhando para os destroços da sua cidade destruída: “Depois que veio o furacão Katrina, para onde foi Jesus?”. O sentimento de abandono e de impotência diante do silêncio de Jesus, que parece tê-la deixado sozinha e abandonado sua cidade, nos diz como, em sua ausência, Jesus faz sentir sua falta. A mulher, na verdade, não lhe pede que se explique, mas que volte e a console, que não se afaste. Não é uma repreensão, mas uma exigência de amor.

 

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Última atualização em Qua, 10 de Fevereiro de 2010 07:47
 

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