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| A ciência e os princípios éticos |
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| Variedade |
| Qui, 27 de Maio de 2010 22:35 |
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Para quem acha que a ciência é neutra, santa e altruísta, ponto e basta, sugiro a leitura deste artigo do jornalista Marcelo Leite, que procura sempre estar em dia com assuntos científicos...
O ano se encaminha para um final trágico, no campo da pesquisa biotecnológica. Ontem explodiu a bolha de otimismo e reverência gerada pela publicação no periódico "Science", em maio, do trabalho do sul-coreano Woo-Suk Hwang com as 11 linhagens pioneiras de células-tronco embrionárias humanas obtidas por clonagem de células adultas. Saudado como primeiro passo para o desenvolvimento de terapias revolucionárias, o artigo foi objeto de um pedido de cancelamento do próprio autor à "Science", em meio a suspeitas de fraude e desrespeito à ética da pesquisa, ora confirmadas por painel da Universidade Nacional de Seul. Nos mesmos dias em que pipocava o escândalo, um grupo de bambambãs da biotecnologia publicou uma carta no sítio www. sciencexpress.org defendendo, com palavras escolhidas a dedo, o afastamento da imprensa leiga. "Acusações feitas pela imprensa sobre a validade dos experimentos publicados na Coréia do Sul são, em nossa opinião, mais bem-resolvidos na comunidade científica", escreveram os oito autores da correspondência. Entre eles estão Ian Wilmut e Alan Colman, dois dos "pais" da ovelha Dolly. A carta teve eco imediato no Brasil. "Concordo plenamente com a posição colocada na carta. Acho que os debates éticos têm que ser discutidos em âmbito acadêmico. Mesmo porque, dependendo da situação, julgar o que é ético ou não pode ser muito complexo", disse Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP e agora sua pró-reitora de Pesquisa, à Agência Fapesp. Com essa posição, Wilmut, Zatz e companhia flertam com a famigerada Lei de Ricúpero ("o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde"). Na hora do oba-oba, a imprensa veio bem a calhar, pois ajudou a aprovar verbas para pesquisa. Na hora em que essa mesma imprensa lanceta o tumor, pedem que se afaste para que a comunidade científica enfim cumpra a sua obrigação, tendo já falhado uma vez. "Seria esta a nossa versão das armas de destruição em massa?", questionou a bioeticista Laurie Zoloth, da Northwestern University (EUA), em entrevista ao jornal "The New York Times". Ela qualificou os acontecimentos como "reviravolta trágica" na pesquisa com CTEHs. É trágico, não resta dúvida. Por mais exagerada que fosse a promessa formulada em público, era a única possível na busca de tratamentos para várias condições hoje inabordáveis, como inúmeras doenças genéticas. Os erros de Hwang não desfazem a promessa, só atrapalham seu cumprimento. Agora, o escorregão será explorado por todos aqueles que se opõem a esse gênero de pesquisa por razões conservadoras, em geral religiosas (contrários à destruição de embriões). Ou talvez nem seja necessário, como disse Richard Doerflinger, um militante católico, ao "New York Times": "Como vou explorar isso? Não preciso. A coisa fala por si". A imagem pública da biotecnologia sofreu um golpe, e não será com o afastamento da imprensa que se recuperará dele.
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| Última atualização em Qua, 09 de Junho de 2010 20:36 |
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